Capítulo 8 Eu sou sua esposa legal

— Sebastian, você voltou. — A voz de Laura era doce como mel, mas quando seu olhar recaiu sobre Rachel, ela deixou transparecer a dose exata de surpresa. — Rachel? Estou tão feliz que você esteja bem.

Rachel nem sequer olhou para ela. Seus olhos foram direto para Sebastian, com um tom inexpressivo, quase entediado. — Onde é o meu quarto?

Sebastian franziu a testa, o descontentamento brilhando em seus olhos. — Segundo andar, quarto de hóspedes da ala oeste. Fique por lá. E não incomode a Laura nem chegue perto do jardim dos fundos.

O jardim dos fundos.

Uma dor aguda apertou o peito de Rachel, mas seu rosto permaneceu impassível. Ela murmurou um "tudo bem" fraco e indiferente, pegou sua bolsa pequena e subiu as escadas sem lançar um único olhar a nenhum dos dois.

Laura observou as costas rígidas de Rachel até que ela desaparecesse, com as unhas cravando na própria palma da mão.

À tarde, no corredor.

Laura apareceu logo à frente, carregando um vaso de porcelana caro e conhecido.

Rachel manteve o olhar fixo à frente, com a intenção de passar sem dizer uma palavra.

Bem quando estavam prestes a passar uma pela outra, Laura soltou um arquejo agudo. O vaso escorregou de suas mãos — espatifando-se no chão em uma chuva de cacos pontiagudos.

— Rachel! Por que você me empurrou? — Os olhos de Laura se encheram de lágrimas, a voz tremendo de incredulidade magoada. — Mesmo que esteja com raiva, você não pode descontar no vaso do Sebastian.

Rachel observou a atuação dela, impassível, sem sequer recuar dos cacos aos seus pés.

— Já terminou o seu teatrinho? — A voz dela soou baixa, mas carregada de frieza. — O mesmo truque duas vezes. Ainda não se cansou disso?

O soluço de Laura ficou preso na garganta.

O barulho atraiu vários funcionários da casa, que paralisaram diante da cena.

Sebastian chegou instantes depois, com o rosto sombrio como uma tempestade. Seu olhar varreu a porcelana quebrada e, em seguida, cravou em Rachel como uma lâmina. — O que você fez desta vez?

Antes que Rachel pudesse falar, Laura se apressou em explicar. — Sebastian, não é culpa da Rachel. Eu fui descuidada...

— Com certeza não é culpa dela — Rachel a interrompeu friamente, com os olhos fixos em Sebastian e o tom afiado de deboche. — A culpa é minha por estar no lugar perfeito para ela esbarrar em mim.

Sebastian franziu ainda mais a testa. — Rachel! Você vai mesmo negar? Acha que a Laura quebraria alguma coisa só para incriminar você?

— E por que não? — Rachel rebateu, os lábios se curvando em um sorriso leve e gélido. — Três anos atrás ela fez exatamente isso. Você, mais do que ninguém, deveria se lembrar. Afinal, você sempre acreditou só nela, não é?

As palavras dela o atingiram como uma agulha no coração, e por um momento Sebastian ficou sem resposta.

— Não se trata do que eu acredito. A prova está bem aqui. Ou você está sugerindo que todos aqui são cegos? — Seu olhar varreu os funcionários silenciosos, com a voz dura.

Rachel soltou uma risada curta e amarga. — Nesta casa, as lágrimas da Laura são todas as provas de que você precisa. Minhas palavras? Apenas desculpas. Sr. Lancaster, por que ainda se dá ao trabalho de me perguntar?

Ela se virou para sair.

— Pare! — A voz de Sebastian estalou como um chicote. — Você acha que pode quebrar uma coisa e sair andando sem assumir a responsabilidade?

Rachel parou, mas não se virou. Sua voz era puro gelo. — Sr. Lancaster, você se esqueceu? Eu sou sua esposa legítima. Se eu quebro um vaso na minha própria casa, que responsabilidade exatamente eu deveria assumir? Mas, se você for checar as imagens das câmeras de segurança, certifique-se de assistir a cada segundo. Não vá pular "acidentalmente" os trechos cruciais de novo.

