Capítulo 3 Uma oferta que não posso recusar

Ponto de vista da Emma

— Lá está a minha bestie!

A voz da Olivia corta o corredor como uma sirene.

Eu nem preciso me virar para saber que é ela. Só uma pessoa nesta escola inteira tem a confiança de gritar desse jeito às oito e meia da manhã.

Fecho meu armário devagar antes de encará-la.

— Demorou pra você existir — digo, seca. — Onde você estava? Você não atendia minhas ligações.

Olivia para na minha frente, um pouco sem fôlego de tanto correr pelo corredor. O rabo de cavalo loiro balança atrás dela como sempre, e ela está com aquele sorriso brilhante que normalmente faz as pessoas perdoarem qualquer coisa.

Normalmente.

— Uau, alguém acordou de mau humor — ela diz, erguendo as mãos numa rendição de brincadeira. — Relaxa, Emma. Eu dormi na casa do Scott ontem e meu celular descarregou. Só vi todas as suas ligações perdidas hoje de manhã… eu não estava te ignorando.

— Podia ter me enganado.

Ela entrelaça o braço no meu como se nada estivesse errado e começa a me puxar em direção ao corredor principal. Olivia sempre se move como se o corredor fosse dela, acenando para as pessoas, jogando cumprimentos rápidos por cima do ombro.

— Então — ela diz, animada —, o Scott e os meninos estão ali perto da fonte antes da aula. A gente devia ir dar um oi.

Meu estômago se contrai na hora.

Eu paro de andar.

Olivia dá mais dois passos antes de notar que eu não estou mais ao lado dela. Ela se vira, a confusão tremeluzindo no rosto.

— O quê? — ela pergunta. — Não me olha assim.

Eu puxo meu braço devagar para fora do dela.

— Sério? — digo.

As sobrancelhas dela se juntam. — O que isso quer dizer?

— Você quer ir dar oi pra eles? — Minha voz sai mais afiada do que eu pretendia.

— Sim…? — ela diz, cautelosa. — Por que não?

Por um segundo, eu só encaro ela, a incredulidade borbulhando no meu peito.

Então eu olho por cima do ombro dela.

E, como se fosse combinado, eu os vejo.

Scott e Mason estão perto do bebedouro, rindo como dois idiotas enquanto batem as palmas num daqueles apertos de mão exagerados de “bro” que os meninos acham impressionante.

Por um momento, o barulho do corredor some ao meu redor.

Mason levanta o olhar.

Nossos olhos se encontram.

A dor vem na hora, como alguém apertando um hematoma que ainda não sarou. A expressão dele vacila com alguma coisa que eu não consigo decifrar direito. Culpa, talvez. Ou talvez eu esteja imaginando.

De qualquer forma, eu desvio o olhar primeiro.

— Emma?

A voz da Olivia me puxa de volta.

Eu percebo que parei de andar.

— Eu tô bem — murmuro.

Só que não tô.

Ver ele aqui, agindo como se nada tivesse acontecido, rindo com os amigos como se não tivesse me humilhado ontem à noite, faz meu peito queimar de novo.

Olivia segue meu olhar e vê Mason do outro lado do corredor.

— Quando você estava planejando me contar? — eu rosno.

A expressão alegre dela desaparece na hora. — Contar o quê?

— Que toda aquela história com o Mason nem era de verdade. Que foi alguma armação idiota que você e o Scott acharam que ia ser engraçada.

Ela solta o ar devagar, a culpa atravessando o rosto. — Ah… então ele te contou.

— Contou, sim. Ele também traiu, Olivia. E eu aposto que você já sabia disso.

— O quê? Emma, não… — Ela tapa a boca, os olhos se arregalando. — Aquele idiota…

Por um segundo, nenhuma de nós fala.

Os alunos continuam passando ao nosso redor, armários batendo, gente gritando cumprimentos pelo corredor, a energia caótica de sempre das manhãs do último ano. Mas o espaço entre mim e Olivia de repente parece tenso.

Ela pigarreia. — Emma… escuta.

Eu cruzo os braços. — Escutar o quê? A parte em que meu namorado admitiu que o relacionamento começou porque você achou que eu precisava de um?

O rosto dela se contorce com mais culpa tão rápido que uma parte da minha raiva quase murcha.

— Tá — ela diz, devagar —, quando você fala assim, fica horrível.

— E é horrível.

— Eu sei.

Eu encaro ela.

Olivia Sterling sempre foi um monte de coisas. Barulhenta. Dramática. Um pouco mimada. Mas ela nunca foi boa em esconder o que sente, e agora a culpa está estampada na cara dela.

— Eu não achei que ele fosse fazer isso de verdade — ela diz depressa. — Eu juro, Emma. Eu só sugeri porque—

— Porque o quê? — eu corto.

— Porque você merecia um namorado também.

A resposta me acerta como um tapa.

Minha risada sai seca.

— Então você achou que eu era tão patética que alguém tinha que ser convencido a namorar comigo?

— Não foi isso que eu quis dizer!

— Ah, é? Porque é exatamente isso que parece.

Olivia passa a mão pelo rosto, claramente frustrada consigo mesma.

— Eu só achei que vocês iam dar certo — ela diz. — Você é inteligente, ele precisava de ajuda em matemática, e o Scott disse que o Mason era um cara decente.

Dou uma olhada de novo.

Mason ainda está em pé com Scott, rindo de alguma coisa. Completamente relaxado. Completamente indiferente.

