Capítulo 2 2

“A pior solidão é a da pessoa que não ama.”

Catarina narrando

Eu sempre fui apaixonada por livros desde pequena. Talvez porque, dentro deles, eu encontrasse a liberdade que nunca tive na vida real.

Sempre gostei de ler romances, principalmente aqueles bem clichês, cheios de encontros inesperados, declarações de amor e finais felizes. Eu sabia que muitas pessoas achavam aquelas histórias previsíveis, mas, para mim, elas eram especiais.

Eu me imaginava em cada uma daquelas histórias.

Fechava os olhos e me via como a personagem principal, vivendo um conto de fadas ao lado do meu príncipe encantado. Imaginava como seria amar alguém sem precisar esconder, poder sair de mãos dadas, sorrir sem medo e escolher com quem dividir a minha vida.

Nos livros, as mulheres tinham voz.

Podiam dizer não.

Podiam escolher.

Podiam fugir quando não queriam ficar e lutar quando encontravam alguém que realmente amavam.

Eu sempre achei que, algum dia, encontraria o meu próprio conto de fadas.

E então Bruno apareceu.

Ele não era um príncipe, não tinha um castelo e muito menos uma vida cercada de luxo. Mas, quando estava ao lado dele, eu sentia algo que nunca havia sentido com mais ninguém.

Paz.

Era tão difícil aceitar que o destino pudesse cruzar o nosso caminho apenas para depois tentar nos separar.

Eu não tinha voz dentro daquela casa e muito menos poderia decidir o que queria para a minha própria vida. Meu pai sempre dizia que tudo o que fazia era para o bem da família, e meus irmãos repetiam as palavras dele como se fossem uma verdade absoluta.

Mas e o meu bem?

Alguém já tinha parado para pensar no que eu queria?

A resposta era simples.

Não.

Saí da casa tentando parecer tranquila e caminhei até a estufa. Aquele lugar tinha se tornado o nosso esconderijo. Entre flores, plantas e o cheiro da terra molhada, eu conseguia esquecer, pelo menos por alguns minutos, quem eu era.

Lá, eu não era a filha de Josué.

Não era a irmã de quatro homens que controlavam cada passo que eu dava.

Não era a mulher prometida a um homem que não amava.

Ali, eu era apenas Catarina.

E era amada.

— Catarina — Bruno falou assim que entrei na estufa.

Meu coração imediatamente se acalmou ao ouvir a sua voz.

— Bruno — sorri para ele. — As flores estão lindas hoje.

Aproximei-me devagar, observando os vasos ao nosso redor. Bruno tinha cuidado de cada detalhe daquele lugar, e isso era algo que eu admirava nele. Ele conseguia dar vida até às coisas mais simples.

— Acredito que elas não são tão lindas como você, meu amor — ele disse, aproximando-se e me beijando.

Sorri contra seus lábios antes de aprofundar o beijo.

Era sempre assim.

Quando Bruno me beijava, o mundo parecia desaparecer. Por alguns segundos, eu esquecia Nicolas, meu pai, meus irmãos e o casamento que se aproximava cada vez mais.

Esquecia o medo.

— Eu estava com saudade dos seus beijos, Bruno — murmurei quando nos afastamos.

Ele sorriu e passou a mão delicadamente pelo meu cabelo.

— Eu também estava com saudade de você.

Aquele olhar.

Eu nunca soube explicar o que sentia quando ele me olhava daquela maneira. Era como se, para ele, eu realmente fosse importante. Como se não existisse mais ninguém ao nosso redor.

Mas a realidade sempre encontrava uma forma de voltar.

Bruno ficou sério de repente.

— Fiquei sabendo que o seu noivo vem jantar amanhã aqui.

Suspirei.

Até aquele assunto parecia nos perseguir.

— Talvez hoje. Eu ainda não sei ao certo — falei. — Mas eu não quero me casar com ele. Eu quero ficar com você. Eu até pensei em falar com meu pai, mas ele não aceitaria. E tenho medo de que ele possa fazer alguma coisa contra você.

Bruno me encarou em silêncio.

Eu sabia que ele também tinha medo.

Meu pai não era um homem que aceitava ser contrariado. E Pedro, meu irmão mais velho, era ainda pior. Bruno conhecia a minha família há tempo suficiente para saber que não seriam apenas algumas palavras de desaprovação.

— Você não deveria aceitar isso — Bruno disse, por fim.

Baixei os olhos.

Era fácil dizer aquilo.

Difícil era enfrentar as consequências.

— É a nossa cultura, Bruno. Eu fui criada assim. Meu pai espera isso de mim. Não posso decepcionar ele e os meus irmãos.

— Decepcionar?

Ele repetiu a palavra como se ela não fizesse sentido.

Então segurou delicadamente as minhas mãos.

— Você não quer decepcionar eles, mas vai se entregar para uma vida que você não quer. Catarina, dentro de você existem sonhos. Não deixe eles morrerem.

Senti meus olhos se encherem de lágrimas.

Eu tinha sonhos.

Tinha tantos.

Mas parecia que, naquela casa, todos eles precisavam morrer para que os sonhos dos outros sobrevivessem.

— Eu não sei o que fazer, Bruno. Eu amo você e não ele.

— Então não se case com ele.

— Não é tão simples.

— Pode ser.

Balancei a cabeça.

— Você não entende.

