Capítulo 1 1

CAPÍTULO 1: RUMI

A névoa da manhã cedo ainda se agarrava ao meu redor, fazendo o bando inteiro parecer algo saído de um filme de terror gótico. Perfeito. Combinava perfeitamente com o meu humor.

Eu tinha dezessete anos. Faltava exatamente um ano para eu terminar o ensino médio. Um ano para sobreviver antes de eu poder, legalmente, virar uma renegada, desaparecer no mundo humano e nunca mais olhar para outro bando de lobos. Em vez disso, por causa do desastre lá no Ocean Pack, fui obrigada a fugir do meu antigo bando no meio da noite e transplantar a minha vida inteira para o território de um bando completamente estranho.

E hoje? Hoje era a punição definitiva: meu primeiro dia numa escola nova.

O ensino médio já é brutal para adolescentes normais, mas ensino médio de lobisomens? É literalmente um criadouro de exibições de dominância, política de hierarquia de bando e Alfas adolescentes inflando seus surtos de poder. Lá no Ocean Pack, eu sabia quem evitar, quais corredores pertenciam a quais lobos ranqueados e onde me esconder para passar despercebida. Aqui, eu era uma folha em branco. Uma ninguém de nível ômega, sem posição no bando, entrando num tanque de tubarões.

— Bem-vinda à Northwood High — disse a mulher atrás da mesa. Ela forçou um sorrisão e me entregou um cartão de plástico. — Aqui está sua carteira de estudante. Mantenha-a com você o tempo todo. Os guardas do bando conferem.

Olhei para a minha foto. Estava horrível. Meu cabelo escuro estava bagunçado e caía nos meus olhos. Eu não sorria e parecia pronta para arrancar a garganta de alguém. A foto tinha sido tirada uma semana antes, quando minha mãe e eu viemos à escola para assinar a papelada. O cara que tirou a foto nem me avisou antes de estourar o flash na minha cara.

Mas, sinceramente, a expressão de raiva no meu rosto era por causa do meu pai. Ele tinha me ligado naquela manhã, implorando para eu perdoá-lo por ter arruinado nossas vidas. Eu não atendi. Só apaguei o correio de voz.

— Hm… tem alguma possibilidade de trocar por uma nova? — perguntei, erguendo o cartão feio.

— Não, aqui a gente não faz segunda tentativa — disse a mulher, voltando para o computador. — Você consegue achar sua sala ou precisa de ajuda?

— Eu me viro — respondi.

Joguei minha mochila pesada no ombro e enfiei a carteira no bolso. Escolher usar um vestido leve hoje tinha sido um erro enorme. O tempo estava um pouco frio e o ar-condicionado desta escola estava no máximo. Minha pele já estava congelando, e o vestido parecia jogar gelo nas minhas pernas.

Pior do que o frio era o cheiro. Estar perto de um bando novo significava que meu nariz estava sobrecarregado. O corredor cheirava a lobos estranhos — suor, colônia e energia agressiva.

— Olha por onde anda, Ômega! — rosnou um cara, batendo o ombro com força no meu quando eu saí do escritório. Ele era alto, magro, tinha o cabelo raspado e um anel de prata atravessando o nariz.

Eu não caí. Minha família já tinha sido de alta patente, e eu tinha treinado duro desde filhote. Mantive minha posição, firmei os pés no chão e encarei de volta.

— Olha você — rebati, ríspida.

Ele pareceu surpreso por uma garota nova não recuar, mas continuou andando.

Olhei pelo corredor e notei que, de repente, estava vazio. Conferi o celular. Merda. A aula está começando agora.

Disparei pelo corredor e virei bruscamente à direita. Um grupo de lobas me viu correndo e riu, cochichando entre si. Eu as ignorei. Diminui para uma caminhada rápida e escorreguei para dentro da sala bem na hora em que o sinal alto tocou.

A sala estava completamente cheia, mas ainda não tinha professor. Ótimo, eu não estava atrasada. Só que, conforme eu caminhava pelo corredor entre as fileiras, todas as carteiras estavam ocupadas. Eu sentia todos os olhares em cima de mim.

