Capítulo 1 Eles acabaram de me trair?
Ponto de vista da Emma
Estou parada em frente à casa do meu namorado.
Enfio as mãos bem fundo nos bolsos do moletom, mesmo a noite não estando tão fria. Meu coração está batendo tão alto que parece que a rua inteira, silenciosa, consegue ouvir.
Isso é uma ideia idiota.
Ou talvez seja a coisa mais corajosa que eu já fiz.
Ergo os olhos para a casa familiar, a luz da varanda brilhando suave contra a escuridão. Mason comentou no começo desta semana que os pais dele iam ficar fora por três dias. Ele falou como quem não quer nada, enquanto a gente saía da escola, como se não significasse nada.
Mas isso ficou martelando na minha cabeça.
Três dias sozinhos.
Três dias em que ninguém ia interromper a gente.
Engulo em seco e olho para o celular. Três mensagens não lidas da minha mãe.
“Você chegou na casa da Olivia em segurança?”
“Não fique acordada até tarde estudando.”
“Manda um oi pra Olivia por mim.”
Uma pontada aguda de culpa se instala no meu estômago.
Eu menti pra eles. Disse aos meus pais que ia dormir na casa da Olivia pra gente estudar juntas para as provas finais. Minha mãe nem hesitou antes de dizer que sim. Ela confia em mim. Sempre confiou.
E a Olivia teria me acobertado se eu pedisse. Só que a Olivia também não sabe disso.
Meus dedos se apertam em torno do celular.
A mentira vale a pena.
Pelo menos é isso que venho dizendo a mim mesma a semana inteira.
Mason anda frustrado ultimamente. Toda vez que a gente começa a se beijar, as coisas ficam tensas quando eu impeço ele de ir além. No começo ele foi paciente com isso. Carinhoso, até. Mas, ultimamente, a paciência dele começou a se esgotar.
Na semana passada, ele suspirou e disse: “Emma, a gente está namorando há quase um ano. O que você está esperando?”
Eu não soube como responder. Todo mundo parece tão à vontade com isso. As meninas na escola falam de perder a virgindade como se fosse só mais uma sexta-feira à noite. A Olivia faz piada sobre ficar com alguém como se não fosse nada.
Enquanto isso, eu me sinto presa no passado. Como se eu fosse a esquisita.
Mason não é um cara ruim. Ele é engraçado, charmoso quando quer, e quando ele sorri pra mim meu estômago dá um friozinho bom.
Ele é meu namorado. E namorados e namoradas supostamente fazem essas coisas, mais cedo ou mais tarde.
Então, hoje à noite, eu decidi parar de pensar demais.
Hoje à noite, eu decidi fazer ele feliz.
Respiro fundo e subo os degraus da frente antes que eu possa mudar de ideia.
A porta está meio aberta. Isso me faz parar.
Por um segundo, eu me pergunto se vim à casa errada, mas não. Esta é, com certeza, a casa do Mason. A tinta azul familiar na porta, a rachadurinha no corrimão que o pai dele vive dizendo que vai consertar.
Talvez ele tenha esquecido de fechar.
Empurro a porta devagar e entro.
— Mason? — chamo baixinho, mas não obtenho resposta.
A casa está escura, exceto por uma luz fraca no andar de cima.
Um sorrisinho puxa meus lábios.
Perfeito. Se ele estiver no quarto, essa surpresa vai funcionar ainda melhor do que eu planejei.
Meus tênis mal fazem barulho enquanto atravesso a sala de estar. Meu coração volta a disparar quando chego à escada. Seguro o corrimão e subo em silêncio, imaginando a expressão no rosto dele quando eu entrar.
Surpresa.
Talvez ele ria e me puxe para um abraço. Talvez ele me beije e pergunte o que eu estou fazendo aqui. Talvez hoje à noite tudo finalmente volte a parecer normal entre a gente.
No meio do corredor, eu ouço alguma coisa.
Um som.
Eu paro.
No começo é fraco demais para reconhecer. Só ruídos suaves vindo de trás da porta do quarto do Mason. Aí eu ouço de novo. É um gemido baixo, ofegante.
Meu estômago despenca.
Não.
