Capítulo 5 5
CAPÍTULO 5: FELIX
— Que porra tá acontecendo com você hoje? — Paul gritou. Ele patinou com força até mim, as lâminas do patins de hóquei raspando alto no gelo. — O disco passou voando bem por você. Você nem mexeu o taco.
— Estou cansado — rosnei, apertando meu taco de hóquei com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. — Não dormi nada ontem à noite.
Paul revirou os olhos e suspirou.
— O que seu pai fez agora?
— Não é sobre o meu pai — retruquei, ríspido, com o meu lobo interior pressionando forte contra o peito. — E para de falar mal dele. Ele é o Alfa desta Matilha. Tem um peso enorme nas costas.
Mas, no fundo, eu estava mentindo. Era por causa do meu pai. O Alfa Knox era uma figura aterrorizante e poderosa e, ultimamente, a raiva dele estava fora de controle. Ele estava jogando toda aquela pressão em cima de mim. Queria que eu fosse o herdeiro perfeito, o próximo Alfa, e um assassino letal nas fileiras dos guerreiros da Matilha. Ontem à noite, ficou acordado por horas berrando comigo sobre o meu futuro, exigindo que eu parasse de me concentrar no hóquei e começasse a me concentrar nas linhagens de sangue da Matilha.
Para piorar, minha irmã mais nova, Olive, foi pega tentando sair escondida da nossa casa da matilha depois do toque de recolher. Ela só tem quinze anos, e meu pai quase perdeu a cabeça. Eu tive que me meter e levar a culpa só para protegê-la da fúria dele. Ser o filho do Alfa significava não ter liberdade nenhuma, e manter Olive em segurança estava virando um trabalho em tempo integral.
Paul fez um gesto para eu segui-lo até o banco.
— Vamos. Preciso de água.
Patinamos para fora do gelo, e Paul pegou a garrafa dele. Ele me encarou através do capacete de hóquei.
— Seu pai tá te pressionando demais, Felix. Todo mundo na Matilha vê isso. Você tá com cara de quem quer matar alguém.
— Ele quer que eu seja perfeito — murmurei, cerrando a mandíbula. Eu sentia a energia quente e furiosa do meu lobo subindo pelas minhas veias. — Ele quer que eu seja um monstro no gelo e um rei na Matilha. Eu tenho dezoito anos agora. Era para eu fazer meus testes de Alfa em breve, e ele me lembra disso a cada segundo.
— Que merda, cara — Paul disse, enxugando o suor da testa. — Mas você não pode deixar ele estragar a sua vida. Você já falou com a sua mãe sobre isso?
— Minha mãe obedece a cada palavra dele e viajou na semana passada. E meu pai manda com mão de ferro. Não tem conversa com ele.
— Então, se não é só sobre o seu pai, por que mais você não dormiu? — Paul perguntou. — Você tá ligado demais.
— Tem merda demais acontecendo — eu disse, batendo o taco de hóquei no banco. — Administrar o time de hóquei, proteger a Olive do temperamento do meu pai e lidar com a raiva do meu lobo. É coisa demais para o último ano.
— Manda a Olive para a minha casa por uns dias — Paul ofereceu. — Meus pais são guerreiros de alta patente. Seu pai não vai mexer com eles.
Eu fuzilei Paul com o olhar, minha visão ficando levemente embaçada enquanto meu lobo avançava.
— Eu estou bem, tá? Deixa isso pra lá. Uma noite sem dormir não vai me matar.
— Não, mas fode o seu jogo — Paul resmungou, desviando o olhar. — Os olheiros estão assistindo. Se você jogar como lixo, perde sua chance de virar profissional.
Alguma coisa dentro de mim estalou. A palavra “lixo” acionou o monstro dentro de mim. Antes que eu pudesse pensar, agarrei a frente da camisa de hóquei de Paul e o puxei do chão, trazendo o rosto dele bem para perto do meu.
