Capítulo 3
A adega abandonada sob a propriedade era gelada de doer os ossos e úmida. O ar pairava pesado, impregnado do fedor sufocante de mofo e fezes de rato.
Nero fora jogado no chão. Estava ardendo de febre, uma febre cruel.
Seus lábios pálidos e rachados tremiam enquanto ele murmurava, delirante:
— Mamãe... que frio... me abraça, mamãe...
Ajoelhei ao lado dele, abrindo os braços numa tentativa inútil e desesperada de cobri-lo com o calor inexistente da minha alma.
Mas era inútil.
O hematoma espalhado pelo peito frágil dele — exatamente onde a bota de Alessandro acertara — já tinha florescido num roxo-negro apavorante, necrosado.
Ele estava se apagando depressa.
Enquanto isso, lá em cima, o banquete luxuoso seguia em plena fúria.
Luca, o subchefe de Alessandro, abriu caminho com rapidez pelo meio da multidão de convidados alheios a tudo e se inclinou para perto do ouvido do seu Don.
— Depois que jogamos aquele catador pra fora, o senhor mandou eu puxar a ficha dele. Ele realmente é um cara que se encarrega de desovar corpos, designado pras favelas do Décimo Segundo Distrito de Detroit. Além disso...
Luca hesitou, engolindo em seco.
— Eu contatei nossos informantes na polícia de Detroit. Eles confirmaram que uma mulher apareceu morta nas favelas ontem. A descrição física... bate muito com a da Madame.
— Quanto ela pagou praqueles tiras de Detroit entrarem nessa pantomima? — Alessandro zombou, virando o resto do champanhe num único gole.
— Diga aos nossos homens em Detroit pra ignorarem isso. Se ela quer brincar de morta, que apodreça no papel.
— Mas, senhor, o Instituto Médico-Legal de Detroit acabou de enviar um fax pra mansão...
Antes que Luca terminasse a frase, Elena deslizou até eles.
— Alessandro, e sobre o que vocês dois estão cochichando? Estão com uma cara tão sombria. — Sorrindo com brilho, ela entregou a Luca uma bebida nova. — Luca, é o meu aniversário. Seja um querido e não sobrecarregue o Don com assuntos deprimentes hoje à noite.
Luca lançou um olhar interrogativo para Alessandro.
Sem ver objeção no Don, ele engoliu o relatório urgente, inclinou-se com respeito e se misturou de volta à multidão.
Flutuando lá em cima, encarei o rosto nauseantemente hipócrita de Elena.
Eu sabia exatamente o que ela tinha feito. Mal dez minutos antes, ela subornara os guardas da sala de comunicações para interceptar e destruir aquele fax.
Ela acreditava que podia enterrar a verdade para sempre.
Mas um escudo de papel nunca segura um incêndio.
Já tarde da noite, os últimos convidados finalmente foram embora.
Alessandro sentou sozinho em seu escritório mal iluminado, massageando com violência as têmporas latejantes.
Uma inquietação pesada e sufocante roía por dentro.
Ele não conseguia afastar a imagem fantasma dos olhos de Nero — o reflexo sinistro dos próprios olhos — nem o eco assombrado daquela voz frágil: “Mamãe realmente foi dormir.”
Irritado, ele afrouxou a gravata borboleta, pretendendo se distrair com assuntos do sindicato.
De repente, um zunido mecânico rompeu o silêncio morto.
A máquina de fax segura, de reserva, escondida no canto do escritório, ganhou vida com um zumbido.
Alessandro franziu a testa, os instintos se aguçando à medida que se aproximava.
Ele pegou a primeira folha de papel.
Era uma fotografia granulada, em preto e branco.
O assunto era um cadáver feminino. O corpo era praticamente um esqueleto coberto de pele, as bochechas brutalmente escavadas, o cabelo seco e quebradiço como grama morta no inverno.
Por causa da baixa resolução, os traços do rosto estavam levemente borrados.
Alessandro soltou uma bufada áspera, jogando o papel com displicência sobre a mesa. “Genevieve, dessa vez você se superou. Arrumar uma foto de adereço nojenta dessas deve ter dado um trabalhinho.”
A máquina continuou cuspindo folhas.
A segunda era uma fotografia clínica, em close.
O joelho direito.
A estrutura óssea salientando sob a pele pálida estava deformada num ângulo grotescamente torcido, antinatural — a marca inconfundível de um ferimento de bala que fora deixado completamente sem tratamento, obrigando os fragmentos do osso estilhaçado a se fundirem e cicatrizarem do jeito errado.
O olhar de Alessandro travou de repente.
Cinco anos antes, ele mesmo havia puxado o gatilho que obliterou a minha rótula direita.
A respiração dele ficou subitamente irregular. Com os dedos agora visivelmente tremendo, ele arrancou a terceira folha.
Era um laudo de autópsia completo.
[Falecida: Genevieve.
Causa da morte: Desnutrição grave, complicada por infecção pulmonar bilateral maciça; osteomielite séptica com origem em ferimento de bala crônico, sem tratamento, no membro inferior direito.
Momento da morte: Sete dias antes.]
“Falso... é tudo falso!”, Alessandro rugiu, rasgando os laudos em pedaços.
“Ela não pode estar morta! Uma mulher tão venenosa quanto ela não morre num esgoto imundo qualquer!”
Ele agarrou o fone e discou com agressividade o número no topo do papel timbrado do Instituto Médico-Legal de Detroit.
A ligação foi atendida quase na hora.
“Aqui é o Alessandro”, rosnou ele. “Não me importa quanto a Genevieve pagou a vocês. Acabem com essa farsa patética agora. Coloquem ela na porra do telefone!”
A voz do outro lado se retesou instantaneamente, apavorada. “Minhas desculpas, Don... mas lamento informar que ela faleceu.”
Sentindo a intenção assassina irradiando pela linha, o legista falou mais rápido, desesperado para provar que aquilo não era uma brincadeira doentia.
“Se o senhor precisar de confirmação visual, posso mudar para uma chamada de vídeo.”
Alessandro aceitou a transmissão. A tela ganhou vida.
Era o necrotério.
O legista deu um passo para trás, e uma mão enluvada puxou a gaveta de aço subterrânea de um dos compartimentos.
Um rosto sem vida, beijado pelo gelo, surgiu na tela.
Era o meu rosto.
Alessandro encarou a tela sem piscar, os olhos quase saltando das órbitas.
“Isso é impossível...” A voz dele se partiu num tremor violento, carregada de um terror cru, primal, que ele nem percebeu que estava sentindo.
Era como se a medula tivesse sido sugada direto dos ossos. As pernas fraquejaram, e o intocável Don da Máfia desabou pesadamente no chão.
