Capítulo 1
Ponto de vista de Aliyah
O vento chicoteava meu rosto enquanto eu corria pelo coração da alcateia Garra Sombria, o céu sem lua encobrindo minha dor, o cascalho sob meus pés descalços rasgando minha pele. Mas eu não parei. Eu não podia. Meus pulmões queimavam. Minha respiração falhava. Minha garganta tinha gosto de sal e sangue — mas as lágrimas simplesmente não paravam.
Não me importava que os guardas no limite sul encarassem minha passagem. Nem que o ancião Marcus gritasse alguma coisa atrás de mim. Nada importava mais.
Tudo estava desmoronando.
Cohen.
O nome ecoava na minha mente como uma maldição.
Eu tinha dado a ele tudo. Cada sorriso. Cada beijo. Cada parte de mim que era suave, pura e cheia de fé. Eu ainda me lembrava da primeira vez que ele disse “eu te amo” — nós tínhamos dezesseis anos, deitados na colina atrás dos Campos de Treinamento da Lua Crescente, rindo para as estrelas e sonhando em abrir nossa própria escola de guerreiros.
Eu entreguei a ele meu coração. Minha confiança. Minha alma.
E agora…
“Não”, eu arfiei, diminuindo para uma caminhada, o peito subindo e descendo em espasmos. Segurei o estômago enquanto cambaleava sob o brilho frio das luzes do lado leste da alcateia. “Não… o Cohen não faria isso comigo.”
Tentei respirar, mas parecia que havia algo sentado em cima do meu peito. Um peso que eu não conseguia erguer.
Ele não me trairia assim. Não o Cohen.
Mas os rumores… os cochichos no treino… as risadinhas das outras lobas hoje…
Saí da estrada principal, o corpo doendo, a alma já dormente. Eu precisava de respostas. Precisava ver com os meus próprios olhos.
Minutos depois, eu me vi parada diante do pequeno apartamento tipo estúdio onde costumávamos passar os fins de semana. A mesma porta por onde ele costumava me fazer entrar escondida, sussurrando promessas de para sempre no meu ouvido.
Mas no instante em que pisei lá dentro, tudo em mim se despedaçou.
Os pôsteres.
Sumiram.
As bandeiras do nosso clube de guerreiros, os bilhetes rabiscados que colávamos na geladeira, o desenho que eu fiz dele na forma de lobo — tudo tinha desaparecido.
Fiquei paralisada, os olhos percorrendo a parede vazia, o sofá cinza desconhecido, o cheiro forte de perfume barato que nunca foi meu.
Meus joelhos tremeram.
E então eu ouvi a risada.
A risada dela.
Suave. Provocante. E definitivamente não era a minha.
Do quarto, surgiu uma mulher — mal vestida, usando uma das camisas velhas de futebol americano do Cohen. A minha camisa. Aquela com que eu costumava dormir.
E lá estava ele.
Cohen.
Deus, ele ainda parecia o homem que eu amava.
Alto, com maçãs do rosto marcadas e o cabelo que enrolava nas pontas o suficiente para ser charmoso. Os olhos — um tom de cinza que um dia prometeu devoção — encontraram os meus sem um pingo de remorso. O peito nu, os abdominais definidos e brilhando de leve sob a luz fraca. Ele parecia o homem que eu passei anos amando e, ainda assim… naquele momento, era um estranho.
“Aliyah”, ele disse, com naturalidade, como se eu tivesse acabado de pegá-lo escovando os dentes.
A garota ao lado dele — Tatiana, eu reconheci então — deu um sorriso de canto. Ela nem tentou se cobrir.
Engoli o nó na garganta.
“Por quê?”, perguntei com a voz rouca. “Por que você faria isso comigo?”
Cohen soltou uma risada.
Uma risada.
Como se aquilo fosse uma piada.
“Você realmente não percebeu?”, ele perguntou, afastando-se da garota e pegando uma bebida no balcão. “Deuses, você é mesmo ingênua.”
Fiquei ali, imóvel. Os punhos cerrados. Meu coração se partindo a cada segundo.
“Eu te amava”, sussurrei. “Eu te dei tudo, Cohen. Eu acreditei em você.”
Ele inclinou a cabeça, sorrindo. “Esse era o objetivo, gata. Eu fiz um acordo com o meu grupo. Todos nós apostamos… quem conseguiria levar primeiro pra cama a filhinha inocente do Papa. E não só isso — exposição total. Nudes, vídeos, tudo. Você era o desafio final.”
Meu mundo desmoronou.
“Você… você estava tirando sarro da minha cara?” Minha voz falhou. “Você me gravou?”
“Ah, não seja dramática”, ele disse. “Não é como se eu tivesse postado isso em algum lugar. Ainda.”
Tatiana riu. “Sinceramente, você sempre foi certinha demais pro seu próprio bem. Acho que agora aprendeu o gosto da rejeição.”
Encarei Cohen. O homem que um dia pensei que seria meu companheiro. O homem que um dia imaginei ao meu lado na cerimônia da Luna.
“Você disse que me amava”, sussurrei. “Você disse que nunca me machucaria.”
Ele deu de ombros. “Eu digo um monte de coisas quando estou entediado.”
Alguma coisa dentro de mim se rompeu.
Virei as costas antes que as lágrimas caíssem de novo. Eu não podia deixá-los me ver desmoronar. Não mais. Saí cambaleando do apartamento, mal percebendo como meu corpo ainda se movia.
O vento mordia minha pele, mas eu não me importava.
Tudo parecia… vazio.
O vínculo de companheiros entre nós — eu o senti. O último fio. Se rompendo.
Achei que fosse gritar, mas não gritei. Não consegui. O silêncio era mais alto.
Tudo em que eu conseguia pensar era em como nós costumávamos ser. O primeiro beijo atrás do centro de treinamento. O jeito como ele enxugava minhas lágrimas quando eu fracassava em uma prova. As cartas que ele me escrevia quando foi para o acampamento Alfa.
Mentiras.
Tudo aquilo.
Eu não sabia para onde estava indo, mas meus pés me levaram para os arredores da cidade — para o único lugar que meu pai me proibira de visitar sozinha.
O Bar Uivo Carmesim.
Diziam que era perigoso. Cheio de renegados, andarilhos e rebeldes. Mas eu não estava com medo. Não esta noite.
Talvez eu quisesse perigo. Talvez eu quisesse dor.
Entrei, e o cheiro de cerveja velha e cigarro me atingiu na mesma hora. A música estrondava ao fundo, e risadas ecoavam perto da mesa de sinuca.
E foi aí que eu o vi.
Asher Moretti.
Sentado à mesa do canto, com um copo de uísque na mão, envolto em sombras, mas brilhando como um deus entre lobos.
Alto. Ombros largos. Braços retesados com músculos marcados por veias salientes. O maxilar era bem definido, coberto por uma barba por fazer, e o cabelo negro como corvo estava bagunçado de um jeito absurdamente atraente.
Os olhos dele — penetrantes e indecifráveis — se prenderam aos meus.
Eu não sabia o que eu queria.
Mas caminhei na direção dele.
Talvez fosse a raiva. A traição. O vazio.
Talvez eu só não quisesse mais me sentir como um nada.
