Capítulo 4 4
Todo encontro tem um propósito.
Catarina narrando
Não tinha sido dito nada naquela sala desde o momento em que eu havia colocado os pés ali. Eram alguns minutos de puro silêncio, um silêncio tão desconfortável que eu conseguia sentir o peso de cada olhar sobre mim.
Eu sabia exatamente o que todos estavam esperando.
Que eu sorrisse.
Que eu fosse educada.
Que demonstrasse felicidade.
Que me comportasse como a filha perfeita que sempre fui ensinada a ser.
Mas, por dentro, eu estava completamente diferente.
Meu coração ainda estava acelerado desde o momento em que havia descido as escadas e encontrado Nicolas esperando por mim.
Eu não sabia absolutamente nada sobre aquele homem.
Não sabia o que ele gostava, o que pensava, como tratava as pessoas quando ninguém estava olhando.
E, mesmo assim, dentro de poucos dias, ele seria meu marido.
— Como vai, Catarina? — Nicolas quebra o silêncio daquele encontro.
Olho para ele por alguns segundos antes de responder.
— Tudo bem. E você? — respondo com um leve sorriso no rosto.
— Tudo bem. Essa aqui é Eugênia, minha mãe.
Volto meu olhar para a mulher ao lado dele.
Ela tinha uma expressão tranquila e parecia muito mais receptiva do que todos os outros naquela sala.
— Um prazer conhecer a senhora, dona Eugênia.
— O prazer é todo meu. Você é ainda mais bonita, Catarina, do que Nicolas tinha dito.
Ela sorri.
Aquelas palavras fazem com que eu sorria de volta, embora ainda estivesse desconfortável com toda aquela situação.
Meu pai me olhava o tempo inteiro, esperando que eu me comportasse exatamente como sempre fui instruída a me comportar.
Era como se aquilo fosse uma cena de novela e eu tivesse recebido um roteiro que precisava seguir palavra por palavra.
Eu não podia demonstrar raiva.
Não podia demonstrar medo.
Não podia questionar nada.
Precisava apenas sorrir e aceitar.
— Vamos sentar — meu pai quebra o silêncio. — Então, Nicolas, estou feliz em receber você aqui hoje. Eu e Pedro fizemos alguns relatórios e depois gostaríamos de te mostrar.
— Pai — Pedro fala, interrompendo-o. — Vamos deixar os negócios para outro dia.
— Pedro tem razão — Lucas concorda com ele.
Meu pai parece contrariado por alguns segundos, mas logo muda de expressão.
— Então vamos falar de coisas boas.
Todos vão em direção à sala e se sentam.
Eu faço o mesmo, escolhendo um lugar ao lado de Eugênia. Nós duas éramos as únicas mulheres naquela sala, enquanto os homens conversavam entre si sobre assuntos que pareciam não ter nada a ver comigo.
Ou talvez tivessem tudo a ver comigo.
Afinal, eu era o motivo daquele encontro.
O acordo envolvia o meu casamento.
Minha vida.
Meu futuro.
E, ainda assim, parecia que eu era a única pessoa naquela sala que não tinha direito de decidir nada.
— Por que não vamos lá fora? — Eugênia pergunta.
Olho para ela e sorrio.
— Claro.
Nós duas nos levantamos e seguimos em direção à sacada da sala.
Nossa casa tinha uma estrutura diferente. Na parte de baixo havia apenas o estacionamento, enquanto no andar de cima começavam a sala e a cozinha. No terceiro andar ficavam os quartos.
A casa era linda.
Meu pai havia mandado construir tudo daquela maneira, cuidando de cada detalhe para que nossa família tivesse uma residência que representasse aquilo que ele acreditava que éramos.
Uma família poderosa.
Uma família rica.
Uma família respeitada.
Pelo menos era isso que parecia para quem olhava de fora.
Porque, naquele momento, eu sabia que tudo estava desmoronando.
— Você tem quantos anos? — a mãe dele pergunta antes mesmo de chegarmos lá fora.
— Dezoito anos — respondo, sorrindo para ela.
Ela me observa por alguns segundos.
