Capítulo 3 É ele?
As palavras de Oliver morreram em sua garganta.
No fundo, ressentimento e uma amarga sensação de injustiça fervilhavam dentro dele.
Se não fosse por Sophia, por que ele teria que aguentar anos de “dificuldades”?
Ele já deveria ter herdado a empresa há muito tempo, vivendo feliz com Clara como marido e mulher.
Sophia já tinha visto espetáculo demais. Ela se despediu de Gavin com um breve cumprimento educado, pegou a bolsa e seguiu em direção à saída.
Atrás dela, o som de passos apressados ecoou pelo salão. Ela só se virou quando a mão de Oliver, tremendo de raiva contida, agarrou seu braço.
Os olhos de Sophia estavam cheios de gelo.
— Solta.
A expressão de Oliver era sombria, a voz áspera.
— O que exatamente você falou pro meu avô? Por que ele ainda tá tão decidido a deixar a empresa pra você?
— O vovô tá pensando no desenvolvimento de longo prazo da empresa. Ele tem um ótimo julgamento — dizer uma coisa dessas deixa bem claro que ele acredita que a minha capacidade é muito superior à sua.
Um traço de sarcasmo cortante passou pelos olhos de Sophia.
Oliver sempre fora um péssimo aluno desde a época da escola. Se Gavin não tivesse segurado as rédeas todos esses anos, ele provavelmente teria se desviado há muito tempo.
Ele tinha passado os últimos dois anos curtindo a vida no exterior — como é que poderia acompanhar o ritmo do mercado aqui dentro?
Olhando para o braço que ele apertava, Sophia não hesitou. Levantou o pé e o desceu com força.
Ela estava de salto agulha naquele dia e, quando pisou no pé de Oliver, ainda fez questão de girar o salto contra a pele dele.
O rosto de Oliver se contorceu quando ele recuou às pressas, sibilando de dor.
— Você...!
Sophia o fitou com completa indiferença. Puxou um lenço umedecido antisséptico da bolsa e começou a limpar, com todo cuidado, o lugar onde ele tinha tocado nela.
Para Oliver, o gesto pareceu uma provocação descarada.
— O que é isso pra significar? — cuspiu ele, a voz tremendo de ódio. — Você acha mesmo que eu sou sujo? Não esquece que a gente é casado!
— E você acha que é limpo? Se não fosse por causa do Gavin, eu não ia querer perder nem uma palavra com um idiota como você.
Sophia jogou o lenço usado no lixo mais próximo com um gesto displicente, o olhar gelado.
— Casados? Pros meus olhos, isso não passa de um contrato com proteção legal. Estamos casados agora, mas quem é que sabe o que vai acontecer no futuro?
Ela se virou para ir embora, mas Oliver avançou de novo, bloqueando o caminho dela.
— O que isso quer dizer? Você tá mesmo pensando em se divorciar de mim?
Ele soltou uma risada entrecortada, carregada de sarcasmo.
— Sophia, não pensa que eu não enxergo o que você tá tramando. A sua família caiu em desgraça, você não é a preferida de ninguém — você precisa do apoio da família Miller.
— Eu não sei que métodos baixos você usou pra fazer o meu avô gostar tanto de você — continuou ele. — Mas o principal motivo de eu ter levado a Clara pro exterior foi você!
— Para de arrumar desculpa pra encobrir o seu próprio egoísmo — cortou Sophia, a voz plana. — O que você fala agora só me faz achar você ainda mais nojento. Se você não quer que “as suas sujeiras” lá fora cheguem aos ouvidos do Gavin, é melhor ficar bem longe de mim.
A ameaça era escancarada, deixando Oliver imóvel enquanto ela se afastava.
Dito isso, ela entrou no carro e foi embora.
Quando Oliver levou Clara para o exterior, Gavin tinha cortado totalmente a mesada dele. Só graças ao apoio secreto da mãe é que ele conseguiu se virar todos aqueles anos.
Sophia, no entanto, vinha acompanhando cada passo de Oliver; ela tinha juntado provas das falcatruas dele mais do que o suficiente.
Se não fosse por consideração a Gavin, ela já teria desmascarado há muito tempo o que aquele “exílio” realmente significou.
Oliver ficou ali, rangendo os dentes, só podendo assistir ao Maserati vermelho fazer um drift perfeito antes de desaparecer de vista.
Ele baixou os olhos para as próprias mãos. Por algum motivo, desde que voltara, vinha sendo atormentado por uma sensação persistente de perda — como se algo vital tivesse escorrido silenciosamente por entre seus dedos.
