Capítulo 8 Muito obrigado

— Em outra vida, eu a serviria dia e noite para retribuir sua bondade nesta — disse Blair, tentando se ajoelhar.

Cecília apenas observava, distante, como se fosse uma espectadora da própria vida.

Ela conhecia Blair bem demais para acreditar que havia mudado da noite para o dia. Aquilo era apenas mais um teatro para parecer digna de pena na frente de Rufus e conquistar sua compaixão. Era um truque que Blair havia aperfeiçoado ao longo dos anos.

Em total contraste com a indiferença de Cecília, a expressão de Rufus suavizou-se de preocupação. Ele amparou Blair antes que ela descesse ainda mais, com a voz calorosa e cheia de pena.

— Ela deve isso a você.

— Você... você é gentil demais. É por isso que as pessoas se aproveitam de você.

Rufus deu um leve toque entre as sobrancelhas dela, um gesto que carregava mais significado do que o seu tom revelava.

Blair apoiou-se nele, afundando o rosto em seu peito, aos prantos. Seus dedos agarraram o tecido fino do terno sob medida dele, apertando-o como se tentasse se ancorar em meio ao próprio tormento.

Rufus, geralmente tão meticuloso com suas roupas, não pareceu notar os amassados ou as manchas. Sua mão acariciava suavemente os cabelos dela. Aquela era a sua indulgência.

Com a interrupção de Blair, qualquer coisa que Cecília pretendesse dizer havia se perdido. A atenção de Rufus havia se desviado por completo. Ela poderia muito bem ser apenas parte do cenário — ou melhor, um pano de fundo para o drama de Blair.

Cecília dizia a si mesma que já deveria estar acostumada com aquilo, mas havia superestimado sua resiliência. Ao ver Rufus consolando Blair, seu peito se apertou de dor, embora aquele sofrimento já tivesse se tornado um velho conhecido.

Depois de um tempo, Blair levou a mão ao peito, alegando que não conseguia respirar. Rufus não hesitou. Ele se levantou e foi procurar o médico responsável.

Ele sempre fora muito cuidadoso com Blair. Caso contrário, jamais teria cogitado usar Cecília nos testes clínicos.

A porta se fechou, deixando apenas as duas mulheres no quarto.

Assim que Rufus saiu, a máscara de Blair caiu. A limpidez em seus olhos desapareceu, dando lugar a algo mais sombrio e venenoso.

— Cecília, por que você ainda não está morta? — Blair enroscou os dedos sob o queixo de Cecília, erguendo o rosto dela. Seu olhar era cortante, e sua voz destilava malícia. Ela não se parecia em nada com a mulher de segundos atrás.

Cecília virou o rosto, desvencilhando-se do aperto. Seu olhar era frio.

— Blair, não foi isso que você acabou de dizer. Você não estava prometendo ser grata, dizendo que ia me retribuir?

Ela imitou o tom de Blair, mas sua voz carregava um deboche evidente.

Blair soltou uma risada ríspida.

— O que eu digo não importa. O que importa é você, Cecília. Como ainda tem a audácia de aparecer?

— Como assim? — Cecília endireitou a postura, sustentando o olhar dela. Por baixo do cobertor, suas unhas cravavam na própria pele.

— Sua mãe era só uma amante, e nem sequer gostava de você. Seu pai nunca a assumiu. Você só traz problemas. Você é uma vergonha. E, mesmo assim, continua se agarrando ao posto de Sra. Chapman como se fosse a única coisa que lhe resta.

Ela trincou os dentes. "Qual é o sentido? Rufus deixou o passado para trás há muito tempo, mas você se apega a isso como se fosse ouro. Às vezes, me pergunto se você está atormentando a ele... ou a si mesma."

O sorriso de Blair era afiado, cada palavra como uma lâmina cravada no peito de Cecilia.

Ela conhecia os pontos fracos de Cecilia e atacava onde mais doía.

Normalmente, não importava o que Blair fizesse, Cecilia suportava em silêncio. Mas bastava mencionar Bronte ou a história com Rufus para que sua compostura desmoronasse.

Cecilia não era tola. Ela via claramente as intenções de Blair. Então, respirou fundo e se recompôs.

"Blair, você dá pena. Sabia disso?"

As palavras fizeram o sorriso de Blair vacilar. "O que você quer dizer com isso?"

Desde quando Cecilia tinha o direito de sentir pena dela? O leve traço de compaixão nos olhos de Cecilia deu calafrios em Blair.

Para Blair, Cecilia sempre fora um fracasso completo. E agora ela ousava sentir pena dela?

"Rufus a protege. Brad a mima. Mas eles sabem quem você realmente é? Eles sabem como você é de verdade?"

Blair paralisou.

"Não sabem", Cecilia continuou. "Então você acha que é adorada, mas ninguém a ama de verdade. Porque você nunca vai saber se, no momento em que mostrar o que realmente pensa, Rufus, Brad ou qualquer outra pessoa que diz se importar com você ainda a amaria sem hesitar."

As palavras atingiram o medo mais profundo no coração de Blair.

Ela empurrou Cecilia, ofegante. "Não... você está mentindo."

Mas nem a própria Blair sabia dizer se estava falando com Cecilia ou consigo mesma.

Cecilia não esperava uma reação tão forte. Ela se aproximou, aproveitando a vantagem, com a voz baixa e pausada. "E se eu contasse ao Rufus tudo o que você fez? Ele ainda a veria como uma garota inocente que precisa de proteção?"

A fúria e o pânico de Blair chegaram ao limite. Seus pensamentos se embaralharam, e o som da voz de Cecilia foi sumindo até que tudo o que ela conseguia ver era o movimento dos lábios dela.

Um único pensamento ardia em sua mente. Humilhá-la como antes. Garantir que ela nunca mais pudesse andar de cabeça erguida.

Os olhos de Blair se fixaram nos de Cecilia enquanto ela encurtava a distância.

Um segundo antes de seu controle se romper, a porta se abriu.

Seu instinto falou mais alto antes que pudesse pensar. Ela endireitou o corpo e, em seguida, se deixou cair no chão.

Blair não se poupou. Até mesmo uma simples queda foi o suficiente para deixar seu cotovelo ralado e sangrando.

"Blair!" Rufus cruzou o espaço em três passos largos, amparando-a com cuidado.

Antes que ele pudesse perguntar o que havia acontecido, Blair segurou o braço machucado e olhou para ele, com a voz trêmula. "Cecilia... mesmo que não goste de mim, não precisava ter feito isso. Eu já disse que, para compensar, daria qualquer coisa que você quisesse..."

Seus olhos se voltaram para Rufus, e uma lágrima escorreu no momento perfeito. "Mas não o Rufus. Ele não é algo de que eu possa simplesmente abrir mão. Além do mais... eu o amo."

Cecilia a observou se fazer de vítima mais uma vez, sentindo a irritação crescer. Blair usava esse teatrinho há anos, e ele nunca falhava.

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