Capítulo 6 6
CAPÍTULO 6: FELIX
— Você tá bem? — perguntou Paul.
— Tô. — Dei um meio sorriso cansado. — Tô bem. E você tinha razão — eu tô fora de forma. Tenho jogado como um filhote sem treino. É todo esse estresse com a Olive. Meu pai gritou com ela de novo hoje de manhã por causa das notas e do treinamento. Tentei ajudar com a lição de história, mas eu mesmo não consegui entender. Parece que eu tô falhando como irmão mais velho.
— Você não é o pai dela, Felix — disse Paul, apoiando-se no bastão. — Você é o irmão. E, sinceramente, ela tem sorte de ter você. Se você não ficasse entre ela e o Alfa, ela estaria em muito mais encrenca.
Suspirei, esfregando o maxilar dolorido.
— Dei uma tigela de cereal pra ela no jantar ontem à noite porque eu tava cansado demais pra cozinhar depois que meu pai mandou todos os cozinheiros pros alojamentos dos servos. Até os cozinheiros da Matilha tratam ela melhor do que isso.
Paul riu.
— Isso não é nada. Meus pais estavam fora numa patrulha de fronteira semana passada e eu comi barra de proteína por três dias seguidos.
— Não é só a comida — eu disse, olhando para o gelo. — É a pressão. Meu pai quer que ela seja uma guerreira, mas ela só quer ser criança. Eu não vou conseguir protegê-la pra sempre se eu nem consigo colocar minha própria vida em ordem.
— Então arranja alguém pra ajudar ela com a escola — sugeriu Paul.
— Com que tempo? — rosnei. — Meu pai me faz treinar com a guarda de elite toda noite depois do treino de hóquei.
Paul não respondeu. Estava olhando através do vidro da pista de hóquei em direção à rua.
— Aquela é a garota nova?
Meus olhos seguiram o olhar dele. Lá estava ela. A ômega. A garota que sentou a bundinha fofa e teimosa bem em cima da minha mesa hoje de manhã. A garota de olhos ferozes que se recusou a recuar quando eu mandei ela se afastar. A garota que me encurralou nos armários, olhando pra cima pra mim com tanto fogo que, por um segundo, eu realmente quis ceder pra ela.
Eu não cedi, claro. Eu tinha que manter minha reputação. Mas ver ela ficar com raiva despertou meu lobo de um jeito que eu não conseguia explicar. Ela nem era meu tipo — eu geralmente gostava de lobas quietas, que seguiam as regras da Matilha. Mas essa ômega era uma rebelde. Mantinha a cabeça erguida e os ombros para trás, como se fosse ela quem mandava. Agia como se viesse de uma linhagem poderosa, mas por que uma garota assim estaria nessa escola?
— Caramba, ela é durona, eu vi ela descendo do ônibus da matilha hoje — disse Paul.
Ela vinha de ônibus. Por que uma garota com tanto orgulho pegaria um ônibus público imundo?
— Fica longe dela — eu disse, com a voz mais grave do que o normal. — Ela não é nada além de problema.
— Por quê? O que você sabe sobre ela? — perguntou Paul, com um sorriso.
— Eu sei que ela não para até conseguir o que quer. — Observei quando ela parou para arrumar o sapato. Era pequena, mal tinha um metro e cinquenta, mas tinha uma presença que preenchia a rua inteira. Ela se endireitou e prendeu o cabelo comprido num rabo de cavalo alto.
— Espera. — Paul se virou pra mim, os olhos se arregalando. — É a garota da sua história? A que sentou na sua mesa?
Soltei um longo suspiro.
— É. É ela.
Paul caiu na gargalhada.
— Não acredito! Eu achei que isso era só boato. Alguém realmente sentou na mesa do Glaciar?
— Ela não saía — eu disse, a imagem dela sentada ali voltando à minha cabeça. Eu não planejava tocar nela, mas quando ela não se mexeu, minhas mãos simplesmente... assumiram. Tirar ela daquela mesa foi a coisa mais interessante que me aconteceu a semana inteira. A cintura dela parecia pequena e firme sob minhas mãos.
— Ela tem um companheiro ou um namorado? — perguntou Paul, ainda observando.
— Não sei, e não me importa — menti. — Como eu disse, ela é teimosa. Você diz “não” e ela ouve “tenta mais”. Ela é uma dor de cabeça.
— Parece a sua combinação perfeita — provocou Paul, dando um empurrão no meu ombro. — Teimosa e não escuta? Ela é exatamente como você, Felix.
— Cala a boca — rosnei, mas não consegui esconder o leve repuxar no canto da boca.
— Knox! Paul! — gritou o técnico do centro do gelo. — Eu disse que isso aqui era hora de socializar? Voltem pro gol!
Patinamos devagar de volta às nossas posições. A pista estava fria, mas eu me sentia quente por baixo da camisa. Eu não conseguia manter o foco no disco. Eu só pensava na ômega. Quem ela achava que era, entrando na minha Matilha e agindo como se fosse dona do lugar?
Meu pai queria que eu fosse um Alfa. Mas, olhando para aquela garota, eu percebi que talvez finalmente tivesse encontrado alguém que não se curvaria diante de mim. E, pela primeira vez na minha vida, isso não me deixou com raiva — me deixou curioso.
