Capítulo 6 6

"O casamento não é uma instituição falida, o contrato é que é."

Catarina narrando

Eu não entendia como uma empresa que sempre havia sido tão rica, tão respeitada e administrada com tanta firmeza pelas mãos do meu pai e dos meus quatro irmãos havia conseguido chegar àquele ponto.

Durante toda a minha vida, eu havia crescido ouvindo que nossa família era poderosa. Que nosso sobrenome abria portas. Que nossa empresa era uma das maiores e mais importantes da região. Meu pai sempre fez questão de mostrar que nada nos faltava e que, independentemente do problema, ele tinha dinheiro e influência suficientes para resolver.

Mas agora tudo parecia diferente.

As contas estavam acumuladas.

Os bancos estavam cobrando.

Os funcionários estavam preocupados.

Meus irmãos passavam cada vez mais tempo fora de casa, tentando encontrar uma solução para um problema que parecia crescer todos os dias.

E, naquela noite, Fernando e Gabriel sequer haviam aparecido em casa.

Aquilo me incomodava.

Eu queria saber o que estava acontecendo.

Queria entender por que todos pareciam tão desesperados para que eu aceitasse aquele casamento.

Mas ninguém me explicava nada.

Todos apenas repetiam que era necessário.

Que era a única solução.

Que eu precisava pensar na minha família.

Como se eu não fizesse parte dela.

Como se a minha vida pudesse ser usada como moeda de troca para salvar uma empresa.

Olho ao redor da sala.

Algumas pessoas conversavam baixo, enquanto meu pai parecia completamente satisfeito com a situação.

Então Nicolas se aproxima de mim.

Meu coração aperta imediatamente.

Eu já sabia que alguma coisa estava prestes a acontecer.

— Catarina, essa noite eu quero pedir a sua mão em casamento — Nicolas fala, mostrando a caixinha da aliança.

Meu olhar vai diretamente para a pequena caixa em suas mãos.

Por alguns segundos, fico sem reação.

Ele realmente faria aquilo ali, diante de todos.

— Quero pedir ao seu pai, Josué, se ele concede a sua mão.

Meu pai sequer pensa antes de responder.

— É claro que sim.

Ele responde como uma criança boba que acabara de ganhar o presente que sempre quis.

Eu olho para ele e sinto uma mistura de raiva e tristeza.

Nem sequer perguntaram se eu queria.

Ninguém perguntou o que eu estava sentindo.

A decisão já havia sido tomada.

— Você aceita ser minha noiva, Catarina? — Nicolas pergunta me olhando.

Eu encaro seus olhos.

Havia tanta certeza naquele olhar que me dava vontade de gritar.

Ele sabia que eu não tinha escolha.

Sabia que aquele casamento estava sendo usado para salvar a minha família.

Sabia que eu não o amava.

E ainda assim estava ali, esperando que eu dissesse sim.

— Aceito.

Minha voz sai baixa.

Não mostro sequer um sorriso no rosto.

Eu não era obrigada a sorrir para ele.

Não era obrigada a fingir felicidade por estar sendo entregue a um homem que eu não havia escolhido.

Nicolas abre a pequena caixa e retira a aliança.

Pega minha mão e coloca o anel em meu dedo.

Olho para aquela joia por alguns segundos.

Era bonita.

Mas, para mim, parecia uma corrente.

Uma corrente delicada, brilhante e cara, mas ainda assim uma corrente.

Nicolas se aproxima de mim e deixa um beijo na minha testa.

Os poucos que estavam presentes começam a aplaudir.

Meu pai e meu irmão Pedro tinham um sorriso estampado no rosto, como se estivessem ganhando na loteria.

Talvez, para eles, estivessem mesmo.

A empresa poderia ser salva.

As dívidas poderiam ser pagas.

A nossa casa continuaria sendo nossa.

E tudo isso graças a mim.

Graças ao meu casamento.

Graças à minha liberdade.

Lucas não tinha o mesmo sorriso no rosto, mas também não estava triste.

Ele apenas observava tudo em silêncio.

Eu sabia que ele estava dividido.

Sabia que queria me proteger, mas também sabia que não tinha conseguido impedir aquilo.

— Vou ficar feliz quando você vier morar em nossa casa — Eugênia fala, aproximando-se de mim. — Me sinto tão sozinha.

Olho para ela.

Apesar de tudo, eu conseguia enxergar uma certa sinceridade em suas palavras.

Talvez ela realmente estivesse feliz por ter alguém com quem conversar.

Talvez realmente quisesse uma companhia.

Mas eu não conseguia pensar naquilo naquele momento.

— Eu que vou ficar sozinha — Letícia fala.

Olho para ela.

Ela parecia triste com a ideia de me perder.

Talvez fosse a única pessoa naquela casa que realmente estivesse pensando em mim naquele momento.

— Irei vir visitar você sempre — falo para Letícia.

As duas se encaram.

— Eu espero que sim — Letícia fala sorrindo.

Logo Pedro faz um sinal para ela, chamando-a para perto.