— Que porra foi essa que você acabou de me dizer? — eu berrei. Minha voz carregava um comando de Alfa sombrio e pesado, que fazia o ar parecer denso.
Paul arfou, mas se obrigou a me encarar. — Felix. Me solta.
— Só quando você tirar isso de volta! — eu gritei. Senti a força aterrorizante do meu lobo tomando conta dos meus braços. Eu queria esmagá-lo contra as placas. Queria quebrar alguma coisa.
Paul não revidou. Continuou calmo. — Eu não posso te ajudar se você não escutar. Você me pediu pra te avisar quando o seu lobo estivesse assumindo o controle. Estou te avisando agora. Tira essas suas mãos da porra de cima de mim, Felix.
Aquelas palavras me atingiram como água gelada. Alguma coisa estalou no meu cérebro e eu o soltei na mesma hora.
Cambaleei para trás, encarando minhas próprias mãos grandes. Um segundo atrás, eu estava praticamente enforcando meu melhor amigo, o filho do Beta, contra a parede. Uma onda de nojo revirou meu estômago. Quem estava controlando meu corpo? Não parecia eu. Paul era meu irmão de armas. Eu nunca ia querer machucá-lo. Então por que eu fiz aquilo?
Paul ajeitou a camisa do uniforme e deu um tapinha no meu ombro. — Tá tudo bem, cara. A gente vai continuar praticando. Você só precisa controlar a fera.
Balancei a cabeça, o peito subindo e descendo enquanto eu tentava acalmar a respiração. — Porra. Desculpa, Paul.
— Relaxa — ele disse, virando-se para encher a garrafa de água no bebedouro.
No ano passado, Paul e eu fizemos um acordo sério. Sempre que minha raiva assumisse o controle e meu sangue de Alfa ficasse perigoso demais, ele tinha que me parar antes que eu fizesse alguma coisa terrível. Fizemos essa promessa depois de uma briga numa festa de uma Matilha rival. Outro lobo tinha insultado minha família, e eu perdi o controle completamente. Quase arranquei a garganta dele com os meus dentes. Eu não queria ter ido tão longe, mas a fúria negra tomou conta, e eu nem sabia o que estava fazendo.
Paul e os outros caras do hóquei tiveram que me arrancar do sujeito à força e me jogar dentro da caminhonete.
Naquela noite, Paul me disse que eu precisava de ajuda de verdade. Eu não tinha como discutir, porque era a verdade. Mas eu me recusei a falar com os anciãos da Matilha ou com algum conselheiro idiota. Eles só iam dizer que meu pai, poderoso e raivoso, era o motivo de o meu próprio lobo ser tão instável. Eu já sabia disso. Mas eu me recusava a usar meu pai como desculpa para ser um monstro. Eu queria ser um líder, não um tirano.
O problema é que Paul nem sempre está por perto. Mas fiz o mesmo acordo com a minha irmã. Se a minha raiva saísse do controle, ela sabia o que fazer. Uma palavra. Pare. Só isso que ela precisava dizer. Nem sempre funciona, mas está começando a funcionar. Quando eu ouço, eu imagino um alarme vermelho piscando, guinchando para eu parar o que quer que eu esteja fazendo e me acalmar pra caralho. Eu escolhi essa palavra para provar a mim mesmo que eu não sou como o meu pai. Essa palavra nunca funcionou com ele. Minha mãe gritava aquilo de novo e de novo e só fazia ele bater nela ainda mais. Ele tirava poder daquela palavra, poder para continuar. Comigo, é o contrário. É a minha palavra-gatilho para me puxar de volta para a realidade, para fora do que quer que tenha me feito perder o controle.
Mas hoje, meu controle estava escapando mais rápido do que o normal. E, sinceramente, não era só meu pai que estava me deixando com raiva.
Minha mente voltou num lampejo para a manhã. Para a minha primeira aula. Para aquela garota nova.
