Capítulo 5

Ponto de vista de Aliyah

Isso deu espaço para a culpa voltar rastejando. Toda vez que eu fechava os olhos, ouvia a risada de Cohen ecoando na minha cabeça.

— É melhor recuar agora... ou você vai passar uma vergonha enorme.

Eu tinha acreditado nele. Pior, tinha deixado que ele me convencesse de que eu não pertencia àquele lugar. De que eu nunca seria suficiente.

Até ouvir o ronco de uma moto cortando o vento.

Congelei, com o coração disparado. Ninguém vinha até aqui — aquilo ficava muito além da fronteira da Matilha Ember. Escolhi esse lugar porque queria desaparecer.

O motor foi desligado.

Botas pisaram no cascalho.

E então ele apareceu.

Asher Moretti.

Botas pretas. Jeans escuros. Uma jaqueta de couro moldada aos músculos como se tivesse sido feita sob medida para o perigo. O cabelo dele estava úmido por causa da garoa e, no instante em que nossos olhos se encontraram, minha respiração falhou.

De todas as pessoas para me encontrar...

— Eu só estava passando por aqui — disse ele casualmente, como se me ver não o surpreendesse. — Achei que pararia para pegar um pouco de água.

Pisqei, apertando a vara de pescar como se fosse uma arma.

— Esta praia é um desvio e tanto de qualquer estrada.

Os lábios dele se curvaram de leve.

— Eu gosto de desvios longos.

Aquela voz. Calma, grave, suave como fumaça. Eu odiava que ela despertasse alguma coisa dentro de mim. Odiava que me lembrasse de coisas que jurei ter enterrado.

— A água está naquela garrafa azul — falei secamente, apontando para a minha barraca.

Ele a pegou, bebeu e depois — sem pedir permissão — se acomodou ao meu lado na grande pedra achatada que eu tinha reivindicado como minha.

Eu me mexi.

— O que você está fazendo?

— Olhando as ondas. Sentado. Respirando.

Fiquei encarando ele.

E ele me encarou de volta.

Aquilo era insano. Asher Moretti não era apenas o presidente do clube de motociclismo mais seleto da Matilha Ember — ele era intocável. Perigoso. Misterioso. E, pior de tudo... amigo de Cohen.

— Por que você fugiu do torneio? — ele perguntou de repente.

Meu coração despencou.

Virei o rosto para o oceano, fingindo não ter ouvido.

— Isso não é da sua conta.

— Você treinou duro — disse ele, ignorando minha tentativa de desviar do assunto. — Eu vi algumas das suas sessões. Você estava melhorando. Por que fugir agora?

Fiquei em silêncio. Meus dedos tremiam de leve.

— Porque Cohen disse que eu passaria vergonha.

Silêncio.

Então um suspiro.

— Você sempre faz o que ele manda?

Aquela pergunta atingiu mais forte do que deveria. Minha garganta apertou.

— Eu não queria decepcionar meu pai.

— E você acha que desaparecer por uma semana sem dizer nada ajudou?

As palavras dele não foram cruéis. Foram honestas.

Eu não sabia por que isso as tornava piores.

Um nó se formou na minha garganta.

— Você não entende...

— Tente me explicar.

Então eu olhei para ele, olhei de verdade. Os olhos dele não eram zombeteiros nem frios. Estavam... cansados.

— Eu fugi porque estava com medo — admiti. — Medo de falhar, de eles rirem de mim de novo. De ser a Ômega que todo mundo espera ver cair.

Ele não disse nada por um tempo. Apenas observou a água como se ela guardasse segredos que só ele conseguia ler.

— Não tenho dormido — disse por fim.

Pisiquei. — O quê?

— Desde aquela noite... o torneio. Desde que você fugiu. Fiquei me perguntando por quê. Achei que talvez fosse te ver na cidade, ou que você mandaria uma mensagem, ou... alguma coisa. Mas isso não aconteceu. Então peguei a estrada e acabei vindo parar aqui.

Franzi as sobrancelhas. — Você está com insônia? Você?

Ele sorriu de leve, mas o sorriso não chegou aos olhos. — Engraçado, né? O grande Asher Moretti, temido por muitos, atormentado pelo sono.

Soltei uma risadinha sem jeito. — O seu clube está lá fora, curtindo a vida, e você está... remoendo as coisas?

Ele deu de ombros. — Eles não fazem ideia nem da metade do que eu carrego.

Aquela confissão ficou suspensa no ar, densa e real. Eu não fazia ideia de quem era essa versão do Asher. Vulnerável. Sincero. E... gentil.

Uma gota grossa de chuva caiu na minha bochecha.

Depois outra.

— Parece que vem tempestade — eu disse, levantando. — Anda. Pra dentro da barraca.

Ele entrou atrás de mim, e nós dois nos abaixamos sob a aba da entrada. O espaço era apertado, grande o bastante para uma pessoa se deitar e outra talvez se sentar encolhida num canto. Eu me apressei para pegar um pano seco, minhas costas roçando nele—

—e então meu pé escorregou.

— Ahh!

Num segundo, caí direto em cima dele. Peito contra peito, nossos rostos a centímetros de distância. Apoiei a palma da mão no colchonete ao lado do ombro dele, e o cheiro de couro e chuva encheu meus pulmões.

Oh, deusa.

Ele estava quente. Quente demais.

Olhei para ele.

Aquela mandíbula. Aqueles cílios. A sombra de uma cicatriz no pescoço.

Eu nunca tinha percebido que Asher Moretti era tão... absurdamente bonito. Não, não apenas bonito — magnético. Intenso. De tirar o fôlego.

Então meu estômago se revirou.

O enjoo veio sem aviso.

Saí de cima dele num pulo, com a mão na boca, e tropecei para fora da barraca bem a tempo de vomitar.

Asher saiu correndo atrás de mim, confuso. — Aliyah? Você está—

— Estou bem — coaxei.

Mas eu não estava. Eu não tinha comido nada estranho. Nada além de bolachas secas e chá. E mesmo assim... Uma lembrança me atingiu em cheio.

Aquela noite. O calor. O fogo. O jeito desesperado como nos agarramos um ao outro.

Não. Não pode ser... Com as mãos tremendo, corri de volta para a barraca e puxei minha bolsinha. A fitinha ainda estava lá dentro. A que eu tinha comprado três dias atrás, mas nunca tive coragem de usar.

Fiquei olhando para ela por um longo tempo.

Então saí. A chuva tinha parado.

Usei a fita.

Esperei.

Uma linha apareceu.

Depois outra.

Nítida. Forte. Inegável.

Grávida.

Desabei de joelhos.

Lágrimas escorreram pelo meu rosto enquanto o oceano rugia baixinho à distância.

— Estou grávida...

Do filho de Asher Moretti.

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