Letícia caminha em direção a ele.

Eugênia também se afasta, indo em direção ao filho, que estava conversando com meu pai e Pedro.

Eu aproveito aquele momento para me aproximar de Lucas.

Preciso saber a verdade.

Preciso saber onde estavam meus outros irmãos.

— Aonde estão Gabriel e Fernando?

Lucas me encara.

— Estão trabalhando.

Franzo a testa.

— A essas horas, Lucas?

Ele desvia o olhar.

— Você não entenderia, Catarina.

Sinto a raiva crescer dentro de mim.

Era sempre aquela resposta.

Eu não entenderia.

Eu era mulher.

Eu era jovem.

Eu não entendia de negócios.

Eu não precisava saber.

Eu apenas precisava obedecer.

— Eu tenho raiva da forma que tudo funciona. Eu não vou aceitar isso. Não mesmo.

Lucas olha para mim com preocupação.

— Catarina, não faça nada de que você vá se arrepender depois.

Dou uma pequena risada, completamente sem humor.

— Me arrepender só irei se me casar com ele.

— Catarina, por favor.

— Me deixa, Lucas. Eu só quero tomar um ar fresco.

Saio de perto dele sem sequer olhar para trás.

Eu sabia que Lucas não estava feliz com aquele noivado.

Então imagina eu?

Eu era a pessoa que teria que viver aquela vida.

Eu era a pessoa que teria que acordar todos os dias ao lado de Nicolas.

Eu era a pessoa que teria que carregar aquela aliança no dedo.

Eu era a pessoa que teria que fingir diante de todos que aquilo era uma escolha.

Caminho até uma parte mais afastada da casa.

Precisava respirar.

Precisava ficar longe daqueles olhares.

Precisava de alguns minutos em que ninguém pudesse me dizer o que fazer.

O ar fresco toca meu rosto e, por alguns segundos, fecho os olhos.

Tento controlar a respiração.

Mas não consigo relaxar.

Ouço passos atrás de mim.

Não preciso olhar para saber quem é.

Nicolas se aproxima novamente.

Eu não olho para trás.

Apenas espero que ele se aproxime.

— A gente precisa se dar bem — ele diz, me olhando.

Continuo olhando para frente.

— Eu preciso respirar apenas. Se você tiver como me deixar sozinha um pouco.

Por alguns segundos, ele permanece em silêncio.

— Eu vou deixar, mas fique ciente de que, quando você se casar comigo, você vai fazer apenas o que eu quiser que você faça.

Finalmente me viro para ele.

Olho diretamente em seus olhos.

— Fique ciente de que eu vou casar te odiando, Nicolas.

Ele não parece surpreso.

Na verdade, parece até satisfeito com a minha resposta.

— Eu não quero que você me ame. Eu quero que você apenas me obedeça.

Meu peito aperta.

Aquelas palavras deixam claro exatamente o tipo de homem com quem eu estava prestes a me casar.

Ele não queria o meu amor.

Não queria a minha confiança.

Não queria construir uma relação comigo.

Queria apenas controle.

Nicolas abre um sorriso de lado e se afasta de mim.

Eu permaneço parada.

Olho para o jardim diante de mim.

As flores balançavam suavemente com o vento, completamente indiferentes ao que estava acontecendo dentro daquela casa.

Levo a mão até a aliança.

Eu ainda não conseguia acreditar que aquilo estava realmente acontecendo.

Um casamento deveria representar uma escolha.

Duas pessoas deveriam decidir dividir a vida porque desejavam estar juntas.

O casamento não deveria ser uma negociação entre famílias.

Não deveria ser uma dívida.

Não deveria ser uma obrigação.

Não deveria transformar uma mulher em propriedade de um homem.

Talvez o casamento nunca tivesse sido o problema.

Talvez o problema fosse aquele contrato silencioso que todos haviam feito sem mim.

Um contrato no qual minha liberdade havia sido colocada como garantia.

Um contrato em que meu sobrenome, meu futuro e meu corpo pareciam fazer parte do pagamento.

E, enquanto eu observava o jardim, uma lembrança atravessou minha mente.

Bruno.

Fecho os olhos por alguns segundos.

Por mais que eu tentasse esquecer, ele ainda estava presente em algum lugar dentro de mim.

Lembro do seu rosto.

Do jeito que ele me olhava.

Da maneira como eu me sentia quando estava perto dele.

Era impossível não comparar.

Bruno representava tudo aquilo que eu poderia ter escolhido.

Nicolas representava tudo aquilo que escolheram por mim.

Olho novamente para a aliança.

Aquela pequena peça brilhava em meu dedo, mas eu só conseguia enxergar o peso que ela carregava.

Eu havia acabado de aceitar um noivado.

Mas, dentro de mim, eu sabia que não havia aceitado aquele casamento.

Eu apenas havia aceitado sobreviver a ele.

E talvez essa fosse a maior diferença entre escolher alguém para amar e ser obrigada a pertencer a alguém.

O casamento não era uma instituição falida.

O contrato é que era.

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