— Nova ainda. Mas eu entendo que o casamento é necessário nesse momento para a sua família.
Paro de caminhar.
Aquelas palavras me fazem franzir a testa.
— Nesse momento para a minha família? Desculpa, mas acho que não entendi.
Eugênia respira fundo.
Ela parecia escolher cuidadosamente as palavras que usaria.
— Os negócios. Você deve saber que a sua família está falida. Seus irmãos estão devendo dinheiro para todos os bancos. Mais um pouco, vocês perdem até a casa.
Meu sorriso desaparece.
Eu sabia que a situação financeira da minha família não era boa.
Sabia que meus irmãos estavam tentando resolver alguns problemas e que meu pai passava cada vez mais tempo trancado no escritório.
Mas não imaginava que tudo estivesse naquele nível.
— Eu imaginava que a situação era ruim, mas não a esse ponto.
— Eu sei que tudo isso te assusta — ela diz com sinceridade. — Eu também fui obrigada a casar com alguém que eu nunca vi na vida. A sensação é horrível.
Olho para ela com mais atenção.
Pela primeira vez desde que cheguei àquela sala, senti que alguém realmente entendia o que eu estava sentindo.
— Você conseguiu amar ele depois?
Ela baixa os olhos por alguns segundos.
— Infelizmente, não. Mas tivemos três filhos lindos: Nicolas, Emanuel e Sofia.
Ela sorri ao falar dos filhos.
— Sofia está estudando fora, mas logo você vai conhecer ela. Ela vem para o casamento de vocês.
Aquelas palavras me fazem lembrar novamente da realidade.
O casamento.
Duas semanas.
Era tudo o que eu tinha.
Duas semanas para aceitar que minha vida mudaria completamente.
— E o seu marido está onde?
O sorriso dela desaparece por um instante.
— Ele faleceu há dois anos.
Meu coração aperta.
— Eu sinto muito.
Ela apenas balança a cabeça.
— Sem problemas.
Ficamos alguns segundos em silêncio.
Eu não sabia exatamente o que dizer depois daquilo.
Talvez não houvesse nada que pudesse ser dito.
— Vocês estão aí?
A voz de Nicolas soa atrás de nós.
Nós duas nos viramos e o encaramos.
Ele estava parado na entrada da sacada, com as mãos nos bolsos e os olhos direcionados para mim.
— Mãe, será que posso falar com a Catarina?
Eugênia olha para mim e depois para o filho.
— Claro. Vou deixar vocês sozinhos.
Ela me olha e sorri.
— Espero vocês lá dentro.
Acompanho Eugênia com os olhos enquanto ela entra novamente na sala.
Respiro fundo.
Quando percebo que estamos sozinhos, me viro para Nicolas e o encaro.
Ele permanece em silêncio por alguns segundos.
— Uma pena que vamos ter pouco tempo para nos conhecer até o casamento.
— São apenas duas semanas. Ou melhor, nem isso.
Ele sorri de leve.
— Apenas duas semanas?
Cruzo os braços.
— Sim. Não é pouco tempo para decidir passar o resto da vida com alguém?
Ele dá um pequeno passo na minha direção.
— A gente vai ter a vida toda para se conhecer, Catarina.
Ele diz aquilo me olhando diretamente nos olhos.
Por algum motivo, aquelas palavras me incomodam ainda mais.
Talvez porque ele falasse com tanta certeza sobre o nosso futuro, como se já soubesse que nada poderia mudar.
Como se o casamento já estivesse decidido.
Como se eu não tivesse escolha.
Ele tenta se aproximar novamente de mim, mas imediatamente dou alguns passos para trás.
Não queria que ele chegasse perto demais.
Não ainda.
Nicolas para.
Seu olhar permanece preso ao meu.
E, naquele instante, percebo que talvez aquelas duas semanas não fossem apenas o tempo que eu tinha para me preparar para um casamento.
Talvez fossem o começo de algo que nenhum de nós ainda conseguia compreender.
Porque, às vezes, algumas pessoas entram em nossas vidas sem que tenhamos escolhido encontrá-las.
E talvez todo encontro realmente tenha um propósito.
