Capítulo 4
Ponto de vista de Aliyah
Pulava refeições, dormia na garagem do clube, treinava até não sentir mais as pernas. Eu queria vencer — não, precisava vencer.
Para calar a zombaria. Para provar que eu não era apenas a patética filha ômega do presidente. Para honrar o Papa.
Eu tinha ido ao estádio da Alcateia Ember algumas vezes enquanto crescia — sempre sob a segurança da sombra do Papa —, mas hoje era diferente. Hoje, eu não estava mais nas sombras. Eu estava no centro. Sob a luz. Sob os olhares julgadores deles.
O estádio fervia de vida quando entrei. Bandeiras tremulavam ao vento. O cheiro forte de combustível e testosterona pairava no ar. Pneus cantavam nas voltas de aquecimento e motores rugiam com potência.
Minha garganta secou na mesma hora.
Apertei minhas luvas com mais força. Já estive aqui antes… mas nunca estive tão nervosa.
Meus dedos tremiam, e eu conseguia sentir as batidas do meu coração nos dentes. Papa se aproximou de mim, vestido com seu equipamento de corrida, com o brasão do clube estampado com orgulho no peito. Ele pousou uma mão firme no meu ombro e o apertou.
“Você vai se sair muito bem”, ele disse com gentileza.
Mas balancei a cabeça. “Meu coração está em tumulto, Papa. Eu não sei… E se eu decepcionar você?”
Ele sorriu. “Então fracasse tentando, Aliyah. Não fuja. Não se esconda. Apenas tente.”
Tente.
A palavra ecoou na minha cabeça como uma batida de tambor.
Mas aquela determinação frágil se partiu no instante em que eu os vi.
Cohen.
E atrás dele, sua matilha irritante de membros do clube — as Presas Negras.
A multidão foi à loucura quando eles entraram no estádio desfilando como deuses da velocidade. Cada passo que davam parecia coreografado, cada sorriso torto, ensaiado. Eles viviam por aqueles aplausos.
E então… eu o vi.
Asher Moretti.
Aquele para quem jurei que nunca mais ia querer olhar.
Ele não olhou para mim. Nem sequer percebeu que eu estava ali. Mas eu o vi.
O jeito como o cabelo dele se curvava sob o capacete. A jaqueta de couro moldada ao seu corpo alto e maciço. A mesma tatuagem que um dia me fez engolir em seco, maravilhada.
Agora, aquilo me embrulhava o estômago.
Senti a bile subir pela garganta.
Eu te odeio, sussurrei baixinho. Você é igual a eles. Um dos lobos de Cohen. Um dos animais que me destruíram.
Dei um passo para trás, tentando me tornar invisível, virando o rosto para que Cohen não me visse. Eu não estava pronta. Não era forte o bastante.
Mas, claro, ele percebeu.
“Olhem só quem está aqui!” A voz de Cohen soou como um chicote. “A estrela do nosso grupo de mensagens.”
Risadas explodiram entre o pessoal do clube. Fiquei tesa.
“Essa é a nossa querida princesa ômega?”, zombou uma das garotas. “Trouxe mais nudes para compartilhar?”
Mais risadas.
Cerrei os punhos com tanta força que minhas unhas perfuraram minhas palmas.
O sorriso lupino de Cohen se alargou ainda mais. “Não seja tímida, Aliyah. Você já mostrou tudo pra gente antes.”
Eu congelei.
Paralisada.
Até que duas garotas deram um passo à frente — uma morena, outra ruiva acobreada — companheiras de corrida com quem eu havia treinado. Elas ficaram na minha frente, as costas rígidas, encarando Cohen com fúria.
"Ela não é só uma Ômega", retrucou a morena. "Ela é uma Ômega com orgulho."
"E com mais coragem do que qualquer um de vocês, chacais baba-ovos", rosnou a outra.
As palavras delas ergueram alguma coisa dentro de mim… e, ainda assim, a vergonha continuava apertando a minha garganta como uma coleira.
Todos os olhos estavam em mim.
Eu podia sentir as vaias, os sussurros, os celulares fingindo que não estavam gravando.
Meus joelhos estão fracos… Meu peito dói… Eu quero gritar…
Então a buzina soou — o torneio estava prestes a começar.
Todo mundo começou a ir em direção às motos.
E, bem naquele instante, Cohen veio até mim, cheio de pose.
Ele se inclinou para perto, os lábios quase roçando a minha orelha.
"Dá pra trás agora… ou você vai passar muita vergonha", sussurrou.
Aquilo foi o suficiente.
O empurrão final.
Minha mente desabou no caos. Eu conseguia ver Papa à distância, acenando para mim, fazendo sinal para que eu me preparasse. Eu virei o rosto.
E se eu fracassar?
E se eu cair lá fora?
Papa vai ficar decepcionado. Vou ser só mais uma Ômega patética que tentou e se humilhou.
Meu corpo se moveu antes que eu pudesse impedir.
Deixei meu capacete cair, girei nos calcanhares e corri.
Corri dos rugidos. Do riso de Cohen. Da indiferença de Asher.
Da minha própria covardia.
A garoa começou assim que cruzei os limites da Alcateia Ember. Não parei de correr até o estádio ficar muito para trás, substituído por uma mata fechada e silêncio.
As lágrimas caíam livremente agora.
Eu fracassei de novo…
Desabei na grama, molhada, tremendo e destruída.
Fracassei com Papa… o único homem que já se importou. Fracassei com o homem que me acolheu quando minha própria mãe me jogou fora.
O tamborilar suave da chuva se misturava aos meus soluços.
Eu estava sozinha.
Só uma garota quebrada, sem lobo, sem coragem e sem futuro.
Ou pelo menos era o que eu pensava.
A maré sussurrava suavemente contra a margem pedregosa enquanto eu lançava minha linha na água. A brisa trazia o cheiro de sal, pinho e algo estranhamente calmante. Pela primeira vez em algo que parecia séculos, meus pulmões se expandiam livremente. Sem julgamento. Sem sussurros. Sem olhares zombeteiros. Só eu… e os peixes que não mordiam a isca.
Uma semana havia se passado desde que fugi como uma covarde do torneio. Uma semana inteira evitando as ligações de Papa, chorando sob as estrelas, comendo só o suficiente para continuar consciente. Construí este pequeno abrigo na praia — meu próprio mundinho de lona — onde eu podia fingir por um segundo que não era uma vergonha. Que eu não tinha fracassado com o único homem que acreditava em mim. Que eu não era a piada da Alcateia Ember.
Meus dedos brincavam com o molinete liso da vara de pesca, mas meus olhos continuavam fixos no horizonte. Eu odiava o silêncio.