— Eu entendo mais do que você imagina.

Ele se aproximou ainda mais.

— Foge, Catarina. Você pode fugir comigo. A gente vai para longe.

Por alguns segundos, aquela ideia pareceu perfeita.

Eu me imaginei entrando em um carro ao lado dele. Sem destino, sem ninguém dizendo o que fazer. Apenas nós dois.

Eu poderia ser livre.

Poderíamos construir uma vida juntos.

Mas então o medo falou mais alto.

Meu pai me encontraria.

Pedro também.

E eu sabia exatamente do que eles eram capazes.

Antes que eu pudesse responder, ouvi uma voz atrás de mim.

— Catarina.

Meu corpo inteiro ficou tenso.

Pedro entrou na estufa e se aproximou de nós.

— É melhor você se arrumar. Achei que você até já estaria pronta.

Eu o encarei, enquanto ele olhava diretamente para Bruno.

Pedro sempre teve aquele olhar frio. Era como se ninguém pudesse saber o que realmente estava pensando.

— Algum motivo especial? — perguntei, tentando parecer tranquila, sob o olhar atento de Bruno.

— Nicolas vai vir jantar aqui hoje — ele disse, sério. — É melhor você não ficar tanto aqui na estufa agora que está noiva.

Meu estômago se revirou.

Então era hoje.

— Eu já estou subindo. Vim pegar apenas alguns girassóis para enfeitar meu quarto. Bruno está colhendo.

Pedro continuou nos encarando por mais alguns segundos.

Eu tive medo de que ele tivesse percebido alguma coisa.

— Então ande rápido — ele ordenou antes de sair.

Esperei alguns segundos depois que ele desapareceu.

Meu coração ainda batia acelerado.

Bruno se aproximou novamente.

— Você pode fugir comigo — ele disse. — Por favor, vamos ficar juntos.

Olhei para ele e senti uma vontade imensa de dizer sim.

Era só isso que eu precisava fazer.

Dizer sim.

— Meu pai me acharia e ainda te mataria. Você sabe o que acontece.

Bruno segurou meu rosto entre as mãos.

— Eu corro esse risco por você, meu amor. Eu corro.

As lágrimas que eu tentava segurar finalmente escaparam.

Eu o abracei com força.

— Eu amo você.

— Eu também amo você, Catarina.

Ficamos abraçados por alguns segundos, como se nenhum de nós quisesse soltar o outro.

Eu queria guardar aquele momento para sempre.

Porque, naquele instante, não existia casamento.

Não existia Nicolas.

Não existia família.

Só existíamos nós dois.

Mas eu sabia que precisava ir.

— Eu preciso me arrumar. Amanhã a gente se vê aqui.

Ele apenas assentiu com a cabeça.

Havia tristeza em seu olhar, mas também esperança.

Eu saí de dentro da estufa e fui em direção à casa. Meu coração estava apertado e eu me sentia dividida entre fugir e viver com o grande amor da minha vida ou aceitar um casamento sem amor para salvar a minha família das dívidas.

Aquela era a verdade que ninguém fazia questão de dizer.

A minha família precisava daquele casamento.

Precisava da sociedade.

Precisava do dinheiro.

E eu era parte do acordo.

Quando entrei no meu quarto, encontrei Letícia segurando um vestido.

— Você está animada? — ela perguntou. — Ainda não é um jantar de noivado, apenas um jantar para vocês se conhecerem.

Soltei uma risada sem humor.

— Eu já conheci ele, você esqueceu? Eu sei quem é o Nicolas e eu não gosto dele.

Letícia colocou o vestido sobre a cama.

— Você está tirando conclusões precipitadas. Nicolas é um homem bonito. Qualquer mulher iria querer ficar ao lado dele.

Ergui uma sobrancelha.

— Até você?

O rosto dela mudou imediatamente.

— Não diga isso, Catarina. Sou casada com seu irmão.

— Mas você o ama?

Ela não respondeu.

Eu continuei.

— Ele não ama você, Letícia. Ele vive pela rua com outras mulheres.

— Chega, Catarina.

— Por quê? Porque é verdade?

Letícia respirou fundo e desviou o olhar.

— Eu não tive escolhas, e você sabe disso.

Foi naquele momento que percebi a tristeza em seus olhos.

Por um instante, senti pena dela.

Nós duas estávamos presas de formas diferentes.

Mas eu não queria terminar como ela.

— E você quer que eu me case com aquele homem feliz? Não tem como. Nicolas é o pior marido que eu poderia ter para mim. Olha tudo o que dizem dele por aí.

— Você precisa se manter calma. O destino da nossa família está nas suas mãos.

Aquela frase fez toda a minha tristeza se transformar em raiva.

Claro.

Sempre a família.

Sempre os negócios.

Sempre o dinheiro.

E eu?

— Foi meu irmão que mandou você vir falar comigo?

Letícia me encarou.

O silêncio dela respondeu.

— Estou cansada disso.

— Catarina...

— Você não é minha amiga, Letícia. Sai daqui.

— Catarina.

— Sai, Letícia.

Ela me observou por alguns segundos.

— Tudo bem.

Ela disse, saindo do quarto.

Assim que a porta se fechou, fiquei completamente sozinha.

Letícia era mandada pelo meu irmão. Ela usava as palavras que ele queria o tempo todo.

Eu não tinha como contar com ninguém.

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