Capítulo 2 Eu beijei o irmão do meu melhor amigo!
Ponto de vista de Emma
Seu coração já foi partido alguma vez? Você já descobriu que o seu relacionamento… uma coisa que você achava real, uma coisa que defendia, uma coisa em torno da qual construía os seus dias, não passava de uma piada para outra pessoa? Se não, então você tem mais sorte do que imagina.
Eu costumava achar que as garotas exageravam quando falavam de coração partido como se fosse o fim do mundo. Saindo da casa de Mason agora, percebo que não exageravam.
Enxugo as bochechas com a manga do moletom e tiro o celular do bolso. O nome de Olivia me encara da tela. Por um segundo, hesito, porque uma parte teimosa de mim ainda espera que Mason estivesse mentindo. Talvez ele só tenha dito aquilo para me machucar. Talvez Olivia não faça ideia do que ele estava falando.
Aperto para ligar.
O telefone toca três vezes antes de cair na caixa postal. Fico encarando a tela por um segundo antes de rediscá-la. A segunda ligação dura ainda mais, mas o resultado é o mesmo. Sem resposta.
— Você tá falando sério agora? — murmuro baixinho.
Somos melhores amigas há anos, e nunca houve uma vez sequer em que ela tenha me ignorado desse jeito.
A menos que ela esteja me evitando.
A possibilidade se instala pesadamente no meu peito. Se Mason me disse a verdade, então Olivia talvez já saiba exatamente por que estou ligando.
Esse pensamento afasta o último resquício de hesitação que eu tinha.
Se esse relacionamento inteiro realmente começou por causa de um desafio idiota, eu quero ouvir isso da boca dela. Quero olhar nos olhos dela e perguntar por que ela achou engraçado me humilhar daquele jeito.
Antes mesmo de perceber o que estou fazendo, meus pés começam a atravessar o gramado em direção à grande mansão dos Sterling ao lado. Já percorri esse caminho tantas vezes que ele parece automático, porque passei mais tardes lá do que na minha própria casa.
Esta noite, a caminhada parece diferente.
Meu celular ainda está firmemente apertado na minha mão quando chego à porta da frente e digito o código de segurança que conheço há anos.
A casa está escura quando entro.
— Olivia? — chamo, enquanto a porta se fecha atrás de mim.
Minha voz ecoa de leve pelo grande corredor.
Sem resposta.
Dou mais alguns passos para dentro e olho na direção da escada. O lugar parece estranhamente vazio.
— Olivia! — tento de novo, mais alto desta vez.
Ainda nada.
Um pequeno nó de frustração se aperta no meu peito. Pego o celular e ligo para ela de novo enquanto caminho devagar em direção à cozinha.
A chamada toca.
E toca.
Então cai na caixa postal de novo.
Uma risada amarga escapa de mim quando abaixo o telefone.
— Ótimo timing, Liv.
Se ela está me ignorando de propósito, escolheu a pior noite possível para fazer isso.
Estou prestes a ligar outra vez quando ouço uma porta se abrir em algum lugar atrás de mim.
O som me faz congelar.
Eu me viro bem na hora em que alguém entra na cozinha pela entrada lateral.
Por um segundo, meu cérebro não processa o que estou vendo.
O cara parado ali é alto, de ombros largos, e está pingando, como se tivesse acabado de sair da piscina nos fundos da casa. A água escorre pelo peito e pelo abdômen antes de desaparecer na cintura de uma sunga escura. O cabelo está molhado e puxado para trás, longe da testa, e ele parece tão surpreso em me ver quanto eu em vê-lo.
Então ele ergue completamente a cabeça.
E meu estômago despenca.
Dylan Sterling.
O irmão mais velho de Olivia.
Não o vejo há meses. A última vez foi durante as férias de inverno, antes de ele voltar para a faculdade para jogar hóquei. Naquela época ele já parecia intimidador, mas agora parece maior de alguma forma, como se a faculdade o tivesse transformado em uma pessoa completamente diferente.
Por um momento, nenhum de nós fala.
Dylan olha para mim, a confusão evidente em sua expressão.
— Ahm — ele diz devagar — quem é você?
A pergunta me arranca do choque.
— Emma — respondo automaticamente.
A testa dele se franze levemente, como se o nome não lhe dissesse nada, o que de algum modo parece um pouco ofensivo, considerando quantos anos passei andando por esta casa. Mas, por outro lado, Dylan sempre foi assim. No ensino médio, ele mal prestava atenção nas garotas ao redor da irmã.
Exceto, talvez, para flertar com elas.
— Sou amiga da Olivia — acrescento depressa.
— Certo — ele diz, embora ainda pareça incerto. — Por que você está na minha casa?
— Estou procurando a Olivia.
— Ela não está aqui.
Claro que não está.