— Olha, mais uma vira-lata fraca — um cara resmungou quando passei por ele.

Eu cerrei os punhos, mas continuei andando. Se ao menos eles soubessem quem eu realmente era. Um ano atrás, meu pai era o braço direito do Alfa na nossa antiga Matilha. Eu tinha as melhores roupas, o melhor treinamento, e todo mundo me respeitava. Mas então meu pai traiu o Alfa, roubou do fundo da matilha e fugiu como um covarde.

Nossa antiga Matilha nos tirou tudo. Agora, minha mãe e eu estávamos vivendo num apartamentinho minúsculo, num território perigoso e violento na beira da cidade. Eu nem tinha carro mais.

— Nem pense nisso — rosnou uma voz grave e áspera.

Eu parei. A última fileira tinha apenas duas carteiras. Uma estava vazia, bem ao lado da janela. A outra estava ocupada por um cara que parecia absolutamente enorme.

Ele usava uma camisa preta de hóquei com o logo do lobo da escola e um boné de hóquei puxado para baixo, cobrindo os olhos. Estava recostado na cadeira, com os braços cruzados sobre um peito gigantesco. Não parecia um aluno do ensino médio. Parecia um atleta profissional, ou um guerreiro letal de Matilha. Os ombros dele eram absurdamente largos, e as pernas bloqueavam o corredor inteiro.

— Eu preciso de um lugar — eu disse, mantendo a voz firme e forte.

— Ele senta sozinho — sussurrou uma garota na fileira à minha frente, sem se virar. — Aquele é o Knox. Ele é o capitão do time de hóquei. Não mexe com ele.

O grandalhão — Knox — ergueu a cabeça só o suficiente para eu ver o rosto dele. Minha respiração travou. Os olhos dele eram do azul mais intenso e cortante que eu já tinha visto. Pareciam gelo. Mas o rosto estava preso numa carranca sombria e irritada.

Eu não fugi como a maioria das lobas provavelmente fugia. Endireitei a postura, firmei os ombros e encarei ele bem nos olhos.

— Onde era pra eu sentar? A sala está cheia.

Knox obviamente não se importou. Ele apontou um dedo grosso e cheio de cicatrizes para a frente da sala. Eu olhei e vi uma carteira livre algumas fileiras adiante.

Suspirei. Eu não queria fazer cena no meu primeiro dia. Fui até a carteira vazia, larguei a mochila e me sentei.

No instante em que meu peso atingiu a cadeira, a perna de metal estalou. A carteira desabou, e eu caí com força no chão.

A sala inteira explodiu em gargalhadas altas. Alguns caras começaram a bater palmas e assobiar.

— Bela queda, perdedora! — alguém gritou.

— Ah, é, essa carteira tá quebrada — disse a garota ao meu lado, completamente inútil.

— Obrigada, percebi — resmunguei, me levantando.

Meu rosto queimava de raiva, não de vergonha. Eu não tinha me machucado — metamorfos de lobo se curam rápido e são resistentes —, mas eu estava furiosa. Olhei de volta para a fileira. Knox me observava, com um sorrisinho arrogante no rosto. Ele sabia que a carteira estava quebrada. Tinha me mandado para lá de propósito, para me humilhar.

Peguei minha mochila. Eu não chorei e não abaixei a cabeça. Mantive o queixo erguido e marchei direto de volta para a fileira, parando bem na frente do Knox.

Dessa vez, nem me dei ao trabalho de pedir que ele se mexesse. Agarrei a borda da carteira dele e me preparei para passar por cima das pernas gigantescas dele para alcançar o lugar ao lado da janela.

— Eu disse pra cair fora — Knox retrucou, ríspido. Ele levantou a perna pesada, batendo a bota contra a carteira ao lado para me bloquear como uma parede.

Eu estreitei os olhos e olhei para ele de cima.

— E eu não tô nem aí pro que você disse. Mexe essa perna, garoto do hóquei, ou eu vou mexer por você.

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