Capítulo 9 Cecilia, isso está abaixo de você

Algumas pessoas sempre caíam no teatrinho de Blair.

Rufus estava amolecendo em relação a Cecilia depois de ouvir o que ela tinha dito mais cedo. Eles não eram próximos, mas pelo menos a tensão havia diminuído. Agora, graças à jogada calculada de Blair, ele estava se afastando dela novamente.

Ele passou o braço ao redor dos ombros de Blair, a decepção transparecendo em sua voz. "Nunca pensei que você ainda guardaria tanta hostilidade contra Blair depois de tudo isso. Talvez ela nunca devesse ter sido gentil com alguém como você."

Houve um tempo em que Cecilia teria exigido saber exatamente o que "alguém como você" significava. Agora, ela não tinha mais energia.

Blair era uma lunática. Rufus era um idiota que não conseguia enxergar quem ela realmente era.

Ver Cecilia baixar o olhar em silêncio só aumentou a irritação de Rufus. Ele odiava aquela expressão sem vida no rosto dela.

"Noah vai atualizá-la sobre a medicação experimental. Você deveria se cuidar."

Dizendo isso, Rufus pegou Blair nos braços e saiu sem olhar para trás.

Fora do campo de visão de Rufus, Blair lançou um olhar de deboche para Cecilia, como se dissesse: "Viu? A única pessoa com quem Rufus se importa sou eu."

Mas Cecilia não se importava mais.

Ela sabia que o dia seguinte era 25 — a data de vencimento das despesas médicas de Patrick. As ameaças de Brad ainda ecoavam em sua mente. Pelo que conhecia dele, ele com toda a certeza cortaria os pagamentos.

Esse pensamento a deixou inquieta até muito depois da meia-noite.

Ao amanhecer, ela foi direto ao departamento financeiro para perguntar sobre a conta de Patrick. Como esperado, Brad já havia suspendido os pagamentos.

Patrick estava usando os equipamentos de precisão do Sylvanor, com uma enfermeira particular que custava mil dólares por dia. Cecilia jamais conseguiria arcar com aquela despesa. A alternativa seria transferi-lo para uma enfermaria comum... mas ela se recusava.

"Srta. Thorne, o pagamento das despesas médicas do Sr. Thorne foi suspenso", disse Kaia, do financeiro, com gentileza, embora precisasse seguir o protocolo. "Se o saldo não for regularizado até o dia cinco do mês que vem, a medicação terá que ser interrompida."

Cecilia assentiu de forma distraída. "Obrigada. Eu entendo."

Kaia hesitou, e então acrescentou: "O estado do Sr. Thorne significa que ele não pode ficar sem cuidados hospitalares..."

Ela não precisava dizer mais nada. Cecilia entendia perfeitamente.

Ela precisava arrumar o dinheiro para o tratamento de Patrick — não importava como.

Quando Noah chegou com a equipe de especialistas, Cecilia estava calma.

"Eu vou cooperar", ela disse friamente, "mas quero ver Rufus."

Noah deu de ombros, num gesto de impotência. "O Sr. Chapman está ocupado no momento. Srta. Thorne, quanto mais você cooperar, menos vai sofrer, não é verdade?"

A resposta dela não mudou. "Eu quero ver Rufus."

Diante da determinação inabalável dela, Noah não teve outra escolha senão levá-la até ele. Desde que Blair tinha sido internada, Rufus passava a maior parte do tempo no hospital, então encontrá-lo não era difícil. Eles seguiram para a suíte VIP no último andar.

Cecília parou na porta.

O "quarto" de Blair parecia mais uma suíte de hotel de luxo do que um quarto de hospital, contando até com uma janela para visitantes. Através dela, era possível ver toda a sala de estar.

Rufus estava sentado no sofá enquanto Blair estava sentada em seu colo, segurando o rosto dele no momento em que os lábios dos dois se encontravam. As mãos dele passeavam pelo corpo dela, incendiando-a como fogo em palha seca. Eles se beijavam como se não suportassem a ideia de se separar.

Toda a cena se desenrolou bem no campo de visão de Cecília.

Rufus já a havia tocado daquele jeito antes — embora nunca com tanta ternura.

"Sra. Thorne, talvez seja melhor esperar um pouco antes de entrar", murmurou Noah. As palavras a despertaram de seu transe.

Ela balançou a cabeça, forçando-se a manter a postura. "Não vou entrar. Por favor, avise ao Sr. Chapman mais tarde: se ele quiser que eu continue colaborando com o ensaio clínico, terá que vir me ver."

Então, como se tivesse se lembrado de algo, acrescentou: "Só falarei com ele."

Sem olhar para trás, ela se virou e foi embora.

Só ela sabia que, no instante em que lhes deu as costas, uma única lágrima escorreu por seu rosto.

Quando ela finalmente aprenderia a não se importar?

Rufus só apareceu à meia-noite, provavelmente depois de ajeitar Blair na cama.

Cecília pôde sentir que, após os acontecimentos do dia, ele havia voltado a tratá-la como antes: distante.

"Soube que você se recusou a colaborar a menos que me visse", disse ele, puxando uma cadeira e mantendo uma distância cautelosa. "Qual é a confusão que você está tentando arrumar agora?"

Ela respirou fundo, medindo as palavras. Odiava demonstrar fraqueza na frente dele, mas não tinha escolha. A segurança de Patrick era mais importante do que o seu orgulho.

"Preciso de um dinheiro emprestado. Cerca de trezentos mil dólares. Eu devolvo assim que puder. Posso assinar uma nota promissória." A segunda parte saiu apressada, como se ela temesse que ele a interpretasse mal caso hesitasse.

Não era uma quantia absurda, mas Rufus não conseguia entender por que ela estava recorrendo a ele para isso.

"Que tipo de golpe você está armando agora?" Os olhos dele a analisaram com desconfiança.

Aquele olhar a esgotava, mas ela não tinha outra saída. "Meu avô ainda está internado, mas meu pai parou de pagar as despesas médicas dele. Preciso do dinheiro para cobrir esse valor."

A justificativa parecia razoável — mas não para Rufus. Ele não gostava dela, mas Cecília ainda era sua esposa, e ele se certificava de que Noah depositasse o dinheiro para as despesas dela todos os meses. Em teoria, não deveria estar lhe faltando dinheiro.

Porém, o que ele não percebia era que a própria Cecília estava doente, e o tratamento dela havia consumido todas as suas economias.

Se não estivesse desesperada, ela jamais teria se humilhado a ponto de pedir.

Ao se deparar com o olhar esperançoso dela, Rufus se levantou e o destruiu com uma única frase.

"Não me importa o joguinho que você está fazendo, mas é melhor ficar na sua por enquanto. Pare de inventar desculpas para chamar atenção.

"Cecília, isso é baixo demais para você."

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