Solto um suspiro frustrado e passo a mão pelo cabelo. — Ótimo. Que ótimo.
Dylan estuda meu rosto com mais atenção agora. O olhar dele se detém nos meus olhos vermelhos e nas minhas bochechas marcadas de lágrimas.
— Você está chorando? — ele pergunta.
— Não.
A mentira sai automaticamente.
Ele arqueia uma sobrancelha, mas não discute. Tem algo no jeito como ele está me olhando que, de repente, faz tudo transbordar antes que eu consiga impedir.
— Meu namorado me traiu — solto, de uma vez.
Dylan pisca.
— Eu peguei ele com outra garota na cama dele e ele nem se desculpou por isso. — Continuo, com a voz tremendo apesar do meu melhor esforço para parecer calma.
Dylan se encosta com tranquilidade na bancada, cruzando os braços no peito enquanto escuta.
— E, pelo visto — acrescento, amarga —, o relacionamento inteiro começou como uma aposta idiota porque minha melhor amiga achou que eu precisava de um namorado. Então isso é ótimo também.
As palavras ficam pairando no ar, constrangedoras.
Por um instante, Dylan não reage.
Então ele dá de ombros.
— Eu nem sei quem é esse cara — ele diz —, mas parece um idiota.
A simplicidade da frase me pega desprevenida. Apesar de tudo, uma risadinha escapa de mim.
— O nome dele é Mason — eu digo.
— Continua sendo um idiota.
Enxugo o rosto de novo e balanço a cabeça. — É. Acho que é mesmo.
Dylan me observa em silêncio por um momento. De perto, ele parece ainda maior do que eu lembrava.
— E você veio aqui porque…? — ele pergunta.
— Pra gritar com a Olivia — admito. — Se ela realmente começou isso tudo como uma piada, eu quero ouvir ela dizer na minha cara.
Ele assente devagar.
Então os olhos dele se estreitam um pouco.
— Espera — ele diz. — Você disse que foi lá hoje à noite?
A pergunta faz um calor subir pelo meu pescoço. — Isso não é da sua conta.
Um sorriso leve puxa o canto da boca dele. — Você ia dormir com ele, não ia?
Eu paraliso.
— Como você…?
— Chute de sorte.
Meu rosto queima.
— Uau — ele diz, um segundo depois. — Aquele cara fez muita merda.
O comentário me faz levantar o olhar.
— Você acha?
— Óbvio.
O tom dele é tão certeiro que me pega desprevenida.
Por um momento, a cozinha fica em silêncio.
De repente, fico muito consciente do quanto ele está perto. O cheiro fraco de cloro ainda gruda nele, misturado com algo mais quente e familiar.
E então outra coisa me atinge.
Eu já tive a maior quedinha pelo Dylan Sterling.
Na verdade… sendo sincera, ela nunca passou de verdade. Ver ele agora com certeza não está ajudando.
Ele estuda meu rosto por um segundo.
— Sinceramente — ele diz —, qualquer cara que te trai é um idiota.
As palavras batem mais forte do que deveriam. A voz do Mason ainda ecoa na minha cabeça. Mas Dylan acabou de chamar ele de idiota.
Antes que eu consiga me segurar, dou um passo para mais perto.
Depois, outro.
Os olhos do Dylan acompanham meu movimento, a curiosidade cintilando no rosto dele.
— O que você está fazendo? — ele pergunta.
Eu não respondo.
Minha cabeça ainda está girando com tudo o que aconteceu hoje à noite. O Mason traindo, a aposta, a humilhação. Tudo se choca junto com anos de sentimentos idiotas que eu enterrei pelo irmão mais velho da Olivia.
Antes que eu pense melhor, estendo a mão, seguro a frente do ombro dele e o beijo.
Por meio segundo, ele fica completamente imóvel.
Então ele me beija de volta.
O contato dispara um choque pelo meu corpo inteiro. As mãos dele vão para a minha cintura automaticamente, me firmando, e o calor da boca dele contra a minha faz minha cabeça rodar.
Por um instante eu esqueço todo o resto. Então algo duro pressiona contra o meu estômago e a realidade desaba de volta em cima de mim.
Meu Deus.
O que eu estou fazendo?
Eu me afasto num tranco, como se tivesse me queimado, o coração batendo tão forte que mal consigo respirar.
— Eu… — gaguejo. — Desculpa. Eu não quis…
Dylan parece surpreso, embora agora haja um toque de divertimento nos olhos dele.
O pânico me invade.
— Porra, a Olivia vai me matar! — disparo.
Antes que ele possa dizer qualquer coisa, eu viro e corro até a porta. Não paro até estar na metade do gramado, com o coração disparado tanto que parece que vai explodir.
Porque hoje à noite eu não só fui traída.
Eu também beijei o irmão da minha melhor amiga.
