Capítulo 7 Ele está em apuros

Ponto de vista de Dylan

— Me manda mensagem quando chegar em casa, tá?

A voz de Olivia vem da porta da frente.

Mantenho os olhos na televisão.

A narração do hóquei enche a sala, o ritmo familiar da análise lance a lance ecoando pelo ambiente. A tela brilha à minha frente, mas minha atenção não está exatamente nela.

— Relaxa — a garota ri baixinho. — Não é como se fosse uma viagem de ônibus de dez minutos, eu literalmente moro na casa ao lado da sua.

Qual é mesmo o nome dela… Emmy? Emilia? Não, isso não parece certo, principalmente depois de ter ouvido quase três vezes hoje. Minha memória inútil de última hora está me deixando na mão de novo.

Olivia a puxa para um daqueles abraços apertados que ela dá nas pessoas que ama. Eu observo o reflexo na borda escura da tela da TV.

Então essa é a garota que me beijou na minha própria cozinha ontem à noite e depois passou metade do dia com cara de coelha encurralada na frente de um caminhão em movimento.

Uma jogada ousada para alguém que agora parece apavorada toda vez que eu respiro na direção dela.

— Até amanhã de manhã, Emma! — Olivia chama.

Ah. Emma. Definitivamente não Emilia. Nome de menina é difícil de guardar.

Emma.

Um nome tão inocente. Não combina muito com a garota que chegou e beijou um desconhecido como se não tivesse nada a perder.

A porta da frente se fecha.

Um momento depois, Olivia volta para a sala. Eu volto a prestar atenção na televisão como se tivesse acompanhado o jogo o tempo todo.

Ela se joga no sofá ao meu lado e imediatamente rouba o controle remoto.

— Você nunca cansa de hóquei, né?

Ela muda de canal antes que eu possa protestar.

— Ei — digo, de leve.

— Você assiste a esse esporte desde os doze anos. — Ela cai em algum reality aleatório como se tivesse acabado de melhorar a minha vida.

Eu me recosto no sofá para puxar assunto.

— Você tem uma amiga bonita.

O efeito é imediato.

Olivia congela. O controle escorrega da mão dela e bate na mesa de centro com um estalo.

Então ela se vira devagar.

— Não — ela diz, firme.

Eu pisco.

— Não… o quê?

— Não, não, não, Dylan.

O dedo dela aponta para mim como se eu fosse um criminoso pego em flagrante.

— Nem pense nisso.

— Eu tô confuso. — Ergo as duas mãos. — Pensar em quê?

Olivia se inclina para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.

— Minha amiga está fora de cogitação.

Quase sorrio.

— Fora de cogitação, é?

— Sim.

O tom dela agora é mortalmente sério.

— Ela não é como aquelas garotas com quem você brinca por um segundo e larga quando enjoa.

Essa me faz rir, baixinho.

— Uau — eu digo. — É assim que você me vê?

— Eu te conheço — Olivia responde na hora.

— Você tá partindo meu coração, Liv — digo, com leveza. — Eu só fiz um elogio inofensivo pra sua amiga.

— Você reparou na minha amiga.

— Dá na mesma.

— Tem um monte de garotas em Minnesota que te querem — ela continua, contando nos dedos. — E um monte mais na NYU.

Aí ela aponta direto para o meu peito.

— Então não chega perto da Emma ou eu juro… — Os olhos dela se estreitam um pouco. — Eu te mato.

Depois ela sorri como se não tivesse acabado de ameaçar homicídio e dá um tapa forte na parte de trás do meu ombro.

Eu não estava esperando. O impacto acerta bem em cima do hematoma. A dor sobe pelo meu pescoço tão rápido que um grunhido escapa antes que eu consiga segurar.

Olivia para.

— …Eu te machuquei?

— Não. — Eu me endireito devagar, forçando um sorriso para disfarçar. Mas isso não impede os olhos dela de se estreitarem.

— Machuquei, sim.

— Pareceu espuma — digo, dando de ombros, como se não fosse nada.

Ela não acredita nem por um segundo. Em vez disso, fica ainda mais curiosa. E eu sei que não tenho escolha a não ser recuar quando ela diz: “Deixa eu ver.”