Ele tentou estender a mão para pegá‑lo, mas agarrou apenas o vento.
Gavin havia fornecido para eles o horário, o local e o convite do leilão.
Na noite seguinte, às sete em ponto, Sophia chegou ao local na hora marcada. Ela usava um vestido longo preto, elegantemente justo, delineando com perfeição suas formas graciosas.
Ela lançou um olhar para Oliver, que estava ali por perto, mas não o esperou; entregou o convite e entrou no salão.
Aquele leilão era realizado sob o pretexto de caridade, com toda a renda destinada a crianças em áreas montanhosas pobres.
Sophia e Oliver foram acomodados nas fileiras do meio — longe de ser o melhor ponto de observação.
Sophia examinou o ambiente discretamente.
Corriam boatos de que o herdeiro da família Windsor apareceria ali naquele dia. Mesmo sendo um leilão relativamente sem brilho, ele havia atraído as famílias mais influentes do círculo deles, reunidas em pequenos grupos, cochichando se o tal herdeiro Windsor realmente daria as caras.
Oliver aproximou‑se de Sophia com a expressão fria.
— Por que você não me esperou agora há pouco? Você sabia quanta gente tem aqui — está tão decidida a deixar que todo mundo espalhe que o nosso casamento está em crise?
Sophia lançou um olhar completamente indiferente para ele.
— Você acha que faz alguma diferença fingirmos ser um casal apaixonado agora? As suas “proezas” já se espalharam por todo o nosso círculo.
Oliver ficou sem palavras mais uma vez.
Nos dois anos em que tinham ficado afastados, Sophia ficara cada vez mais afiada na língua, cada frase atingindo exatamente os pontos mais fracos dele.
— Não vou discutir com você — ele disse, respirando fundo. — Fiquei sabendo que hoje vão leiloar uma antiguidade de mais de cem anos. O aniversário do meu avô está chegando; eu quero comprar essa peça para dar de presente pra ele.
Sophia assentiu de qualquer jeito, ignorando‑o enquanto se sentava. A atenção dela continuava voltada para o misterioso herdeiro Windsor.
Ela vasculhou a plateia várias vezes, mas não viu ninguém que se encaixasse no perfil.
O lugar dela era na ponta da fileira; embora o salão estivesse lotado, a cadeira à sua direita continuava vazia.
Nem havia plaquinha de nome no encosto.
Logo, o leilão começou oficialmente.
O apresentador subiu ao palco com entusiasmo ensaiado, explicou o funcionamento do evento e, em seguida, deu início aos lances.
Sophia não tinha interesse naquelas primeiras peças.
Elas foram arrematadas uma a uma até que, finalmente, chegou a vez do item que Oliver esperava.
— Lance inicial: dois milhões de dólares!
— Três milhões!
— Quatro milhões!
— Dez milhões de dólares!
O preço disparou em questão de segundos.
Oliver apertou a plaquinha de lances com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Quinze milhões de dólares!
Era praticamente todo o dinheiro de que ele dispunha naquele momento. Ele estava desesperado para aproveitar aquela chance e reconquistar o favor de Gavin.
Sophia não era especialista em antiguidades, mas sabia que o lance de Oliver já tinha ultrapassado em muito o valor real da peça.
Várias pessoas na plateia o reconheceram; por aquele valor, a compra era prejuízo certo. Quem ainda tinha interesse foi baixando a plaquinha, um por um.
Oliver sentiu uma onda de autossatisfação.
Vamos ver quem é que vai se atrever a disputar comigo depois de eu ter jogado o preço lá em cima.
O leiloeiro percorreu o salão com o olhar, lá do palco.
— Algum lance maior?
— Se não houver, este tesouro será arrematado pelo comprador de número 23!
O leiloeiro ergueu o martelo, prestes a bater o fechamento, quando, de repente, sua expressão mudou. Ele olhou para o fundo do salão, tomado de surpresa.
— O comprador de número 1 ofereceu trinta milhões de dólares!
Um murmúrio percorreu a plateia.
— O quê? Trinta milhões!
— Numa peça daquelas? Quem deu trinta milhões ou não entende nada do valor dela ou simplesmente não liga para dinheiro!
— Será que isso é coisa do herdeiro dos Windsor?
O coração de Sophia disparou dentro do peito ao ser tomada por um pensamento. Ela virou‑se na direção da entrada. Das sombras do vão da porta, um homem de terno preto entrou caminhando lentamente.
As pupilas dela se dilataram; toda a sua expressão ficou congelada.
É ele?
