Contagem regressiva

Eu dirigia o Dodge Charger preto que tinha pegado com o manobrista da mansão, com o pé enterrado no acelerador.

O V8 rugia como uma fera sob a chuva. Passei direto por quatro sinais vermelhos e, no oitavo minuto, joguei o carro de lado até parar, derrapando, do lado de fora da entrada do pronto-socorro do St. Jude Medical Center.

Empurrei a porta corta-fogo no andar da UTI. O ar do corredor estava frio como um freezer.

Nenhum médico. Nenhuma enfermeira.

Só dois homens de sobretudo impermeável preto parados na esquina, ao lado do quarto da Lily.

Eles estavam com os bonés puxados para baixo de propósito, mas a tatuagem de escorpião preto na gola os denunciava.

Faxineiros da família Moretti.

No segundo em que me viram, as mãos deles foram para a parte de trás da cintura.

Eu não diminui. Fui direto para cima deles.

O homem da esquerda mal tinha começado a sacar a Glock quando eu enfiei um chute frontal brutal no joelho dele.

Alguma coisa estalou.

O grito dele nem chegou a sair. Minha mão esquerda travou na garganta dele, e eu arremessei o corpo inteiro contra o parceiro à direita.

Bang!

Eles bateram com força na parede.

Arranquei a Glock 19 do ar e esmaguei a coronha na têmpora do homem da direita.

Osso estalou. Os olhos dele reviraram, e ele caiu.

Tirei os dois carregadores com mãos treinadas, arrastei os dois corpos inconscientes para a saleta de utilidades imunda ao lado do corredor e, então, empurrei a porta da UTI.

Lá dentro, o monitor cardíaco soltava bipes fracos e urgentes.

Lily, de cinco anos, estava deitada na cama do hospital com um ventilador sobre o rosto. A pele dela era tão pálida que quase se confundia com os lençóis.

O médico responsável, Dr. Evans, estava encharcado de suor. No instante em que me viu, pareceu um homem se afogando ao avistar terra.

— Sr. Vance! Graças a Deus o senhor está aqui!

A voz dele tremia. — Dez minutos atrás, vários homens dizendo ser da segurança bloquearam o acesso ao estoque de sangue reserva. Lily entrou em fibrilação ventricular agora há pouco. Conseguimos trazê-la de volta, mas os níveis sanguíneos dela estão despencando. Este hospital não é mais seguro. Ela não aguenta duas horas. Precisamos tirá-la daqui agora. Precisamos de um helicóptero médico para levá-la ao East Coast General.

Olhei para o braço fininho da Lily, coberto de tubos e acessos, e senti o peito travar, como se um torno tivesse se fechado em volta dele.

Ela era o único sangue que meu velho irmão de armas ainda tinha neste mundo. Três anos atrás, eu desapareci e enterrei meu nome para que aqueles traficantes de armas transfronteiriços nunca a encontrassem.

— Preparem-na para o transporte — eu disse friamente, puxando o celular e ligando para Elena.

O consórcio Blackwood era dono da melhor rede privada de emergências médicas da cidade. Bastava uma palavra da Elena, e um helicóptero totalmente equipado estaria na plataforma do terraço em cinco minutos.

O telefone chamou por um bom tempo antes de ela atender. Ao fundo, eu ainda ouvia o jazz da mansão, as risadas, a multidão do champanhe.

— Ares, se você está ligando para pedir desculpas pelo seu comportamento hoje à noite, já é tarde demais — a voz de Elena escorria arrogância. — Você vai assinar os papéis do divórcio amanhã. Eu cansei de deixar você destruir a minha vida.

— Autorize um helicóptero médico de emergência da Blackwood. Agora. Mande pousar no St. Jude. — Eu engoli a raiva e falei rápido. — A Lily precisa ser transferida. O estoque de sangue foi trancado pela máfia. Ela está em estado crítico.

Silêncio por um segundo.

Então Elena riu, fria e zombeteira.

— Ares, você é completamente patético. Para adiar o divórcio, para arrancar de mim o último pagamento, você está usando algum filho bastardo perdido por aí para inventar uma história dessas? A máfia? Isso é o quê, um filme?

— Elena, me escuta. Eu não estou brincando. Autorize o helicóptero. — Cerrei os dentes com tanta força que a mandíbula chegou a doer. Eu fazia de tudo para não atravessar a linha e esmagar a garganta dela.

— Se ela vive ou morre, não tem nada a ver comigo — disse Elena, seca. — E pare de usar esse fardinho para me enojar.

Então o telefone mudou de mãos.

A voz de Victor veio do outro lado. Presunçosa. Asquerosa.

— Escuta aqui, cachorro vira-lata. Cada dólar que a Blackwood tem, inclusive os fundos de remoção médica, agora faz parte dos meus bens conjugais com a Elena. Eu já avisei a equipe de voo e todos os hospitais da nossa rede. Todo o seu acesso como ex-marido está congelado.

Ele fez uma pausa, saboreando.

— Se essa coisinha doente estiver prestes a morrer, use o telefone público do corredor e encomende para ela uma urna baratinha. E não ligue de novo.

Bip. Bip. Bip.

A linha morreu.

Eu encarei a tela desconectada, e o último fiapo de contenção que eu ainda tinha diante daquele casamento falso desapareceu.

Elena tinha cortado com as próprias mãos.

Ela escolheu o impostor e a máfia.

Ótimo.

Eu não precisava mais poupar a reputação da família Blackwood.

Sem expressão, esmaguei o celular na mão e joguei os pedaços no lixo.

Depois me virei para o armário médico de metal pesado, plantei as duas mãos nele e empurrei com força até ele travar, bem justo, contra a porta reforçada.

Em seguida, puxei as persianas e conferi todos os pontos cegos do quarto, todos os ângulos das câmeras, todas as saídas de ar.

— Sr. Vance... o que o senhor está fazendo? — O dr. Evans me encarou, horrorizado, enquanto eu puxava o ferrolho e colocava uma bala na câmara.

— Fique com ela. Aconteça o que acontecer, não interrompa o suporte de vida. — Fui até a cama e ajeitei com cuidado o cobertor de Lily ao redor dela.

Os cílios dela tremeram. Como se sentisse que eu estava ali. A linha tensa entre as sobrancelhas relaxou um pouco.

— Eu estou aqui — eu disse, baixo. — Ninguém vai tirar você de mim.

Lá fora, do fundo do corredor, veio o toque rápido das portas do elevador e o som pesado de botas.

A equipe principal da família Moretti tinha chegado ao andar.

Eles nunca iam mandar só dois homens para me apagar.

Então, sob aquela pressão sufocante, o relógio marcou meia-noite em algum lugar da cidade.

O velho relógio militar preto no meu pulso vibrou de leve.

A tela se acendeu. A contagem regressiva vermelha marcando 00:00:00 piscou três vezes.

Então o visor inteiro ficou de um verde profundo.

Uma linha de texto criptografado rolou por ele:

[Confirmação do sistema federal: lacre judicial de infiltração de três anos expirado.]

[Restrições suspensas.]

[Acesso do fundador do Círculo Aegis restaurado.]

Eu observei aquela luz verde, ergui a pistola devagar e apontei para a porta do quarto de hospital que estava prestes a ser arrombada.

O monstro que ficara em silêncio por três anos finalmente podia romper as próprias correntes.

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