Capítulo 7 7
"Às vezes, na nossa cabeça, a melhor saída é fugir, mas, na verdade, acaba sendo o nosso pior erro."
Catarina narrando
Fazia alguns anos que meu pai havia descoberto que estava com um problema no coração. Pelo que eu sabia, parecia ser algo sério. Ele tomava alguns remédios diariamente e, em determinadas situações, precisava diminuir o ritmo de trabalho.
Mesmo assim, quase ninguém comentava exatamente o que ele tinha.
Meu pai nunca gostou de demonstrar fraqueza.
Para ele, admitir que estava doente significava permitir que alguém enxergasse uma parte dele que sempre tentou esconder.
Eu sabia apenas o suficiente para entender que aquilo preocupava meus irmãos.
Naquela noite, depois do noivado, ele passou mal.
Tudo aconteceu muito rápido.
Ele estava conversando normalmente quando, de repente, levou a mão ao peito e precisou se sentar. Meus irmãos correram para ajudá-lo e, alguns minutos depois, um médico chegou para examiná-lo.
Eu fiquei completamente apavorada.
Por mais que eu tivesse todos os meus problemas com meu pai, ele ainda era meu pai.
No final, o médico disse que ele já estava melhor e que precisava descansar e tomar os medicamentos corretamente.
Aquilo deveria ter sido suficiente para me tranquilizar.
Mas não foi.
Passei boa parte da noite pensando em tudo.
No meu pai.
Nos meus irmãos.
Na empresa.
No casamento.
Em Nicolas.
E, principalmente, em Bruno.
Na manhã seguinte, acordei com uma decisão praticamente tomada dentro da minha cabeça.
Eu precisava fugir.
— Bom dia — falo sorrindo para Letícia.
Ela estava sentada perto da janela, mexendo em algumas coisas enquanto me observava.
— Acordou animada hoje — ela fala, me olhando. — Pelo jeito a conversa com Nicolas ontem à noite, depois do noivado, foi boa.
Iludida.
Quase sinto vontade de rir.
Se ela soubesse o que realmente havia acontecido, provavelmente não estaria dizendo aquilo.
— Foi ótima.
Sorrio para ela, tentando não demonstrar o que estava acontecendo dentro de mim.
Não queria que ninguém soubesse.
Não ainda.
Eu precisava manter meu plano em segredo.
Depois de alguns minutos, saio do quarto e desço para o jardim.
Assim que sinto o vento tocar meu rosto, respiro fundo.
A conversa que tive com Nicolas na noite anterior não saía da minha cabeça.
A maneira como ele havia dito que, depois que nos casássemos, eu faria apenas o que ele quisesse.
A maneira como ele havia dito que não precisava do meu amor, apenas da minha obediência.
Aquilo havia feito crescer dentro de mim algo que eu já não conseguia controlar.
Nojo.
Raiva.
Repúdio.
Eu não conseguia imaginar passar o resto da minha vida ao lado de um homem que pensava daquela maneira.
E foi justamente por isso que comecei a pensar ainda mais no que Bruno havia dito para mim.
Em fugir com ele.
Talvez aquela fosse a única maneira de escapar.
Talvez eu pudesse simplesmente deixar tudo para trás.
Minha família.
O casamento.
As dívidas.
As regras.
Aquele lugar.
Tudo.
Eu só precisava ter coragem.
Caminho pelo jardim procurando por ele.
— Bruno — falo ao encontrá-lo.
Ele estava na entrada da estufa, cuidando dos girassóis.
Assim que me vê, sorri.
— Bom dia, flor do meu dia.
Aquelas palavras fazem meu coração acelerar.
— Bom dia.
Ele deixa o que estava fazendo de lado e se aproxima.
— Vem. Vamos entrar aqui dentro.
Eu entro na estufa com ele.
Bruno fecha a porta atrás de nós e a tranca.
