Capítulo 8 8
"Eu achava que precisava estar junto de alguém para ser feliz."
Catarina narrando
Era quase noite e eu estava terminando de me arrumar. Desde que havia acordado naquela manhã, eu não conseguia parar de pensar no plano que havia feito com Bruno.
Eu precisava manter a calma.
Precisava agir normalmente.
Naquela noite, Nicolas viria me buscar para jantar, e eu teria que fingir que estava tudo bem. Depois, quando voltasse para casa, pegaria o dinheiro no escritório do meu pai.
Era simples.
Pelo menos era o que eu tentava acreditar.
Termino de arrumar meu cabelo, confiro minha aparência no espelho e pego minha bolsa.
Estava saindo do quarto quando escuto uma discussão vindo do quarto de Pedro e Letícia.
Paro imediatamente.
Reconheço a voz de Letícia.
— Para, Pedro — ela dizia.
Meu coração aperta.
A voz dele fica cada vez mais alta.
— Você não pode sair desse quarto que só sabe fazer merda!
Eu fico parada no corredor, escutando tudo.
— Você é uma inútil, Letícia! Você não serve para nada! Nem mesmo para me dar filhos! Você é uma inútil! Maldita hora que eu casei com você!
Sinto meu estômago embrulhar.
Como ele conseguia falar daquele jeito com ela?
Como conseguia tratar a própria esposa como se ela não fosse uma pessoa?
— Para com isso, Pedro. Eu amo você — ela dizia chorando.
Fecho os olhos.
Eu conhecia Letícia.
Sabia o quanto ela amava meu irmão.
Sabia o quanto ela tentava agradá-lo.
Fazia tudo o que Pedro mandava, tentava manter a casa em ordem e fazia de tudo para evitar conflitos.
Mas nunca parecia ser suficiente.
— Você acha que eu vou perder tempo da minha vida amando você? De você eu só quero que você abra as pernas.
Sinto meu corpo inteiro estremecer.
Aquilo não era uma discussão normal.
Não era uma briga de casal.
Era crueldade.
— Chega! — ela diz, alterando a voz com ele.
— Não grita comigo! — Pedro responde. — Quem você acha que é?
O silêncio que vem depois é assustador.
Então escuto um barulho.
Um som seco.
Meu coração dispara.
Eu sinto que ele deu um tapa no rosto dela.
Fecho os olhos imediatamente e coloco a mão na maçaneta para abrir a porta.
Eu precisava entrar.
Precisava ajudar Letícia.
Mas, antes que eu conseguisse, Pedro abre a porta.
Ele me encara.
Eu fico completamente paralisada.
Atrás dele, vejo Letícia caída no chão.
Ela estava machucada e chorando.
Por alguns segundos, não consigo dizer nada.
Só consigo olhar para ela.
— O que você fez com ela?
Dou um passo em direção a Letícia, mas Pedro segura meu braço.
— Você nunca mais tente interferir no meu casamento.
Ele me empurra para fora do quarto.
— Você machucou ela! Por que você fez isso?
Minha voz sai tremendo.
Pedro me encara com raiva.
— Não se meta, Catarina. O casamento é meu e da Letícia.
Olho novamente para ela.
Meu coração se aperta.
Como ele podia dizer aquilo?
Como se o fato de serem casados desse a ele o direito de fazer qualquer coisa.
Como se ela fosse propriedade dele.
Como se o casamento permitisse violência.
— Catarina!
A voz do meu pai soa lá embaixo.
— Nicolas chegou.
Olho para Pedro mais uma vez.
Eu queria fazer alguma coisa.
Queria ficar.
Queria levar Letícia dali.
Queria enfrentar meu irmão.
Mas eu sabia que, naquele momento, não conseguiria fazer nada sozinha.
— Eu já estou indo, papai.
Pedro dá um passo para trás.
— É melhor você ir, Catarina.
Ele me olha com um ar sarcástico.
Eu o encaro por alguns segundos antes de olhar novamente para Letícia.
Ela estava no chão, chorando em silêncio.
Eu sentia uma dor enorme no peito ao vê-la naquela situação.
Letícia fazia tudo o que meu irmão mandava.
Tentava ser a esposa perfeita.
Tentava fazê-lo feliz.
E, mesmo assim, Pedro só sabia maltratá-la.
Aquela cena me fazia pensar no meu próprio casamento.
Eu não queria terminar como ela.
Não queria acordar um dia e perceber que havia entregado minha vida a um homem que acreditava ter o direito de mandar em mim.
Respiro fundo.
Desço pelas escadas.
— Boa noite.
Quando chego à sala, encontro Nicolas me esperando.
Meu pai não estava mais ali.
Nicolas olha para mim de cima a baixo.
— Boa noite, Catarina.
— Boa noite.
Ele continua me observando.
— Você está muito bonita.
— Obrigada.
Forço um pequeno sorriso.
— Vamos?
— Claro.
Saímos para fora da casa.
Nicolas caminha até o carro e abre a porta para mim.
Antes de entrar, olho discretamente para o jardim.
E então vejo Bruno.
Ele estava parado em um canto, me observando.
Meu coração se parte imediatamente.
Eu sabia o que aquele olhar significava.
Ele sabia que eu estava indo embora com outro homem.
E eu sabia que, naquele momento, ele provavelmente estava pensando em tudo o que havíamos combinado naquela manhã.
Em fugir.
Em nós dois.
Em uma vida juntos.
Ver Bruno me olhando sair com Nicolas fazia meu coração doer.
Eu e Bruno nos dávamos tão bem.
Tínhamos uma sintonia tão boa.
Com ele, eu conseguia conversar.
Conseguia rir.
Conseguia ser eu mesma.
Eu acreditava que aquilo era amor.
Acreditava que precisava estar com alguém para conseguir ser feliz.
Talvez fosse por isso que fugir parecia tão fácil.
Se eu tivesse Bruno, eu poderia abandonar tudo.
Era isso que eu repetia para mim mesma.
Nicolas percebe minha expressão.
— Tudo bem, Catarina?
Desvio o olhar de Bruno.
— Sim. Podemos ir.
Entro no carro.
Sorrio para Nicolas, tentando esconder o que estava sentindo.
Ele fecha a porta e entra no lado do motorista.
O carro começa a sair lentamente.
Eu continuo olhando para Bruno pela janela.
Ele permanece parado no mesmo lugar.
Não desvio os olhos.
Não consigo.
Até que o carro se afasta e ele finalmente desaparece da minha visão.
Baixo o olhar.
Sinto uma lágrima ameaçar cair, mas rapidamente a seguro.
Nicolas não diz nada.
Também não sei se ele percebeu o jeito como eu estava olhando para Bruno.
Talvez não.
Talvez sim.
Naquele momento, eu só conseguia pensar em uma coisa.
Eu achava que precisava estar junto de alguém para ser feliz.
Achava que precisava de Bruno para escapar.
Achava que fugir com ele seria a solução para todos os meus problemas.
Ainda não entendia que felicidade não deveria depender de outra pessoa.
Eu não precisava trocar um homem que decidia o meu futuro por outro homem que seria a minha única esperança de escapar dele.
Mas naquela noite eu ainda não sabia disso.
Naquela noite, eu só sabia que queria fugir.
E estava disposta a fazer qualquer coisa para conseguir.
