Chapter 2

Caio nao ouviu a pergunta do tecnico.

O vestiario inteiro falava ao mesmo tempo. Gelo caia em baldes. Tenis batiam no piso. Um assistente gritava estatisticas. A final ainda nao tinha acabado, mas os Imperadores lideravam por cinco pontos, e todo mundo queria lembrar o time de respirar.

Caio so via o menino.

A foto ampliada tremia na tela do celular, nao porque a imagem estivesse ruim, mas porque a mao dele nao obedecia. A crianca tinha o mesmo olho que ele via em fotos antigas guardadas por Helena em albuns de couro. O mesmo jeito de apertar a boca quando estava tentando ser corajoso. Ate a pequena marca acima da sobrancelha direita parecia uma brincadeira cruel do destino.

"Quem e ele?" Caio perguntou.

O preparador fisico, Davi, olhou para os lados.

"A internet esta chamando de mini Caio. Deve ser so parecido."

"Eu perguntei quem e ele."

Davi respirou fundo.

"Veio com um grupo do Hospital Infantil Santa Cecilia. Programa de convidados da Liga."

Santa Cecilia.

Caio sentiu uma lembranca atravessar a cabeca. Mariana Azevedo em um corredor de clinica, com jaleco claro, cabelo preso de qualquer jeito, corrigindo a postura dele depois de uma lesao no tornozelo. Ela tinha rido porque ele reclamava mais da fita elastica do que de marcador quebrando seu joelho.

Mari.

O nome doeu antes de fazer sentido.

"Caio." Renato Vidal apareceu na porta, impecavel demais para um vestiario. Terno cinza, sorriso de controle, celular colado na palma. "Nao entra nessa agora."

"Nessa o que?"

"Num meme. Voce esta a doze minutos de ganhar uma final. A Bianca ja esta segurando a narrativa na transmissao. Foco."

Caio levantou os olhos.

"Que narrativa?"

Renato hesitou um segundo. Um segundo a mais do que devia.

"Que e uma coincidencia bonita. Um torcedor mirim. Nada alem disso."

"Por que precisaria segurar uma coincidencia?"

O silencio caiu numa roda pequena perto dele.

Renato se aproximou, voz baixa.

"Porque qualquer mulher com uma crianca parecida pode tentar se aproveitar de voce numa noite dessas. Voce sabe como funciona."

Caio sabia como Renato dizia que funcionava. Durante anos, o agente tinha colocado filtros entre ele e o mundo: mulheres interesseiras, parentes oportunistas, jornalistas famintos, contratos com clausulas invisiveis. Depois de Mariana, Caio tinha aceitado quase tudo. Um homem traido fica facil de administrar quando acha que controle e protecao.

Mas aquela foto nao parecia uma ameaca externa.

Parecia uma porta antiga abrindo por dentro.

"Descobre o nome dele."

"Depois do jogo."

"Agora."

"Caio..."

"Eu disse agora."

Renato fechou o rosto.

"Voce quer jogar sua final no lixo por uma crianca que a internet achou parecida com voce?"

Caio deu um passo para perto dele.

"Quero saber por que voce esta com tanto medo de uma crianca."

Antes que Renato respondesse, o tecnico bateu palmas.

"Todo mundo para a quadra. Agora."

Caio devolveu o celular a Davi sem desviar os olhos de Renato.

"Nome. Hospital. Acompanhante. Tudo."

Davi assentiu, quase sem respirar.

Caio voltou para a quadra com o corpo treinado para obedecer e a cabeca virada do avesso. As luzes da Arena Bandeirantes feriram seus olhos. A torcida rugiu quando ele apareceu. Bianca Paes, na lateral da transmissao, sorriu para a camera com a intimidade ensaiada de quem vinha sendo vendida como quase namorada dele havia meses.

"Caio parece concentrado," ela disse no microfone. "Nada abala um campeao."

Mentira.

O primeiro passe que ele recebeu quase escapou.

Do lado do banco dos convidados, as cadeiras onde o menino estivera agora estavam vazias. Caio procurou o rosto pequeno entre centenas de pessoas, mas viu apenas celulares levantados. A cada toque dele na bola, alguem gritava "pai" da arquibancada, meio rindo, meio testando ate onde podia ir.

Ele marcou. Defendeu. Correu. Enterrou outra bola com tanta raiva que o aro balancou como se fosse quebrar. Os Imperadores venceram por tres pontos e empataram a serie final.

Quando o apito soou, colegas pularam sobre ele.

Caio nao comemorou.

Ele arrancou a toalha do ombro, atravessou o corredor e entrou no vestiario antes das cameras. Davi estava ali, palido, segurando um papel impresso.

"Fala."

"O menino se chama Leonardo Azevedo. Leo. Cinco anos."

Caio sentiu o mundo inclinar.

Azevedo.

O sobrenome de Mariana.

Renato, que vinha logo atras, parou na entrada.

"Quem te autorizou a puxar isso?"

Davi se afastou um passo.

Caio pegou o papel. Lia e relia como se as letras pudessem mudar. Leonardo Azevedo. Convidado do Hospital Infantil Santa Cecilia. Acompanhante responsavel: Mariana Azevedo.

Mari estava em Sao Paulo.

Com um filho de cinco anos.

Um filho que tinha o rosto dele.

"Onde ela esta?" Caio perguntou.

Renato fechou a porta do vestiario.

"Voce vai me ouvir antes de fazer uma besteira."

"Onde ela esta?"

"Essa mulher levou dinheiro da sua mae e sumiu. Voce viu os documentos."

"Eu vi o que voces me mostraram."

Renato apertou a mandibula.

"Nao estraga uma carreira inteira por nostalgia."

Caio olhou para o papel de novo. O nome Azevedo queimava.

"Nao e nostalgia quando tem uma crianca no meio."

O celular de Renato vibrou. Ele olhou, e o pouco sangue que restava em seu rosto desapareceu.

Caio tomou o aparelho da mao dele antes que o agente pudesse esconder.

Na tela, uma mensagem de Helena Duarte dizia:

"Impeca que ele chegue ao hospital. Se Mariana abriu a boca, acabou."

Caio leu uma vez. Depois outra.

Quando levantou os olhos, Renato ja nao parecia irritado.

Parecia culpado.

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