Capítulo 1 1

“E, no meio da noite, existe aquele casal que está sob a lua, vivendo o amor deles escondido de todos.”

Catarina narrando

Era uma bela manhã de domingo e, como todos os dias, eu abria a janela do meu quarto para admirar a beleza do jardim. O sol ainda não estava forte, e uma brisa leve fazia as folhas das árvores se moverem devagar. De onde eu estava, conseguia ver as flores cuidadosamente organizadas, o gramado impecável e parte da fonte que ficava bem no centro do jardim.

Era bonito. Tudo naquela casa era bonito.

Grande, luxuosa, silenciosa e, para mim, extremamente solitária.

Eu não tinha muita coisa para fazer naquela casa, ao contrário dos meus irmãos, que entravam e saíam o tempo todo. Eles tinham reuniões, negócios, compromissos e uma liberdade que eu jamais tive. Enquanto isso, eu passava os meus dias entre aquelas paredes, tentando encontrar alguma forma de ocupar a minha mente.

Eu me sentia sozinha naquela casa e, muitas vezes, na própria vida.

Se não fosse Bruno, tudo aquilo seria muito pior.

Só de pensar nele, um pequeno sorriso surgiu em meus lábios. Era estranho como uma única pessoa podia transformar completamente um dia. Bruno tinha esse poder sobre mim. Bastava vê-lo no jardim, mesmo de longe, para o meu coração bater de uma forma diferente.

Eu ainda conseguia me lembrar perfeitamente do dia em que ele chegou à nossa casa.

Na época, eu não imaginava que aquele homem simples, de sorriso discreto e mãos marcadas pelo trabalho se tornaria o amor da minha vida.

Muito menos que, um ano depois, nós estaríamos escondendo um relacionamento de todos.

Minha mãe faleceu quando eu nasci. Eu nunca tive a oportunidade de conhecê-la ou de conviver com ela. Às vezes, eu tentava imaginar como ela seria. Tentava imaginar sua voz, o jeito como ela sorria ou se teria os mesmos olhos que eu.

Mas não existia nenhuma resposta.

Quem a conheceu dizia que ela sonhava muito comigo, com a sua única filha mulher depois de quatro filhos homens. Diziam que ela esperou por mim durante toda a gravidez e que já tinha preparado um quarto inteiro para a minha chegada.

Mas ela não conseguiu nem me conhecer.

Eu fui criada pelo meu pai, Josué, e pelos meus irmãos Fernando, Lucas, Gabriel e Pedro, o meu irmão mais velho. Cada um deles tinha uma personalidade diferente, mas todos haviam sido criados com os mesmos princípios do nosso pai.

E, no final, isso fazia toda a diferença.

Não fazia muito tempo que nos mudamos para o Brasil. Quatro ou cinco anos, mais ou menos. Às vezes, eu ainda estranhava algumas coisas, principalmente a liberdade das pessoas. Aqui, eu via mulheres da minha idade estudando, trabalhando, viajando e escolhendo com quem queriam se casar.

Escolhendo.

Aquela palavra parecia tão simples, mas, para mim, sempre teve um significado distante.

A gente só se mudou da Arábia para cá porque o meu pai e meus irmãos queriam expandir a empresa da família. Eles fizeram sociedade com um empresário que também tinha vindo para o Brasil com objetivos parecidos.

E, no meio de todos aqueles negócios, contratos e acordos, a minha vida entrou para o jogo.

Eles me prometeram em casamento.

Durante muito tempo, eu nem questionei esse tipo de coisa. Eu fui criada dentro da cultura do nosso país e, para mim, aquilo parecia normal. As mulheres não tinham liberdade para muitas escolhas. Esperava-se que casassem, tivessem filhos e vivessem para o marido e para a família.

Eu achava normal.

Até me mudar para o Brasil.

Até conhecer novos horizontes.

Até perceber que existia outra forma de viver.

E, principalmente, até conhecer Bruno.

Foi então que comecei a desejar algo que nunca imaginei que pudesse ser meu: liberdade.

Eu não queria me casar por obrigação. Não queria dividir a minha vida com um homem que eu mal conhecia apenas porque aquilo seria bom para os negócios da minha família.

Eu queria me casar por amor.

Em menos de duas semanas, eu iria me casar com o sócio do meu pai.

O nome dele era Nicolas.

Eu o tinha visto algumas vezes, sempre de maneira rápida e formal. Nicolas era um homem educado, elegante e extremamente importante para os negócios da minha família. Meu pai falava sobre ele como se estivesse me oferecendo a melhor vida possível.

Mas ninguém perguntava o que eu queria.

Naquela semana, ainda teria um jantar para que nós oficialmente nos conhecêssemos antes do casamento. Eu quase achava engraçado pensar nisso.

Primeiro o casamento era decidido.

Depois, os noivos se conheciam.

Só que eu não queria me casar.

O amor da minha vida era Bruno, o jardineiro que trabalhava na nossa casa havia cerca de dois anos. Havia um ano que mantínhamos nosso relacionamento em segredo.