Sem esperar resposta, ela se afastou de costas retas e passos firmes. Não restava nada de sua antiga obediência.

As palavras "esposa legítima" fizeram o estômago de Laura revirar de ódio.

Como uma mulher como Rachel ainda podia ostentar o título de Sra. Lancaster?

O semblante de Sebastian escureceu ainda mais, aquela mesma frase como um espinho cravado sob sua pele.

Percebendo a irritação dele, Laura encostou-se nele, a voz suave e trêmula, mas cuidadosamente carregada de veneno. "Sebastian, por favor, não fique irritado. A Rachel... ela deve estar apenas de mau humor por ter acabado de sair da prisão."

A mandíbula de Sebastian trincou. "Ela só está querendo mostrar quem manda."

Não era assim que ela agia perto de Charles.

Laura baixou o olhar, fingindo hesitação. "Ouvi dizer que as coisas lá dentro podem ser... difíceis. Talvez ela só tenha adquirido alguns maus hábitos. O vaso não tem importância. Não quero que vocês briguem por minha causa."

Suas palavras transbordavam uma falsa bondade, mas plantaram a semente de que Rachel havia voltado mais insensível, maldosa e moralmente corrompida.

Os olhos de Sebastian se estreitaram ao olhar na direção em que Rachel havia sumido, e ele murmurou algo em voz baixa para confortar Laura.

Mais tarde, naquela noite.

Guiada pela memória e pelas informações que Charles havia lhe dado, Rachel passou sorrateiramente pelos guardas que patrulhavam o local e seguiu até o galpão trancado no quintal.

Sua garganta deu um nó. Ela tirou um pedaço de pão, ainda quente por ter ficado escondido junto ao corpo, e uma caixinha de leite. Ajoelhando-se, empurrou-os pela estreita fresta por baixo da porta.

Lá de dentro veio um leve ruído de movimento, seguido pelo som suave e cuidadoso de uma criança comendo.

Lágrimas escorreram silenciosamente pelo rosto de Rachel.

Na manhã seguinte, seu filho estava ardendo em febre, vomitando e se contorcendo de cólicas.

O médico da família o examinou e disse que ele havia comido algo estragado e pegado uma friagem.

Quando a notícia chegou a Sebastian, sua fúria foi instantânea.

Laura, ao lado dele, soltou um suspiro preocupado. "Como isso foi acontecer? Ele estava ótimo ontem. A não ser que..."

Ela se interrompeu, cobrindo a boca, enquanto seus olhos se desviavam para a direção onde Rachel havia sido confinada na noite anterior.

"A não ser que o quê?" A voz de Sebastian soou ríspida.

Laura estremeceu, e então falou em um tom baixo e hesitante. "Eu... eu achei ter visto a Rachel indo para o quintal ontem à noite. Sebastian, não quero acusá-la, mas ela odeia aquela criança. Ela o culpa por ter arruinado a reputação dela, por impedi-la de ser a perfeita Sra. Lancaster. E se ela... e se ela quisesse..."

Ela não terminou a frase, mas a insinuação era clara: Rachel havia tentado se livrar do "bastardo" que estava em seu caminho.

"Rachel!" A fúria de Sebastian explodiu. Ele saiu pisando fundo para procurá-la.

Rachel, que acabara de saber que o filho estava doente, já estava desesperada quando deu de cara com a fúria de Sebastian.

"Sua mulher perversa! Você seria capaz de machucar o próprio filho só para ser a Sra. Lancaster? Você se rebaixaria a esse ponto?"

Rachel paralisou por um instante, e então a ficha caiu: Laura de novo.

Três anos de injustiça, raiva e a dor crua do amor de uma mãe explodiram de uma só vez.

"Sebastian! Você é cego ou completamente idiota? Ele é meu filho! Eu daria a minha vida por ele! E você acha que eu o machucaria? É a Laura! Sempre foi ela! Três anos atrás foi ela, e agora é ela de novo! Por que você não investiga o que ela fez ontem à noite? Por que você só acredita na palavra dela?"

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