O marido abandonado na mansão

O grande salão ardia de luz. A Mansão Blackwood sediava uma celebração luxuosa.

Eu estava sob a sombra de um lustre de cristal, num uniforme preto barato, com uma bandeja de prata cheia de taças de champanhe nas mãos.

— Um brinde! Ao Consórcio Blackwood retomar o controle do Porto do Distrito Leste!

No centro da multidão, minha esposa, Elena Blackwood, ergueu a taça. Orgulho e arrogância estavam estampados em seu rosto.

Ela usava um vestido de noite feito sob medida, o braço enlaçado com força ao homem ao seu lado—

Victor Sterling, o principal assessor de segurança da família.

— Tudo isso é graças ao Victor.

Elena elevou a voz para que todos os executivos e socialites da sala pudessem ouvi-la. Não havia como esconder a admiração em seus olhos. — Se ele não tivesse lidado sozinho com os motins no porto e garantido o novo contrato de segurança, a Blackwood teria sido tirada do jogo.

Uma salva de palmas estrondosa explodiu. Victor abaixou a cabeça com falsa humildade, um sorriso presunçoso ainda pendurado no canto da boca.

Eu observei em silêncio, os dedos se apertando em torno da bandeja.

Os motins no Porto do Distrito Leste?

Aquilo não tinha nada a ver com concorrência comercial. Foi uma jogada de sondagem da família mafiosa Moretti, testando as águas antes de engolir por completo as rotas de transporte clandestinas.

E a tal “vitória com as próprias mãos” do Victor não passava de ele pegar carona em parte da rede de segurança do Círculo Aegis que eu havia construído três anos antes.

O que me deixou ainda mais em alerta foi isto—

No meio de absorver os aplausos, Victor olhou por cima da multidão e trocou um olhar rápido com um homem careca parado no canto.

Havia um escorpião preto tatuado no dorso da mão direita do homem.

Aquela marca pertencia a um limpador graduado da família Moretti.

Eu entendi tudo num instante.

Essa celebração era só fachada.

Victor não tinha expulsado a máfia. Ele vendera o controle clandestino do porto aos Moretti em troca de seu novo status de herói e da confiança da família Blackwood.

— Ares, o que você está fazendo parado aí? As taças dos convidados estão vazias.

A voz fria de Elena cortou meus pensamentos.

Ela veio até mim de salto alto, olhando para mim como se eu fosse lixo estragado.

Como marido apenas no papel, meu único valor naquela mansão era ser motorista e garçom sempre que ela estalasse os dedos.

— Ponha a bandeja no chão.

Elena puxou um documento da bolsa Hermès e o bateu contra meu peito. — Assine. No mês que vem é a minha cerimônia de noivado com Victor. Eu não vou deixar o mundo lá fora ver que a herdeira do Consórcio Blackwood ainda tem no histórico um ex-marido inútil sustentado.

Era um acordo de divórcio, com uma renúncia abrindo mão de qualquer reivindicação a uma partilha de bens.

Eu não peguei. Deixei cair no chão e olhei para ela com calma. — O período de confidencialidade judicial de três anos ainda não acabou. Você não consegue esperar mais dois meses?

— Período de confidencialidade? Você está doente da cabeça? — Elena soltou uma risada de deboche, alta o bastante para que vários executivos do consórcio ali perto ouvissem. — Você é só um ex-soldado falido que não conseguiu emprego depois de se aposentar. Para de me encher todo dia com essas historinhas suspeitas de códigos misteriosos. Se o Victor não estivesse te protegendo, você já estaria morto na sarjeta.

Victor se aproximou com um drink na mão e deu um tapinha falso-amigável no meu ombro. — Ares, não torne isso mais difícil para a Elena. Eu sei que o dinheiro anda curto pra você ultimamente. Se você assinar sem fazer escândalo, eu posso te patrocinar pessoalmente com um dinheirinho. O bastante para cobrir as contas do hospital daquela garotinha doente.

No instante em que ele disse isso, meu olhar ficou gelado.

Lily era minha filha.

Ela era a órfã do meu irmão caído, tinha só cinco anos e sofria de um distúrbio sanguíneo grave.

Três anos atrás, para cooperar com uma limpeza federal de uma rede internacional de armas — e para impedir que os jogadores sobreviventes retaliem contra ela — eu não tive escolha a não ser fingir minha morte, enterrar meu nome e me casar com a família Blackwood. Eu vivi de migalhas só para mantê-la em tratamento especializado.

