Capítulo 5 5
"O fato de ser mulher faz os homens acharem que podem enganar e mandar à hora que quiser."
Catarina narrando
— Não precisa fugir, Catarina — ele diz quando percebe que eu me afasto.
Paro por alguns segundos, mas não me viro imediatamente. Eu não queria discutir com ele, muito menos ficar sozinha naquele lugar. Porém, também não suportava a maneira como Nicolas falava comigo, como se já tivesse algum tipo de direito sobre mim.
Finalmente me viro.
— Eu não gosto de você, Nicolas. Não adianta tentar forçar uma amizade ou tentar ser um homem que você não é. Eu estou casando com você pela minha cultura, pelo meu pai, pelos meus irmãos e pela nossa situação. Não porque eu quero.
Ele me encara em silêncio por alguns segundos.
— O que você acha que eu sou? Já que você diz com tanta firmeza que eu estou forçando ser algo que eu não sou.
Dou uma pequena risada, sem humor.
— Você sabe muito bem quem você é. Um homem sem caráter, sem escrúpulos. Você, de longe, seria o último homem que eu escolheria para me casar.
Ele parece não se importar com as minhas palavras.
Na verdade, seu olhar continua tranquilo, como se aquilo não fosse suficiente para abalá-lo.
— Só que vamos nos casar, Catarina. Ter lindos filhos e formar uma família feliz. Você querendo ou não, você será minha mulher.
Sinto meu sangue ferver.
A maneira como ele dizia aquilo me incomodava mais do que qualquer ameaça.
Não era apenas o fato de ele acreditar que o casamento aconteceria.
Era a certeza com que falava sobre mim.
Como se meu futuro já estivesse decidido.
Como se meus desejos não importassem.
Como se, por ser mulher, eu simplesmente tivesse que aceitar.
— Jamais formarei uma família com você. Eu vou me casar com você com a esperança de que um dia eu consiga me livrar.
Pela primeira vez, o sorriso dele desaparece.
Nicolas dá um passo na minha direção.
— Então você vai ter que me matar. Só assim para se livrar de mim.
Meu coração dispara.
Eu o encaro por alguns segundos, tentando entender se aquilo havia sido uma ameaça, uma provocação ou apenas a maneira doentia que ele tinha de falar sobre o nosso futuro.
Antes que eu pudesse responder, escuto uma voz conhecida.
— Catarina, Nicolas!
Meu pai entra chamando por nós.
Nós dois olhamos para ele.
— Vocês já conversaram?
Nicolas muda completamente a expressão.
É impressionante como ele consegue fazer isso.
Há poucos segundos, estávamos discutindo, mas agora ele parecia perfeitamente tranquilo.
— Já sim, Josué — Nicolas fala olhando para ele. — Eu e sua filha vamos nos dar muito bem. Já podemos entrar para que eu possa fazer o pedido do noivado.
Olho para ele incrédula.
Ele realmente tinha coragem de mentir daquela maneira?
Na minha frente, dizia que eu seria sua mulher querendo ou não.
Na frente do meu pai, agia como se estivéssemos começando um relacionamento perfeito.
Era exatamente disso que eu estava falando.
Homens como ele acreditavam que podiam dizer e fazer qualquer coisa porque sabiam que, no final, ninguém questionaria.
Eu não digo absolutamente nada.
Passo por eles e vou em direção ao banheiro.
Fecho a porta atrás de mim e finalmente consigo respirar.
Encosto as mãos na pia e olho para o meu reflexo no espelho.
Meus olhos estavam cheios de lágrimas.
Eu não queria chorar.
Não queria permitir que Nicolas conseguisse me fazer sentir daquela maneira.
Mas as lágrimas começam a descer pelo meu rosto mesmo assim.
Eu as limpo rapidamente com as mãos.
— Você não vai chorar por causa dele — murmuro para mim mesma.
Respiro fundo algumas vezes, ajeito o cabelo e lavo o rosto.
Eu precisava voltar para aquela sala.
Precisava continuar fingindo.
Quando saio do banheiro, encontro Letícia parada no corredor.
— Letícia resolveu aparecer — falo assim que saio e encontro ela.
Ela me olha com uma expressão desconfortável.
— Seu irmão agora me chamou para ir.
Franzo a testa.
— Por que você não podia ir antes?
— Não. Ele pediu que eu ficasse no quarto.
Olho para ela por alguns segundos.
Aquela resposta me incomoda ainda mais.
— É isso que eu não quero. Ser mandada.
Letícia se aproxima de mim e segura delicadamente meu braço.
— Catarina, não faça uma loucura.
Respiro fundo.
Talvez ela tivesse razão.
Talvez eu estivesse pensando em fazer coisas que poderiam piorar ainda mais aquela situação.
Mas, naquele momento, tudo o que eu queria era ter o direito de escolher.
Escolher onde ir.
Escolher com quem ficar.
Escolher quem amar.
Escolher o meu próprio futuro.
Por que aquilo parecia ser tão difícil?
Por que simplesmente ser mulher fazia tantos homens acreditarem que tinham o direito de decidir por nós?
Olho para Letícia e suspiro.
— Vamos.
Nós duas voltamos juntas para a sala.
E, enquanto caminho pelo corredor, uma certeza começa a crescer dentro de mim.
Eu poderia até ser obrigada a entrar naquele casamento.
Poderiam escolher o homem com quem eu me casaria.
Poderiam decidir a data, a cerimônia e até mesmo o que eu deveria vestir.
Mas, enquanto ainda houvesse uma parte de mim que pudesse lutar, eu não permitiria que decidissem quem eu deveria ser.
