Capítulo 6 Colega de classe misteriosa

— Não há necessidade disso — disse Charles, com o olhar firme, examinando o rosto dela. — Vá tomar um banho quente. Você precisa descansar.

Ele admirava a compostura que ela demonstrava. Não era a fragilidade de alguém prestes a desmoronar, no limite — era o tipo de controle que tornava uma pessoa mais digna de confiança. Sem se demorar, ele deu espaço para que ela ficasse sozinha.

O vapor a envolvia enquanto a água quente escorria por sua pele, mas o calor não conseguia alcançar o frio que havia se instalado em seus ossos, nem lavar a humilhação que grudara nela como uma segunda pele.

No espelho, um rosto pálido e abatido a encarava de volta. Seus olhos estavam injetados, mas de uma clareza penetrante, como um vidro que se recusava a trincar. Três anos de prisão haviam lhe tirado quase tudo — sua beleza, sua juventude, seu lugar no mundo —, mas não a pequena e teimosa brasa que ardia no fundo do seu olhar.

Ela fechou os olhos, e a imagem do olhar aterrorizado de seu filho lhe veio à mente involuntariamente.

Ela murmurou:

— Meu bebê, eu vou tirar você de lá. Desta vez, não serei tão ingênua.

Quando ela saiu do banho, a mesa de jantar estava posta com uma refeição simples, mas elegante. Ela se forçou a sentar, embora estivesse sem apetite. Bocado por bocado, ela comeu, porque precisava de forças. Precisava manter a mente afiada.

Diante da insistência silenciosa de Charles, ela acabou comendo mais do que esperava. O calor começou a se espalhar por seus membros e, com ele, veio uma exaustão esmagadora. Ela foi levada a um quarto de hóspedes e, no instante em que seu corpo tocou o colchão macio, mergulhou em uma escuridão profunda e sem sonhos.

Naquela noite, muitas pessoas na cidade não dormiram.

Os homens de Sebastian trabalharam rápido. Ao amanhecer, o relatório já estava em sua mesa.

— Charles? 

De pé diante da janela panorâmica de seu escritório, Sebastian franziu a testa ao ver o sol nascendo por entre as nuvens. O nome deixou um gosto amargo em sua boca. Saber que ela havia passado a noite sob o teto de Charles fez uma onda quente e ácida subir pelo seu peito. 

— Tem certeza de que Rachel está no apartamento particular de Charles?

— Sim, Sr. Lancaster — respondeu o assistente ao telefone. — Analisamos as câmeras de segurança da região na noite passada. Elas confirmam que a Sra. York foi apanhada pelo carro do Sr. Grey e levada para a cobertura dele no Centro Financeiro. Ela não saiu de lá desde então. Além disso, o Sr. Grey voltou do exterior na semana passada. Ele está aqui como representante do Grupo Grey, expandindo os negócios para os mercados regionais. Ele e a Sra. York parecem ser velhos conhecidos — os registros mostram que estudaram no mesmo colégio.

— Antigos colegas de escola? — A risada de Sebastian foi ríspida e sem humor.

Uma mulher arruinada, ex-presidiária, e um homem rico e cheio de contatos que, por acaso, reapareceu no exato momento em que ela estava no fundo do poço? Ele "por acaso" estava lá para resgatá-la, e depois a levou para sua residência particular?

A ideia de Rachel demonstrando vulnerabilidade diante de outro homem — apoiando-se nele — arranhava os nervos de Sebastian como cacos de vidro. Essa imagem o assombrava há anos, e cada vez que vinha à tona, seu ressentimento por ela se tornava ainda mais profundo.

E Charles… Sebastian se lembrava vagamente desse nome. Anos atrás, ele não era ninguém; apenas um estudante pobre e sem prestígio. Agora, ele ousava interferir nos assuntos de Sebastian?

A ideia era intolerável. Mesmo que Sebastian a desprezasse, Rachel ainda carregava o nome dele. Nenhum outro homem tinha o direito de tocá-la.

— Traga o carro — ordenou Sebastian, com a voz gélida. — Vamos para o apartamento de Charles.

Às oito da manhã, a campainha tocou na cobertura de Charles — estridente, insistente, carregando o peso de um confronto.

Nina Brown, a assistente de Charles, olhou para o monitor de segurança. Do lado de fora, estava Sebastian Lancaster em um terno sob medida, com uma expressão sombria e predatória, ladeado por dois guarda-costas. Ela informou Charles imediatamente, que terminava de tomar seu café da manhã.

Charles pousou a xícara de café, sem se surpreender. Ele já esperava que Sebastian viesse — só não tão rápido, e claramente não de bom humor.

— Deixe-o entrar — disse Charles com um leve aceno de cabeça.

Sebastian entrou na sala de estar a passos largos, os olhos varrendo o luxo discreto do ambiente. Seu olhar recaiu sobre o segundo lugar posto à mesa antes de se fixar em Charles.

Dois homens — ambos altos, ambos imponentes, ambos irradiando poder — estavam frente a frente no espaço aberto. A tensão no ar aumentou.

— Charles? — começou Sebastian, com um tom carregado de arrogância. — Sou Sebastian. Estou aqui para levar minha esposa para casa.

Ele enfatizou as palavras "minha esposa", com o olhar afiado como uma lâmina.

Charles se levantou lentamente. Ele era um pouco mais alto, e sua presença era mais contida, porém carregada de autoridade. Ele não respondeu diretamente. Em vez disso, deu um sorriso de leve, embora o sorriso não tenha chegado aos seus olhos.

— Sr. Lancaster. Já ouvi falar de você. Mas, pelo que entendi, ontem à noite você deu um grande espetáculo público ao expulsar sua esposa na chuva fria. E agora, menos de doze horas depois, mudou de ideia?

O maxilar de Sebastian travou, os olhos faiscando.

— Isso é entre a minha esposa e eu. Não é assunto para um estranho se intrometer. Não me importa o que você era da Rachel antes — entregue-a agora. Ou...

— Ou o quê? — interrompeu Charles, com a voz calma, mas firme como aço. — Vai tentar impor sua autoridade? Usar o Grupo Lancaster para me causar problemas?

Ele deu um passo à frente, diminuindo o espaço entre eles, com o olhar inabalável.

— Os tempos mudaram, Sr. Lancaster. Nem todo mundo tem medo do nome da sua família. A Srta. York é minha amiga. Ela não estava em condições de ficar sozinha ontem à noite, e não está em condições de voltar para o lugar que a destruiu.

— Amiga? — A risada de Sebastian foi baixa e desdenhosa. — Engraçado. Nunca a ouvi falar de você quando morávamos juntos. Ou será que essa "amizade" de vocês é algo que ela não podia admitir para mim? Deixe-me avisá-lo: aos olhos da lei, Rachel ainda é a Sra. Lancaster. Escondê-la significa transformar-se em um inimigo da minha família. Se você for inteligente, vai entregá-la antes de cometer um erro que não possa consertar.

A expressão de Charles perdeu qualquer traço de cordialidade. Uma aura fria e perigosa tomou conta dele.

— Escolha bem as suas palavras, Sr. Lancaster. Nós dois sabemos a verdade sobre as acusações contra ela. E quanto a inimigos...

Seus lábios se curvaram em um sorriso sem nenhum humor.

— Eu não voltei a este país para fazer amigos. Se você quer briga, eu lhe darei uma. Mas você não é bem-vindo aqui. Vá embora.

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