Capítulo 3
Ponto de vista de Aliyah
O vento mordiscava meu rosto enquanto eu estava diante do grande portão do M Spring Boots Racing Club, coberto de pichações. As dobradiças enferrujadas rangeram quando o empurrei, revelando uma fileira de motos reluzentes alinhadas como soldados em guerra. Os motores ronronavam ao fundo, e o cheiro de graxa e borracha se misturava ao aroma forte de grama recém-cortada.
Meus dedos se fecharam com força nas alças do capacete. Parecia que ele pesava uma tonelada na minha mão. Cada parte de mim queria dar meia-volta. Mas as palavras do Papa me assombravam.
"Você é uma fracassada se desistir da sua vida por causa dessa queda."
Entrei, ignorando os sussurros. Dei mais alguns passos, e a primeira voz de deboche cortou o ar.
"Olhem só quem resolveu aparecer. A ômega sem lobo e com o ego ferido."
Mais risadas vieram em seguida. Minhas costas ficaram rígidas. As garotas estavam em grupos, vestidas com jaquetas de couro, exibindo suas motos elegantes e a arrogância que vinha de ter uma forma de lobo. Os olhos delas brilhavam de diversão. Não eram só corredoras — eram predadoras. E eu era a presa.
"Você veio limpar o chão ou carregar nossos capacetes?", uma delas zombou, balançando a cauda em deboche.
"Ouvi dizer que largaram ela pelada na internet. Coitadinha, provavelmente acha que correr vai dar uma vida nova pra ela."
"Ela nem tem cauda nem garras. Como vai pilotar sem instinto?"
As gargalhadas, quase uivos, ecoaram pelo pátio. Minhas mãos tremiam. Virei o rosto, depois parei. Eu podia ver meu reflexo no espelho de uma moto próxima — lágrimas ameaçando se formar, os lábios tremendo.
Não.
Pensei nas paredes da sede sem nossos pôsteres. No sorriso presunçoso de Cohen. Nas minhas fotos nuas naquele iPad maldito. Nos olhos cheios de esperança do Papa.
Eu me virei.
"Chega", eu disse friamente.
O grupo ficou em silêncio. Algumas soltaram risadinhas nervosas, como se estivessem me desafiando a continuar.
"Se eu ouvir mais uma palavra, vou expulsar pessoalmente todas vocês deste clube."
A garota que parecia liderar deu um passo à frente. Ela era mais alta, mais musculosa, e a tatuagem do lobo subia pela clavícula.
"Você e que exército?", ela perguntou, exibindo as garras.
Por dentro, meu coração batia como tambores de guerra. Mas a raiva dentro de mim era ainda mais alta. Joguei meu capacete no chão, arregaçei as mangas e avancei sobre ela. Ela não esperava por aquilo. O som do meu punho estalando contra o maxilar dela silenciou o pátio.
Então o caos explodiu.
Não sei quantas eu soquei, empurrei ou chutei, mas, quando terminei, três delas gemiam no chão, duas saíam mancando, e meus nós dos dedos estavam em carne viva e vermelhos.
"Parem!" uma voz trovejante interrompeu a loucura.
Eu me virei. Papa estava na beira do campo de treinamento, com uma chave inglesa numa mão e uma expressão de espanto nos olhos.
"Aliyah!", ele repreendeu.
Congelei, respirando com dificuldade. O suor escorria pela minha coluna.
— O que aconteceu com a harmonia? Isso aqui não é uma zona de guerra. É um clube.
Desviei o olhar, envergonhada e desafiadora ao mesmo tempo.
— Então manda suas garotas pararem de agir como uma matilha de lobos caçando o último cervo — resmunguei.
Ele suspirou e se aproximou. Então, sem aviso, o rosto dele se abriu num sorriso travesso. Ele ergueu o celular.
— Adivinha o que acabou de chegar?
Pisquei.
— O quê?
Ele me entregou o aparelho. Na tela havia um logotipo em vermelho vivo com os dizeres: Torneio Anual da Lycan's Edge – Inscrições Abertas.
Meu coração falhou por um instante. Todo motociclista da região sonhava com aquilo.
— Aceitaram o nosso clube — ele disse. — Estamos nas eliminatórias. E eu quero que você nos represente.
— Eu? — Meus olhos se arregalaram. — Mas eu acabei de começar.
— Você é minha filha. Você tem garra. Agora se prepare. Treine mais pesado. Mostre a eles o que não conseguiram quebrar.
O fogo se reacendeu no meu peito. Assenti. Naquela noite, treinei até meus músculos gritarem. Dei voltas e mais voltas no campo de treino, me forçando até limites que eu nem sabia que existiam. Papai cronometrava minhas voltas, berrava instruções, ajustava as marchas da minha moto.
Os insultos desapareceram. O medo ficou mais fraco. Tudo o que restou foi propósito.
Até ele aparecer.
Eu estava lubrificando minha moto quando uma voz familiar gelou meu sangue.
— Aliyah.
Cohen.
Fiquei de pé devagar. Meu coração martelava nos ouvidos enquanto eu me virava para encará-lo. Ele parecia mais arrumado do que da última vez — a jaqueta de couro impecável, o cabelo penteado para trás, os lábios curvados naquele sorriso de canto tão familiar. Aquele que eu costumava beijar como se fosse ar.
— O que você quer? — perguntei, limpando as mãos.
— Podemos conversar em particular?
Eu não queria. Cada fibra do meu corpo gritava não. Mas alguma parte tola de mim esperava — esperava que ele dissesse que sentia muito. Que tinha sido um erro. Que sentia minha falta.
Fomos até atrás da garagem, longe do olhar de Papai.
— O que você quer, Cohen?
Ele se inclinou para mais perto, e o perfume dele era sufocante.
— Ouvi dizer que você vai entrar no torneio.
Não disse nada.
Ele soltou uma risadinha.
— Não entra. Só... não entra. Você vai passar vergonha. Vai envergonhar o clube. Fique fora disso.
Dei um passo para trás.
— Isso é uma ameaça?
— Chame de conselho. Você vai me agradecer depois. — Ele piscou e foi embora.
Fiquei ali, fervendo de raiva. As palavras dele ecoavam como uma maldição.
Mas, em vez de me destruir, aconteceu o oposto.
Aquilo alimentou o fogo.
Eu iria pilotar. Eu iria competir. E eu iria vencer — não só por Papai. Nem por vingança.
Mas para provar que, não importa quantas vezes me derrubassem...
...eu sempre me levantaria.
O sol mal nasceu hoje. Era como se os céus entendessem o peso do que estava por vir.
O torneio.
A única coisa em que derramei cada gota da minha alma nas últimas semanas.
Sentei na beirada da minha cama estreita, amarrando as botas com mãos trêmulas. Meu estômago se revirava de fome, mas não era uma sensação estranha. Havia dias que eu estava me privando de comer só para arranjar tempo para treinar.