A cena faz meu estômago se revirar.

— Bem, parabéns — digo, seca. — Seu experimento de cupido foi um sucesso enorme.

Olivia faz uma careta.

— Emma, qual é.

— Não, sério — continuo. — Ele me contou tudo. Que nunca gostou de mim. Que ficou porque eu ajudava ele a passar nas matérias.

A boca dela se abre um pouco, antes de se fechar de novo num estalo. Pela primeira vez, Olivia Sterling parece genuinamente sem palavras.

— Ah, não — ela murmura, baixinho.

— Foi ideia sua, lembra?

— Foi, mas eu não mandei ele ser um babaca completo por causa disso!

Dou de ombros, embora o movimento saia duro.

— Bom, ele foi.

Um grupo de meninas do segundo ano passa por nós, cochichando alto sobre algum drama de líderes de torcida. Alguém esbarra no meu ombro ao passar correndo e murmura um pedido de desculpas.

A vida normal da escola continua ao nosso redor como se nada importante estivesse acontecendo.

Olivia suspira, pesado.

— Emma, eu sinto muito mesmo — ela diz. — De verdade.

Eu olho para ela.

Uma parte de mim quer continuar com raiva. Ontem à noite eu estava furiosa o bastante para invadir a casa dela pronta para gritar com ela.

Aí acabei beijando o irmão dela.

A lembrança atravessa minha cabeça tão de repente que meu estômago dá um salto.

As mãos de Dylan na minha cintura...

O calor da boca dele contra a minha...

Eu empurro o pensamento para longe depressa, antes que meu rosto me entregue.

Olivia ainda me observa, ansiosa.

— Eu não sabia que o Mason ia te tratar daquele jeito — ela continua. — Se eu soubesse, nunca teria sugerido isso.

Suspiro baixinho.

A raiva que carreguei a noite inteira de repente parece pesada e exaustiva. Talvez porque eu quase não dormi. Talvez porque ver Mason hoje de manhã já tenha drenado toda a minha energia.

— Tanto faz — digo, por fim. — Acabou agora.

Olivia analisa meu rosto com cuidado, como se estivesse checando se eu estou mesmo bem.

— Tem certeza?

— Não — admito. — Mas eu vou sobreviver.

Os ombros dela relaxam um pouco.

— Ok. Ótimo. Porque eu tenho uma solução.

Eu estreito os olhos na hora.

— Isso parece perigoso.

— Relaxa — ela diz, revirando os olhos. — Eu estou tentando compensar.

— E como, exatamente, você pretende fazer isso?

Um sorriso lento se espalha pelo rosto dela.

— Você ainda quer se inscrever naquelas faculdades da Ivy League, né?

Meu coração dá um pulo, apesar de mim.

— Óbvio.

Emma-com-um-plano vem trabalhando por esse objetivo desde o primeiro ano. Notas perfeitas. Horas de voluntariado. Clube de debate. Cada passo cuidadosamente calculado.

Olivia assente.

— Meu pai tem contatos em algumas delas — ela diz, casual. — Se você quiser, eu posso pedir para ele escrever uma carta de recomendação pra você.

Eu encaro ela.

— Isso é... um favor enorme.

— Eu sei.

— Por que ele faria isso?

Ela dá de ombros.

— Porque você é praticamente da família.

As palavras fazem alguma coisa amolecer um pouco dentro do meu peito.

Apesar de tudo, Olivia e eu nos conhecemos desde sempre. Festas do pijama, sessões de estudo, segredos compartilhados. Metade das minhas memórias de infância inclui ela de algum jeito.

Talvez seja por isso que toda essa situação dói tanto.

— Eu vou pensar — digo, com cuidado.

— Ótimo — ela responde, animada. — Porque a gente vai pra minha casa depois da aula de qualquer jeito.

Meu estômago despenca na mesma hora.

— O quê?

— A gente ainda tem aquele trabalho de história pra entregar amanhã — ela diz como se fosse óbvio. — E você prometeu me ajudar.

Balanço a cabeça imediatamente.

— Não.

Olivia pisca.

— Não?

— Não.

— Por quê?

Porque eu beijei seu irmão na sua cozinha ontem à noite.

As palavras quase escapam da minha boca.

Em vez disso, eu digo:

— Eu só... não estou a fim de ir hoje.

Ela dispensa isso com um gesto na hora.

— Pena.

— Olivia—

— Você vai — ela insiste. — A gente pede pizza, termina o trabalho e reclama de como meninos são péssimos.

De repente, o sinal toca lá em cima, ecoando pelo corredor.

Os alunos imediatamente começam a correr para as salas.

Olivia agarra meu pulso antes que eu possa protestar de novo.

— Anda — ela diz, me puxando em direção à escada. — A gente vai se atrasar pra química.

— Olivia, eu estou falando sério — resmungo. — Eu não quero ir pra sua casa hoje.

Ela nem diminui o passo.

— Emma.

— O quê?

— Você vai.

Eu encaro a parte de trás da cabeça dela enquanto ela me puxa escada acima, uma determinação teimosa marcada em cada passo.

Uma sequência de palavrões se forma em silêncio na minha mente.

Porque, se Olivia se recusa a aceitar um não como resposta, então hoje à noite eu vou voltar para o único lugar em que eu definitivamente não quero estar.

A casa dos Sterling.

E a última pessoa que eu quero ver de novo.

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