Um ano de encontros escondidos.

Um ano de olhares trocados durante o jantar, quando ninguém percebia.

Um ano de mensagens apagadas.

Um ano de medo.

Mas também um ano de amor.

Bruno sabia que, se meu pai ou meus irmãos descobrissem sobre nós, tudo poderia mudar. Ele sabia que jamais seria aceito por eles. Não importava o quanto me amasse ou o quanto eu o amasse.

Para a minha família, Bruno era apenas o jardineiro.

E eu era Catarina, a filha que deveria obedecer.

Ouvi algumas batidas na porta e me afastei da janela.

— Catarina — Letícia, a mulher do meu irmão Pedro, falou assim que me viu. — Que bom que você acordou. Precisamos ver seu vestido para usar no seu noivado, lembra?

Eu suspirei.

Como se fosse possível esquecer.

— Sim, não tem como esquecer — falei, desanimada.

Letícia entrou no quarto carregando algumas revistas e o celular nas mãos. Ela parecia animada, como se aquele noivado fosse um acontecimento feliz para mim.

Talvez, em algum momento, ela realmente acreditasse que fosse.

— Precisamos decidir tudo hoje — ela continuou. — O vestido, os acessórios e o penteado. Seu pai quer que esteja tudo perfeito.

É claro que ele queria.

Para meu pai, as aparências sempre foram importantes.

— Eu não estou com vontade de escolher vestido nenhum.

Letícia parou por alguns segundos e me observou.

— Catarina, você precisa tentar se animar.

— Eu vou me casar com um homem que praticamente não conheço. Acho que tenho o direito de não estar animada.

Ela colocou as revistas sobre a cama e cruzou os braços.

— Nicolas é um homem muito importante. Sua família gosta dele, seu pai confia nele. Vocês vão se dar muito bem.

— Mas eu não amo ele.

As palavras saíram antes que eu pudesse impedir.

Letícia ficou em silêncio por alguns segundos.

Então, respondeu:

— Amor não é tudo nessa vida.

Eu a encarei, mas não disse nada.

A minha vontade era dizer que era exatamente por pensar daquela forma que ela vivia um casamento falido com o meu irmão. Mas eu me calei.

Eu sabia que a história de Letícia não era tão diferente da minha.

O casamento dela com Pedro também havia sido arranjado. Meu irmão só se casou com ela por causa da fortuna que os pais dela deram como dote. Pedro nunca fez questão de esconder seus verdadeiros sentimentos.

Ou, melhor dizendo, a falta deles.

Ele sempre deixou claro que nunca amou Letícia e jamais a amaria.

Eu via isso nos pequenos detalhes.

Na maneira fria como ele falava com ela.

No jeito como nunca segurava sua mão.

Na distância que existia entre os dois, mesmo quando estavam sentados lado a lado.

Letícia tentava fingir que estava tudo bem, mas eu sabia que não estava.

Talvez fosse por isso que ela dizia que o amor não era tudo.

Talvez fosse mais fácil acreditar nisso do que admitir que tinha passado a vida inteira esperando por um sentimento que nunca chegaria.

— Você ainda é muito jovem, Catarina — ela disse, quebrando o silêncio. — Com o tempo, você pode aprender a gostar dele.

— E se eu não gostar?

— Você aprende a conviver.

Aquelas palavras me causaram um aperto no peito.

Aprender a conviver.

Era isso que me esperava?

Passar o resto da minha vida ao lado de Nicolas, fingindo que estava feliz, enquanto Bruno se tornava apenas uma lembrança?

Não.

Eu não conseguia aceitar aquilo.

Depois que Letícia saiu do quarto, fiquei alguns minutos sentada na cama, olhando para as revistas que ela havia deixado. Mulheres sorridentes usavam vestidos brancos, cercadas por flores e luzes. Todas pareciam felizes.

Eu me perguntava se alguma delas também havia chorado antes de vestir o vestido.

Se alguma delas também tinha amado outra pessoa.

Meu olhar voltou para a janela.

Lá embaixo, no jardim, Bruno trabalhava entre as flores.

Meu coração acelerou imediatamente.

Ele ergueu o rosto como se sentisse que estava sendo observado. Por alguns segundos, nossos olhares se encontraram.

Eu sorri.

Ele também.

Um sorriso pequeno e discreto, que ninguém mais perceberia.

Mas, para mim, significava tudo.

Eu levei a mão ao peito, sentindo meu coração bater cada vez mais forte.

Faltavam menos de duas semanas para o meu casamento.

Menos de duas semanas para que tentassem decidir o resto da minha vida.

Mas, naquele momento, olhando para Bruno no jardim, eu tive certeza de uma coisa.

Eu o amava.

E, por mais que todos tentassem me convencer de que o amor não era tudo, eu sabia que não conseguiria viver fingindo que ele não existia.

Meu irmão era uma pessoa amarga e muito mais agressivo que o meu pai.

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