Chapter 3
Mariana chegou ao Hospital Infantil Santa Cecilia pela entrada lateral.
Paula dirigiu porque as maos de Mariana nao paravam de tremer. Leo dormia no banco de tras, exausto pela final, pela febre baixa, pelo susto de ver seu rosto virar assunto de gente adulta. A bola infantil rolava no assoalho a cada freada.
Na recepcao privada, a televisao estava muda, mas as imagens ainda mostravam Caio em camera lenta. Embaixo, uma faixa repetia: "Torcedor mirim parecido com Caio Duarte viraliza durante final."
Mariana quis quebrar a tela.
O Dr. Augusto veio ao encontro dela, sem jaleco, gravata solta, cara de quem tinha sido arrancado de uma reuniao ruim.
"Mariana, precisamos conversar."
"Se alguem pediu prontuario do meu filho, eu nao autorizo."
"Eu neguei o acesso."
"Entao por que me chamou assim?"
Ele olhou para Leo dormindo no colo dela.
"Porque a exposicao mudou o risco. E porque os exames desta semana apontam que talvez a gente precise acelerar a busca por compatibilidade familiar."
Mariana apertou o filho contra o peito.
"Eu ja fiz meus exames."
"Eu sei."
"E minha mae morreu. Meu pai nao existe nos documentos. Nao tem mais ninguem."
O medico nao respondeu de imediato.
A resposta nao dita ficou no corredor entre eles.
Paula tocou o braco de Mariana.
"Mari..."
"Nao."
Dr. Augusto manteve a voz baixa.
"Nao estou dizendo que voce precisa chamar ninguem hoje. Estou dizendo que, se o pai biologico existir e puder fornecer historico medico ou entrar no cadastro de compatibilidade, isso pode ajudar."
"Pode ajudar ou pode tirar meu filho de mim?"
"Medicina nao funciona assim."
"Familia Duarte funciona."
O medico desviou o olhar, e Mariana entendeu que ele conhecia poder suficiente para nao prometer o que nao controlava.
Ela levou Leo para o quarto. Trocou a jaqueta por um moletom limpo. Passou agua nos labios dele. Ficou contando respiracoes ate o coracao parar de correr.
O celular vibrava sem descanso.
Mensagens de desconhecidos. Jornalistas. Numeros sem identificacao. Uma chamada perdida de um escritorio de advocacia. Outra de uma produtora de programa esportivo. O mundo nao queria saber se Leo estava doente. Queria uma historia.
Quando a porta do quarto abriu sem que ela autorizasse, Mariana se virou pronta para morder.
Caio Duarte estava ali.
Sem uniforme, cabelo ainda molhado de banho, uma jaqueta preta escondendo mal o corpo de atleta. Dois seguranças do hospital tentavam segura-lo do lado de fora, mas ele tinha parado na soleira como se tambem tivesse medo de atravessar.
Cinco anos desapareceram e voltaram no mesmo segundo.
Mariana viu o garoto que ela amou. O homem que o mundo aplaudia. A mensagem cruel na tela. O cheque assinado por Helena. A noite em que ela saiu de Sao Paulo com uma mao na barriga e a outra no peito.
"Sai."
A palavra saiu baixa.
Caio piscou, ferido.
"Mari."
"Nao fala meu nome."
"Eu so quero saber se ele esta bem."
"Voce nao tem esse direito."
Ele olhou para a cama. Leo dormia de lado, rosto pequeno afundado no travesseiro. A mascara tinha sido retirada; a semelhanca sem ela era ainda pior. Caio ficou tao palido que Mariana quase acreditou que a dor dele era real.
"Quantos anos ele tem?"
"Sai do quarto."
"Mari, por favor."
"Por favor foi o que eu disse cinco anos atras. Voce lembra o que respondeu?"
Caio ficou imovel.
"Eu respondi o que?"
A pergunta parecia sincera demais. Mariana odiou isso.
"Nao brinca comigo."
O Dr. Augusto apareceu atras dele.
"Senhor Duarte, o hospital nao pode permitir..."
"Eu nao vim pela imprensa." Caio tirou uma credencial do bolso e jogou no lixo ao lado da porta, como se ela queimasse. "Vim porque vi o nome Azevedo."
"E agora ja viu. Vai embora."
Caio deu um passo. Mariana entrou na frente da cama.
"Mais um passo e eu chamo a policia."
"Eu nunca faria mal a ele."
"Nao. Voce so deixaria os outros fazerem."
A frase bateu nele. De verdade. Caio abriu a boca, mas o medico cortou.
"Mariana, ha documentos que preciso que voce revise. Com a exposicao publica, a administracao pediu confirmacao dos dados para bloquear acessos indevidos."
Ele entregou uma pasta. Mariana pegou sem ler, os olhos em Caio.
Caio viu a primeira folha antes dela fechar.
Ficha de Leonardo Azevedo.
Data de nascimento: 18 de setembro.
Tipo sanguineo: B positivo.
Data de primeira consulta em Sao Paulo: 7 de junho.
Caio nao respirou.
Mariana percebeu tarde demais que ele tinha lido.
"Nao."
Ele olhou para ela, e havia terror novo nos olhos.
"Voce saiu de Sao Paulo em janeiro."
"Para."
"Setembro."
"Caio, para."
"B positivo." A voz dele quebrou. "Eu sou B positivo."
"Muita gente e."
"Ele tem cinco anos."
"Sai daqui."
"Ele nasceu oito meses depois que voce foi embora."
Mariana segurou a pasta contra o peito como se pudesse esconder o tempo.
Caio deu um passo para tras, nao por obediencia, mas porque o chao parecia ter sumido sob ele. A raiva, a suspeita, o orgulho, tudo caiu. Ficou so um homem olhando para uma crianca adormecida e para a mulher que tinha perdido.
No corredor, um celular gravava por uma fresta.
Mariana viu o brilho da lente.
"Fecha a porta!"
Paula correu, mas a imagem ja tinha escapado.
Caio nao olhou para a camera. So olhou para Leo.
E, num sussurro que atravessou Mariana como uma sentenca, disse:
"Ele pode ser meu filho."