Fico ali, paralisada, encarando a porta fechada como se ela pudesse, de repente, se explicar sozinha. Talvez eu esteja imaginando coisas. Talvez ele esteja assistindo a alguma coisa no notebook.
Mas outro som atravessa a porta. Mais nítido desta vez. Outro gemido, bem mais alto agora.
Meus dedos começam a tremer. Devagar, dou um passo mais perto da porta. Cada passo parece mais pesado que o anterior. Como se meu corpo já soubesse algo que minha mente se recusa a aceitar.
A porta está entreaberta. Bastou um empurrãozinho para revelar uma cena que faz o meu mundo parar.
Mason está na cama, e não está sozinho.
A garota embaixo dele engasga e puxa o cobertor para cima quando me vê ali, parada. Mason vira a cabeça, a expressão mudando de surpresa para irritação em menos de um segundo.
— Emma? — ele diz, ríspido. — Que porra você está fazendo aqui?
As palavras arrancam o ar dos meus pulmões.
— O que eu estou fazendo aqui? — minha voz sai fina e trêmula. — O que você está fazendo?
A garota se atrapalha para sair da cama, pegando as roupas e passando correndo por mim sem dizer uma palavra.
Nenhum de nós a acompanha com os olhos.
Toda a minha atenção está em Mason.
Ele passa a mão pelo cabelo como se aquilo fosse a interrupção mais inconveniente da noite dele.
— Você não devia ter vindo aqui — ele resmunga.
Eu encaro ele.
— Eu vim te fazer uma surpresa.
— É, bom — ele diz, seco —, missão cumprida.
Meu peito aperta.
— Você está me traindo, Mason.
Ele revira os olhos.
— Ai, meu Deus, Emma, não começa.
— Não começa? — minha voz falha. — Eu acabei de te pegar com outra garota!
— E daí? — ele rosna. — Você vem agindo como uma freira há meses. O que você esperava?
As palavras doem mais do que um tapa.
— Eu vim aqui hoje porque eu estava pronta — digo, baixinho.
Ele franze a testa.
— Eu menti pros meus pais — continuo, com a garganta queimando. — Eu disse que ia dormir na casa da Olivia. Eu vim porque queria te surpreender. Eu achei… eu achei que talvez, se eu finalmente parasse de ser tão esquisita com tudo, a gente podia—
Não consigo terminar a frase.
Mason me encara por um segundo.
Então ele ri. O som estilhaça alguma coisa dentro do meu peito.
— Você está falando sério? — ele diz.
Minhas mãos se fecham em punhos.
— Claro que eu estou falando sério!
— Ah, bom, então acho que eu caguei tudo bem feio, né? — Ele balança a cabeça como se a situação inteira fosse ridícula.
— Sabe qual é a parte mais engraçada? — ele continua. — Isso aqui nem era pra ter durado tanto tempo.
Meu coração falha uma batida.
— Como assim?
Ele dá de ombros.
— A Olivia brincou que você precisava de um namorado pra ter a experiência completa do ensino médio ou sei lá. Virou um desafio. Eu pensei: por que não?
O quarto gira.
— Um desafio? — eu sussurro.
— No começo era inofensivo — ele continua, casual. — Aí eu percebi que você é bem útil, na real.
Cada palavra acerta como um soco.
— Você me ajudou a passar em tipo três matérias — ele acrescenta. — Todos aqueles trabalhos, projetos, respostas de prova. Sinceramente, eu provavelmente teria reprovado sem você.
Eu encaro ele, lembrando de cada noite virada explicando lição pra ele. De cada vez que eu deixei ele copiar durante uma prova. De cada vez que eu achei que estava ajudando meu namorado.
— Você me usou — eu digo.
— Relaxa — ele zomba. — Não é tão sério assim.
— Não é tão sério? — alguma coisa dentro de mim finalmente estoura. — Vai pro inferno, Mason! — eu grito. — Tomara que essa sua porra de pau pare de funcionar e que você comece a sangrar toda vez que tentar levantar!
Eu me viro e saio do quarto antes que ele consiga dizer mais alguma coisa.
O ar frio da noite bate no meu rosto no instante em que eu piso do lado de fora da casa dele. Eu nem percebo que estou chorando até sentir o gosto de sal nos lábios.
Como eles dois puderam fazer isso comigo… numa noite só?
