Chapter 1
O terceiro quarto da final ainda nao tinha terminado quando o rosto de Leo apareceu no telao da Arena Bandeirantes.
Mariana prendeu a respiracao.
O menino estava sentado duas fileiras abaixo da area reservada a convidados do Hospital Infantil Santa Cecilia, pequeno no meio daquele barulho enorme. Usava uma jaqueta azul-marinho emprestada, uma mascara cirurgica e segurava uma bola de basquete infantil contra o peito. Os olhos dele brilhavam de febre e encanto.
A narradora da transmissao riu com ternura.
"Olha esse torcedor mirim dos Imperadores. Que sorriso, hein?"
Entao a camera ficou um segundo a mais.
Um segundo foi suficiente.
No celular de Mariana, que vibrava dentro da bolsa com os alertas do aplicativo da Liga, a tela se encheu de mensagens do grupo das maes do hospital, depois de notificacoes de cortes da transmissao, depois de comentarios de desconhecidos.
"Gente, esse menino parece o Caio Duarte crianca."
"O nariz. A boca. Pelo amor de Deus."
"Filho secreto do idolo das quadras?"
"A producao achou o mini Caio na arquibancada."
Mariana sentiu a mao gelar.
Ela estava no corredor lateral, perto da enfermaria montada para os pacientes convidados pelo programa social da Liga. Tinha aceitado levar Leo porque o medico dissera que uma noite feliz poderia ajudar o menino a suportar a semana de exames. Ela so nao tinha imaginado que uma camera curiosa fosse transformar alegria em ameaca.
Do outro lado da quadra, Caio Duarte recebeu a bola, girou sobre o marcador do Rio Atlanticos e enterrou com violencia. A arena explodiu. O nome dele desceu das arquibancadas como trovão.
"CA-IO! CA-IO! CA-IO!"
Mariana nao olhou para a cesta.
Olhou para Leo.
Ele ainda sorria para o telao, sem entender por que tantas pessoas apontavam para ele. Uma voluntaria do hospital inclinou o corpo e disse algo no ouvido dele. Leo respondeu com um aceno timido, como se pedisse desculpas por existir.
Aquilo cortou Mariana por dentro.
Ela saiu andando rapido.
O cracha de acompanhante bateu no peito. O tenis escorregou no piso liso. A bolsa pesada puxou seu ombro para baixo, com exames, receitas, autorizacoes e o caderno onde ela anotava cada febre de Leo desde que ele tinha dois anos.
"Mari!" chamou Paula, enfermeira do Santa Cecilia. "O que foi?"
"Tira ele dali."
"Mas ele esta bem."
"Tira ele dali agora."
Paula viu o celular na mao de Mariana. Viu a foto congelada de Leo ao lado de uma montagem antiga de Caio aos seis anos, os dois com o mesmo queixo teimoso, os mesmos olhos escuros.
A enfermeira perdeu a cor.
"Meu Deus."
"Eu sei."
Mariana engoliu o panico. Cinco anos antes, ela tinha aprendido que entrar em desespero na frente de gente rica era dar a faca e mostrar onde cortar. Helena Duarte tinha sorrido enquanto fazia isso. Renato Vidal tinha falado baixo, quase educado, enquanto ameaçava fechar todas as portas profissionais dela em Sao Paulo.
Caio nunca tinha aparecido.
Caio tinha mandado uma mensagem fria.
"Voce escolheu dinheiro. Fica com ele. Nunca mais me procure."
Ela tinha lido aquilo gravida, sozinha, com uma mala aberta e uma passagem de onibus para o interior. Tinha chorado ate nao sair mais som. Depois tinha guardado a imagem do cheque nao descontado, o print da mensagem e a promessa de nunca deixar ninguem da familia Duarte tocar no filho dela.
Agora a internet inteira tinha tocado.
Na quadra, o narrador gritou:
"Caio Duarte coloca os Imperadores na frente! O homem nasceu para final!"
Mariana quase riu. Nasceu para final. Caio sempre parecia nascer para os momentos que destruíam os outros.
Paula voltou com Leo segurando sua bola.
"Mae?" A voz dele saiu abafada pela mascara. "Eu fiz alguma coisa errada?"
Mariana se ajoelhou na frente dele.
"Nao, meu amor. Voce nao fez nada errado."
"Todo mundo olhou."
"Porque voce e lindo."
Leo franziu a testa, esperto demais para aceitar mentira pequena.
"E porque eu pareco com aquele jogador?"
O ar sumiu do corredor.
Paula desviou os olhos.
Mariana segurou os ombros magros do filho. Sentiu a estrutura pequena sob a jaqueta, o corpo que precisava de exames, de uma chance, de respostas que talvez estivessem no sangue de um homem que ela tinha tentado esquecer.
"As pessoas falam muita coisa na internet."
"Mas ele joga bonito."
"Joga."
"Ele e meu pai?"
A pergunta veio baixa, quase sem peso. Justamente por isso esmagou Mariana.
Ela abriu a boca.
Nenhuma palavra saiu.
Antes que pudesse responder, o celular de Paula tocou. A enfermeira olhou a tela e ficou rigida.
"E da administracao do hospital."
Mariana levantou.
"Nao atende aqui."
Tarde demais. Paula atendeu, ouviu por tres segundos e olhou para Mariana com medo.
"Mari... eles querem que voce volte agora para o Santa Cecilia. O medico pediu. Disseram que tem gente ligando atras do prontuario do Leo."
"Gente quem?"
Paula cobriu o microfone.
"Assessoria do Caio Duarte."
No mesmo instante, do outro lado da parede, a arena explodiu com o apito final do quarto.
Na sala de transmissoes, o corte do menino ja tinha milhoes de visualizacoes.
E no vestiario dos Sao Paulo Imperadores, Caio Duarte pegou o celular das maos do preparador fisico, viu a imagem congelada de Leo e parou como se alguem tivesse acertado seu peito sem bola, sem aviso, sem piedade.