— Não mencione a Lily.

Encarei Victor, a voz baixa e sem emoção, carregando um aviso impossível de confundir.

— Por quê? — Elena franziu a testa, com nojo. — Ares, estou cansada de ver você desperdiçar dinheiro e tempo com esse fardo com o qual você nem tem parentesco. Se eu não precisasse que as pessoas achassem que eu me importo com caridade, por que eu aceitaria adotá-la? Aquela garota, a Lily, é um poço sem fundo. Ela não merece um único recurso dos Blackwood. Assine os papéis, leve essa pequena bagagem com você e suma da minha vida de uma vez por todas.

Uma onda de risadas abafadas se espalhou pelo salão.

Para essas pessoas, eu era um parasita grudado numa família rica enquanto arrastava uma criança doente.

Enterrei a intenção assassina no meu olhar.

Se eu não estivesse esperando a cadeia de custódia das provas federais se encaixar de vez, se eu não estivesse protegendo Lily do que viria depois, Victor e aquele faxineiro dos Moretti já seriam dois corpos no chão.

Então o celular velho no meu bolso começou a vibrar com um zumbido áspero e urgente.

Era a linha de emergência que eu tinha deixado com a unidade de cuidados especiais do Centro Médico St. Jude. Ela só tocava quando algo tinha dado muito, muito errado.

Ignorando o olhar assassino de Elena, puxei o aparelho e atendi na hora.

— Sr. Vance! — uma enfermeira gritou do outro lado. Eu conseguia ouvir, ao fundo, o alarme estridente dos equipamentos médicos. — O coração da Lily acabou de parar! Estamos tentando reanimá-la, mas um grupo de homens de terno preto acabou de aparecer do lado de fora. Eles isolaram o andar da ala e cortaram o acesso ao estoque de sangue de reserva!

— Mantenham os sinais vitais dela estáveis. Eu chego aí em dez minutos.

Desliguei.

A fúria dentro do meu peito rasgou três anos de contenção num único segundo.

A família Moretti tinha feito sua jogada.

Eles não tinham apenas tomado o porto. Estavam limpando o único “ex-funcionário” que ainda podia saber o que realmente aconteceu naquela época.

E Elena e Victor estavam dando a esses assassinos a cobertura perfeita.

— Ares! Quem disse que você podia atender o telefone durante a minha festa? — Elena guinchou, apontando para o documento no chão. — Assine, e depois suma!

Olhei para ela, e não restava nem um traço daquela doçura ensaiada nos meus olhos.

Eu bati a bandeja com força na mesa comprida ao meu lado. A torre de champanhe desabou numa explosão de vidro, e o salão inteiro ficou em silêncio.

— Como você quiser, Elena. O que quer que exista entre nós termina aqui.

Virei-me e marchei em direção às portas da mansão.

O rosto de Victor se fechou. Ele lançou um olhar para os dois seguranças na entrada.

Os dois brutamontes, ambos com bem mais de um metro e oitenta, se moveram ao mesmo tempo e estenderam as mãos para os meus ombros.

— Pare aí mesmo. A Elena disse que você podia sair?

Não diminui o passo. Peguei o pulso do guarda da esquerda com um golpe de costas da mão e torci para baixo com força.

Crac.

O estalo do osso ecoou nítido pelo salão.

O outro guarda puxou o cassetete. Antes que ele pudesse atacar, eu enfiei um chute frontal direto no joelho dele. Ele caiu gritando.

Tudo levou menos de dois segundos.

Toda risada na festa morreu na mesma hora. Todos encararam os dois seguranças de elite no chão como se estivessem me vendo pela primeira vez.

O motorista que passou anos engolindo insultos dentro desta mansão.

Empurrei as pesadas portas de carvalho da mansão. O vento frio da noite e a chuva invadiram o salão cintilante.

— Ares! Se você atravessar essa porta, não espere nunca mais um centavo dos Blackwood! Você vai morrer na rua! — Elena gritou atrás de mim.

Não olhei para trás. Entrei direto na chuva.

Que se dane o período de confidencialidade.

Se eles queriam usar Lily como uma peça a ser varrida do tabuleiro, então eu faria todo o submundo da Costa Leste se lembrar do que significava viver com medo do Círculo Aegis.

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