Antes que eu possa protestar, os dedos dela fisgam a gola da minha camisa e puxam o tecido para o lado. A expressão dela muda na hora.

“O que é isso?”

Os dedos dela pairam perto do hematoma fraco ao longo do meu ombro. “O que aconteceu com você, Dylan?”

Eu me inclino para trás de novo. “Nada sério.”

“Dylan.”

“Só uma lesãozinha de um jogo.” Eu tiro a mão dela dali e ajeito a camisa. “Acontece o tempo todo.”

Ela levanta a cabeça e me lança aquele olhar. Aquele que diz que ela sabe que eu estou mentindo.

“Por que você está em casa no meio do semestre?”

O silêncio se instala na sala por um instante. Eu encaro a tela da televisão, agora apagada.

Então eu suspiro. “Me meti numa briga.”

As sobrancelhas dela se erguem na hora. “Com quem?”

“Um companheiro de time.”

“Claro que foi.”

O nome dele passa pela minha cabeça.

Jordan.

O cara que vem me alfinetando pelas costas há meses, ameaçando tomar meu lugar de capitão, falando demais sobre como eu só consegui a posição porque meu pai banca metade do departamento de esportes.

Eu esfrego a nuca.

“A gente estava num bar”, eu digo devagar. “Eu tinha bebido um pouco.”

Olivia cruza os braços. “Define ‘um pouco’.”

“Seis copos.”

“O que aconteceu?”

“Ele começou a falar.”

“E você começou a socar?”

“Mais ou menos.”

Eu encaro o chão. “A briga ficou… feia.”

“Feia quanto, Dylan?”

Eu dou de ombros. “Eu quebrei o nariz dele.” Os olhos dela se arregalam. “E a mandíbula.”

“…Dylan.”

“E talvez algumas costelas.”

“Dylan!”

“Ele vai sobreviver.”

Ela me encara como se estivesse tentando decidir entre gritar ou desmaiar.

“Eu fui preso”, eu acrescento, casual, e a boca dela se abre.

“Você foi preso?”

“Tecnicamente.”

“Meu Deus.”

“Um amigo ajudou a pagar a fiança”, eu continuo. “O pai dele conhece o detetive.”

Olivia esfrega a testa.

“Isso é insano.”

“Mas eu tive que cobrir as despesas médicas do Jordan com todas as minhas economias antes de concordarem em me soltar.”

A cabeça dela se ergue num tranco. “Isso parece muito ruim. E o time?”

Eu me afundo no sofá. “Eu fui suspenso pelo resto do semestre.”

A palavra fica no ar. Olivia me encara por um longo momento. “Você está muito encrencado, Dylan.”

“Eu sei.”

“O que você vai fazer?”

Eu coço a parte de trás da cabeça porque, sinceramente? Eu não faço ideia.

“Eu não sei, Liv.” A verdade pesa no meu peito. “Eu só… não conta pro pai ainda.”

Os olhos dela se estreitam de novo. “Você está planejando contar você mesmo?”

“Uma hora.”

Ela suspira. “Você sabe que ele não vai levar isso na boa.”

Eu olho para o teto.

É.

Eu sei exatamente como ele vai levar.

Meu pai não tolera fracasso. Principalmente não do filho que ele vem preparando para virar uma estrela nacional do hóquei.

“Eu caguei tudo mesmo”, eu murmuro.

Olivia estuda meu rosto por um instante. Então a expressão dela amolece um pouco. “Não deixa isso corroer sua cabeça hoje à noite.”

Eu olho para ela.

“Você devia pelo menos aproveitar estar em casa antes de…”

Ela deixa a frase morrer. Nós dois sabemos como ela termina.

Antes de o pai descobrir.

Antes do sermão.

Antes da explosão.

Ela se levanta de repente.

“Tá”, ela diz, batendo palmas uma vez. “Chega de atualizações deprimentes da vida.”

Eu observo enquanto ela pega o celular em cima da mesa.

“Vou pedir pizza.”

Isso até que parece bom.

“Você quer mais alguma coisa?” ela pergunta, rolando o aplicativo de entrega.

Eu penso por um momento. Depois dou de ombros.

“Pãezinhos de alho.”

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo