Capítulo 3 UMA OPORTUNIDADE INESPERADA
Jonas narrando
Fazia poucos dias que eu estava morando na comunidade. Até então, o lugar parecia tranquilo. Os moradores cuidavam de suas vidas, as crianças brincavam pelas ruas e as pessoas conversavam nas portas de suas casas. Eu sabia que confrontos poderiam acontecer, mas nunca imaginei que acabaria no meio de um deles, muito menos que seria socorrido pela própria dona do morro.
Ainda estava tentando assimilar tudo o que havia acontecido. Quando fechava os olhos, conseguia ouvir novamente os disparos, os gritos e a correria. Por mais que tentasse afastar aquelas lembranças, meu corpo ainda reagia como se o perigo estivesse do lado de fora da minha porta.
Respirei fundo e olhei para o braço machucado.
Pelo menos, não havia sido nada grave.
Depois de limpar os ferimentos e fazer os curativos da melhor maneira que consegui, tomei um banho e comecei a organizar a casa. Precisava manter a cabeça ocupada, pois, quando ficava sozinho com meus pensamentos, as lembranças do passado costumavam aparecer sem pedir licença.
Antes do acidente, minha vida era completamente diferente.
Eu tinha um bom emprego em uma multinacional, recebia um salário que me permitia viver confortavelmente e havia conquistado algumas coisas das quais me orgulhava. Não nasci em uma família rica, por isso aprendi desde cedo que precisava trabalhar para conseguir aquilo que desejava.
Nunca tive vergonha de começar por baixo. Estudei, me esforcei e aproveitei as oportunidades que apareceram. Com o tempo, consegui crescer profissionalmente e passei a fazer planos para o futuro.
Eu tinha um apartamento, um carro e uma noiva com quem pretendia me casar em dois meses.
Naquela época, acreditava que havia encontrado meu lugar no mundo.
Minha noiva e eu fazíamos planos para a cerimônia, conversávamos sobre a decoração da nossa casa e imaginávamos como seria nossa vida depois do casamento. Eu estava tão feliz que, às vezes, me pegava sorrindo sozinho ao pensar no futuro.
Meus pais também faziam parte da minha vida. Eu acreditava que podia contar com eles, principalmente nos momentos difíceis.
Nunca imaginei que perderia tudo de uma maneira tão cruel.
Durante uma inspeção na empresa, aconteceu uma explosão. Ainda me lembro da confusão, do barulho ensurdecedor e da sensação de que tudo havia desaparecido ao meu redor. Caí de uma altura superior a dez metros e sofri uma fratura na coluna.
Depois disso, minha vida se tornou uma sequência de acontecimentos dos quais não me recordo completamente.
Passei meses em coma.
Quando finalmente acordei, precisei enfrentar uma realidade que nunca havia imaginado. Meu corpo já não respondia como antes, os médicos explicavam os cuidados necessários e minha recuperação exigiria tempo, paciência e muito dinheiro.
Mas a dor física não foi a única coisa que precisei enfrentar.
Minha noiva me abandonou.
A mulher que prometera ficar ao meu lado nos momentos bons e ruins decidiu que não queria continuar comigo depois do acidente. Para piorar, o apartamento que eu havia comprado com tanto esforço acabou ficando com ela como parte de um acordo de indenização.
Meus pais também me decepcionaram. O dinheiro que recebi da empresa foi gasto por eles, sem que eu tivesse controle sobre o que acontecia. Quando percebi a dimensão daquilo, senti como se tivesse sido traído pelas últimas pessoas em quem ainda confiava.
Se não fossem minhas economias, eu teria ficado sem ter onde morar.
Foi por isso que decidi recomeçar longe de todos eles.
Paguei seis meses de aluguel adiantado, comprei minha cadeira de rodas e procurei uma casa que coubesse no meu orçamento. Não era o lugar dos meus sonhos, mas me oferecia o que eu mais precisava naquele momento: um teto e a possibilidade de reconstruir minha vida sem depender de ninguém.
Os médicos haviam explicado que eu ainda poderia recuperar parte dos movimentos, dependendo da evolução do meu quadro e dos resultados de possíveis cirurgias. Também precisaria de fisioterapia especializada.
Eu queria tentar.