A estufa era fechada, então quem estivesse do lado de fora não conseguia olhar para dentro.
Era o nosso pequeno lugar.
Um lugar onde podíamos conversar sem medo de sermos interrompidos.
— Como foi o jantar?
Respiro fundo.
— Horrível.
Ele me olha com preocupação.
— O que aconteceu?
— Eu não quero me casar com ele.
Bruno segura minha mão.
— Catarina...
Olho diretamente para ele.
— Eu vou fugir com você.
Ele fica completamente imóvel.
— Você está falando sério?
— Estou.
Minha voz sai firme.
Pela primeira vez, desde que tudo aquilo começou, eu sentia que estava tomando uma decisão por mim mesma.
— Eu vou fugir com você, meu amor. Eu consigo pegar dinheiro no cofre do meu pai e tenho as joias da minha mãe. É o bastante para que a gente consiga ir para o mais longe possível.
Bruno me olha, ainda tentando entender se eu realmente estava falando sério.
— Eu tenho algum dinheiro guardado e podemos vender meu carro também.
Eu sorrio.
Finalmente parecia existir uma saída.
Uma saída que não dependia do meu pai.
Nem dos meus irmãos.
Nem de Nicolas.
Nem daquela empresa.
Apenas de nós dois.
Abraço Bruno com força.
Ele me abraça também, apertando os braços ao redor do meu corpo como se tivesse medo de que eu desaparecesse.
Começamos a nos beijar.
Por alguns segundos, esqueço completamente tudo o que estava acontecendo.
Não havia casamento.
Não havia dívida.
Não havia família.
Não havia Nicolas.
Só nós dois.
Quando nos afastamos, olho para ele.
— Quanto tempo você acha que consegue organizar para que a gente consiga fugir?
Bruno pensa por alguns segundos.
— Se você conseguir pegar o dinheiro do seu pai no escritório ainda hoje, no máximo até amanhã a gente foge.
Meu coração começa a bater mais rápido.
Era real.
Realmente poderíamos fazer aquilo.
— Hoje Nicolas vai me levar para sair à noite. Na volta, quando eu chegar, eu pego o dinheiro.
Bruno imediatamente fica mais sério.
— Vocês vão aonde?
— Eu não sei. Mas papai insistiu que eu precisava ir jantar com ele uma noite.
Ele respira fundo.
— Não vejo a hora de você estar livre de tudo isso.
Sorrio.
— Eu não vejo a hora de estar com você, bem longe de tudo isso, vivendo o nosso amor.
Ele segura meu rosto entre as mãos.
— Eu também não vejo a hora. Mas, por favor, se cuida nesse jantar e, principalmente, na hora de pegar o dinheiro.
Concordo com a cabeça.
— Arruma tudo, porque amanhã de manhã já vou estar com o dinheiro, as joias e as malas prontas.
Bruno parece preocupado.
— Não pegue muita coisa. Apenas o necessário.
— Pode deixar.
Ele segura minha mão novamente.
Eu olho para nossos dedos entrelaçados e, por alguns segundos, acredito que finalmente encontrei a solução para todos os meus problemas.
Acredito que fugir era liberdade.
Que deixar tudo para trás seria mais fácil do que enfrentar aquilo.
Que bastava atravessar alguns quilômetros para que minha vida começasse de novo.
Eu ainda não sabia que algumas decisões parecem perfeitas quando estamos desesperados.
Ainda não sabia que, quando sentimos que não existe outra saída, qualquer porta aberta parece ser a porta certa.
Naquele momento, eu só conseguia pensar em Bruno.
Em nós dois.
Em uma vida longe daquela família.
Longe de Nicolas.
Longe das obrigações.
Longe de tudo.
Eu não fazia ideia de que estava prestes a cometer um erro que mudaria a minha vida para sempre.
Porque, às vezes, na nossa cabeça, a melhor saída é fugir.
Mas, na verdade, acaba sendo o nosso pior erro.