Queria muito.
Entretanto, os tratamentos custavam caro, e eu não tinha condições de pagar por eles naquele momento. Por isso, tentava me concentrar no que poderia fazer agora: conseguir um emprego, organizar minhas despesas e recuperar minha independência.
Não era fácil.
Naquele mesmo dia, havia percorrido a cidade inteira entregando currículos. Alguns empregadores sequer olharam minhas qualificações. Outros tentaram disfarçar o desconforto, dizendo que entrariam em contato.
Eu conhecia aquela conversa.
O que mais me revoltava era perceber que algumas pessoas enxergavam minha cadeira antes de enxergar minha capacidade. Eu não precisava que facilitassem tudo para mim, mas merecia a oportunidade de mostrar o que sabia fazer.
Suspirei, terminando de ajeitar uma almofada sobre a cama.
— Um problema de cada vez, Jonas — murmurei.
Foi quando ouvi batidas na porta.
Estranhei imediatamente. Ainda não havia feito amizade com ninguém na comunidade, e não esperava visitas.
Aproximei-me da entrada e abri a porta com cuidado.
Quase perdi a fala.
Era Serpente.
A mulher que havia me ajudado durante a invasão estava parada diante de mim, segurando algumas sacolas. Mesmo usando roupas simples, continuava transmitindo aquela presença imponente que parecia fazer as pessoas ao redor prestarem atenção em cada movimento seu.
— Boa noite, Jonas. Posso entrar?
Demorei um instante para responder.
— Claro.
Afastei a cadeira para dar passagem, e ela entrou, observando discretamente o ambiente. Minha casa era pequena, com poucos móveis e espaço limitado para circular. Eu ainda estava tentando descobrir a melhor maneira de organizar tudo para facilitar minha movimentação.
Serpente colocou as sacolas sobre a mesa.
— Esses móveis já estavam aqui?
— Sim. Quando aluguei a casa, eles já faziam parte do imóvel.
Ela olhou para o espaço entre o sofá e a mesa.
— Não atrapalha sua movimentação?
— Um pouco. Preciso fazer algumas manobras para passar em determinados lugares, mas estou me acostumando.
— Você deveria reorganizar os móveis para ter mais espaço.
— Pretendo fazer isso quando conseguir comprar algumas coisas. Por enquanto, preciso trabalhar com o que tenho.
Ela me encarou por alguns segundos, como se estivesse analisando minha resposta.
Não havia pena em seu olhar. Pelo menos, não era isso que eu sentia. Serpente parecia interessada em compreender minha situação, embora eu ainda não soubesse por que uma mulher tão ocupada havia decidido visitar um desconhecido.
— Conseguiu cuidar dos machucados? — perguntou.
— Consegui limpar e fazer alguns curativos. Não parece ter sido nada grave.
Ela abriu uma das sacolas e retirou alguns produtos.
— Trouxe material para limpar os ferimentos direito, remédios para dor e algumas coisas para você comer. A invasão demorou a acabar, e imaginei que talvez não tivesse conseguido se alimentar.
Fiquei sem graça.
— Obrigado, mas não precisava se incomodar comigo.
— Eu quis trazer. Não vejo motivo para transformar isso em um problema.
A resposta me fez ficar em silêncio.
Havia muito tempo que alguém não fazia algo por mim sem esperar alguma coisa em troca. Eu estava tão acostumado a resolver tudo sozinho que até receber uma ajuda sincera parecia estranho.
Serpente retirou outra coisa da sacola: minha pasta de currículos.
Meus olhos se arregalaram.
— Onde encontrou isso?
— No beco onde encontrei você. Alguns papéis estavam espalhados, e um dos meus homens recolheu o que conseguiu. Estava procurando emprego, não estava?
Baixei os olhos para a pasta.
— Estava. Saí de manhã para entregar currículos. Tentei algumas empresas, mas não tive muita sorte.
— Você trabalha com o quê?
— Sou contador. Tenho experiência em uma multinacional e conheço bem a área financeira. Também tenho facilidade com organização e análise de documentos.
Serpente pareceu prestar ainda mais atenção.
— Então talvez eu tenha alguma coisa que possa interessar a você.
Franzi a testa.
— Como assim?
Ela puxou uma cadeira e se sentou diante de mim, mantendo a postura firme.
— Estou precisando de um contador. Tenho documentos para organizar, relatórios financeiros para acompanhar e algumas questões administrativas que exigem alguém de confiança. Quero uma pessoa competente para cuidar disso.
Fiquei olhando para ela, sem saber se havia entendido corretamente.
— Você está me oferecendo um emprego?
— Estou. Se aceitar, posso trazer os documentos até aqui. Assim você não precisará enfrentar dificuldades para subir e descer todos os dias. Também vou providenciar um computador para facilitar seu trabalho.
Meu coração começou a bater mais rápido.
Eu havia passado o dia inteiro ouvindo desculpas e, de repente, estava diante de uma oportunidade concreta.
— Mas você nem me conhece direito — observei.
— Por isso mesmo estou conversando com você. Preciso saber se tem as qualificações necessárias e se está disposto a trabalhar. Pelo que acabou de me dizer, acredito que podemos chegar a um acordo.
Olhei para minhas mãos e hesitei antes de confessar:
— Tenho medo de não conseguir corresponder às suas expectativas. Desde o acidente, parece que todo mundo espera menos de mim.
Serpente ficou séria.
— Você sofreu um acidente, Jonas. Isso não significa que perdeu sua inteligência ou sua capacidade de trabalhar.
Aquelas palavras atingiram um lugar sensível dentro de mim.
— As pessoas não pensam assim.
— Então está na hora de encontrar pessoas que saibam reconhecer seu valor.
Engoli em seco, tentando disfarçar a emoção.
Ela continuou:
— E, antes que pergunte, sim, eu procuro saber quem são as pessoas que chegam aqui. É uma questão de segurança. Não posso simplesmente confiar em qualquer desconhecido, principalmente quando existem ameaças à nossa volta. Descobri o que aconteceu com você e entendi que seu acidente foi uma fatalidade.
Ela fez uma pequena pausa antes de acrescentar:
— Sua ex-noiva foi uma idiota por abandonar você daquela maneira. Quanto aos seus pais, prefiro deixar que minha imaginação cuide do que penso sobre eles.
Apesar de tudo, acabei soltando uma risada curta.
— Acho que minha imaginação pensa exatamente a mesma coisa.
Serpente sorriu discretamente.
Foi a primeira vez que a vi demonstrar uma expressão tão natural, e aquilo me surpreendeu. Eu conhecia a fama que ela carregava, mas, naquele momento, estava diante de uma mulher que parecia compreender minha indignação.
— Eu só quero esquecer que eles existem — confessei. — Não quero passar o resto da vida pensando no que fizeram comigo.
— Então não permita que as escolhas deles determinem o seu futuro. Você ainda tem uma vida inteira pela frente.
Olhei para ela, impressionado com a firmeza daquelas palavras.
— É fácil falar quando não se está na minha situação.
Assim que terminei a frase, temi ter sido grosseiro. Entretanto, Serpente não se ofendeu.
— Talvez eu não conheça exatamente a sua situação, mas sei que ninguém consegue recomeçar enquanto continua preso ao que perdeu. Você não precisa esquecer tudo de uma hora para outra. Só precisa parar de acreditar que sua história terminou.
Fiquei em silêncio.
Talvez fosse a primeira vez, desde o acidente, que alguém falava comigo sem transformar minha condição física no centro de toda a conversa.
Ela não estava prometendo que minha vida seria fácil. Estava oferecendo uma oportunidade para que eu pudesse seguir em frente.
— Eu aceito o emprego — respondi finalmente.
Serpente assentiu, satisfeita.
— Ótimo. Amanhã trarei os documentos e o computador. Vamos conversar sobre o salário, as responsabilidades e os horários. Quero que tudo fique bem definido desde o início.
— Você vai mesmo me pagar bem?
— Jonas, não costumo oferecer trabalho para depois desvalorizar o serviço de alguém. Se você fizer sua parte, receberá pelo que combinarmos. E, quando precisar realizar suas cirurgias, não vou descontar os dias necessários para sua recuperação, desde que organizemos tudo com antecedência.
A possibilidade de voltar a fazer o tratamento me deixou emocionado.
— Eu ainda quero tentar recuperar os movimentos — contei. — Os médicos disseram que existem procedimentos que podem ajudar, mas preciso de dinheiro para começar.
— Então trabalhe, organize suas contas e faça seu planejamento. Não posso prometer resultados médicos, mas posso oferecer uma oportunidade para que você tenha condições de buscar o tratamento.
A honestidade dela me agradou.
Serpente não estava prometendo milagres. Estava me dando uma chance.
— As pessoas falam muito mal de você — comentei, depois de alguns segundos.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— É mesmo?
— Dizem que você é perigosa, que ninguém deve contrariá-la e que é melhor manter distância.
— As pessoas gostam de falar sobre aquilo que não conhecem.
— E você não se importa?
Serpente cruzou as pernas e me encarou.
— Aprendi que não posso viver tentando agradar a todos. Preciso ser firme para manter a ordem e proteger aquilo pelo qual sou responsável. Isso não significa que todas as histórias contadas sobre mim sejam verdadeiras.
Não soube o que responder.
Eu não era ingênuo. Sabia que aquela mulher vivia em um mundo perigoso e que sua realidade estava muito distante da minha. Ainda assim, a maneira como havia me tratado naquela noite era diferente do que eu esperava.
Ela não me tratara como um coitado.
Não tentara decidir tudo por mim.
E, agora, estava oferecendo um emprego que poderia mudar minha vida.
— Obrigado pela oportunidade — falei. — Vou me esforçar para não decepcionar você.
— Espero que se esforce mesmo. Não gosto de gente que aceita responsabilidades e depois inventa desculpas.
Sorri.
— Pode deixar. Sei trabalhar.
— Ótimo. Gosto de pessoas que sabem o próprio valor.
Ela se levantou, pegou o celular e salvou alguma coisa na tela antes de me entregar um cartão com seu número.
— Este é meu contato. Se precisar falar comigo sobre o trabalho, pode ligar. Amanhã apareço com os documentos.
Depois, apontou para as sacolas.
— E coma. O lanche vai esfriar.
— Você trouxe tudo isso só para mim?
— Não, Jonas. Trouxe para o vizinho e resolvi deixar aqui por engano.
Olhei para ela, surpreso, até perceber a ironia.
Acabei rindo.
Serpente também sorriu, e por um instante a expressão severa pareceu desaparecer de seu rosto.
— Boa noite, Jonas.
— Boa noite, Serpente. E obrigado por tudo.
Ela caminhou até a porta e saiu, deixando um perfume suave no ar e uma sensação estranha que eu ainda não sabia explicar.
Fiquei olhando para a entrada fechada durante alguns segundos.
Como o mundo dava voltas!
Eu havia saído de casa procurando emprego e voltado depois de enfrentar uma invasão. Agora, tinha uma proposta de trabalho, um número de telefone e a esperança de que talvez pudesse reorganizar minha vida.
Abri a sacola do lanche e levei um susto ao ver tudo o que havia dentro: um sanduíche enorme, batatas fritas, refrigerante e até um sorvete.
Sorri como uma criança.
Talvez parecesse uma coisa pequena para qualquer outra pessoa, mas, para mim, significava muito. Ninguém havia feito algo assim por mim havia bastante tempo.
Enquanto comia, voltei a pensar em Serpente.
Ela continuava sendo um mistério. Eu não sabia o que esperar de uma mulher que comandava aquele lugar, nem se deveria confiar completamente nela. Mas sabia reconhecer uma oportunidade quando ela aparecia.
Eu precisava daquele emprego.
Precisava recuperar minha independência e voltar a acreditar que ainda poderia construir um futuro.
Naquela noite, antes de dormir, coloquei o cartão de Serpente sobre a mesa e olhei para ele mais uma vez.
Talvez as coisas estivessem começando a dar certo.
Eu só não imaginava que aceitar aquela proposta me aproximaria cada vez mais de uma mulher capaz de transformar minha vida de maneiras que eu ainda não conseguia prever.
Por enquanto, queria apenas trabalhar, juntar dinheiro para meu tratamento e aprender a viver sem carregar o peso das escolhas de quem me abandonou.
O resto eu descobriria com o tempo.
Pela primeira vez em muitos meses, adormeci com um pouco de esperança no coração.
Continua...
