Capítulo 9 9

"Ele me olhava de uma forma que me dava medo, parecia que ele estava vendo todos os meus segredos."

Catarina narrando

O caminho todo havia sido em silêncio.

Uma música baixa e calma tocava no rádio do carro, preenchendo o espaço entre nós enquanto eu permanecia olhando pela janela.

De vez em quando, eu olhava discretamente para Nicolas.

Tentava observá-lo sem que ele percebesse.

Queria entender que tipo de homem ele era.

Queria descobrir o que havia por trás daquele olhar, daquela postura sempre tão segura e daquele jeito de falar como se tivesse certeza de tudo.

Eu não conseguia entender como alguém podia parecer tão tranquilo enquanto dizia coisas tão assustadoras.

Durante aproximadamente trinta minutos, permaneci tentando descrevê-lo em minha mente.

Nicolas parecia ser o tipo de homem que observava tudo.

Cada movimento.

Cada expressão.

Cada palavra.

E isso me deixava desconfortável.

Finalmente, depois de algum tempo, o carro diminui a velocidade e para em frente a uma casa enorme.

Olho pela janela e fico surpresa.

Eu sempre achei que a minha casa era grande.

Na verdade, durante toda a minha vida, achei que poucas casas poderiam ser maiores do que a nossa.

Mas aquela era completamente diferente.

Deveria ser pelo menos o triplo da minha.

Era enorme, imponente e parecia ter sido construída para mostrar poder.

— Como ontem você estava um pouco brava porque a gente se casaria em duas semanas — ele diz, quebrando o silêncio. — Achei que deveria te trazer para conhecer a sua futura casa.

Olho novamente para a residência.

Mal ele sabia que eu não iria morar ali.

Que eu não pretendia passar sequer uma semana naquela casa.

Eu iria fugir.

Depois daquela noite, eu não pretendia mais olhar para a cara dele.

Pelo menos era o que eu acreditava.

Mas precisava admitir uma coisa.

A casa era realmente muito bonita.

A parte da frente estava toda iluminada por luzes verdes, que deixavam a fachada ainda mais elegante e davam ao lugar um charme diferente.

O jardim também era enorme.

Por alguns segundos, fico admirando tudo.

— Você mora aqui sozinho?

Nicolas tira o cinto de segurança.

— Minha mãe mora aqui também, mas em uma parte separada da casa.

Franzo a testa.

— Existe uma outra casa aí dentro para ela?

Ele sorri de lado.

— Vamos dizer que sim. Quando meu pai faleceu, ela ficou sob a minha responsabilidade. Devo cuidar dela.

Ele faz uma pequena pausa antes de continuar.

— Mas não quero ninguém atrapalhando a nossa vida de casal.

Aquela frase me faz olhar para ele.

Nossa vida de casal.

Ele falava como se aquilo já existisse.

Como se nós dois já tivéssemos uma história.

Como se eu tivesse escolhido estar ali.

— Vamos morar só nós dois?

— Sim. Vamos ter que nos acostumar com a companhia um do outro.

Sinto um arrepio percorrer meu corpo.

Não gostava da ideia de ficar sozinha com Nicolas naquela casa.

Muito menos depois de tudo o que ele havia me dito.

Eu não queria imaginar como seria viver ao lado de um homem que já havia deixado claro que esperava minha obediência.

Nicolas desce do carro e dá a volta para abrir a porta para mim.

Eu saio.

Ele fecha a porta e olha para mim.

— Acredito que o jardim não seja como o da casa de vocês.

Olho para o jardim.

— Mas vi que você é acostumada demais com o jardineiro de lá. Quem sabe a gente pode chamar ele para trabalhar na nossa casa. O que você acha?

Meu corpo inteiro fica tenso.

Encaro Nicolas sem reação.

Então ele tinha visto.

Ele havia visto Bruno.

Talvez tivesse percebido os olhares.

Talvez tivesse percebido a forma como eu olhei para ele antes de entrar no carro.

Ou talvez estivesse apenas tentando me provocar.

De qualquer maneira, eu precisava tomar cuidado.

— Acredito que deve ter vários jardineiros muito melhores que ele.

Nicolas continua me olhando.

— Achei que você gostava.

Meu coração dispara.

— Do quê? Do jardineiro?

Ele sorri discretamente.

— Não. Do jardim que ele faz.

Respiro aliviada, mas não demonstro.

— Eu gosto, sim. Fica muito bonito.

Ele permanece me olhando por alguns segundos.

Aquele olhar me incomodava.

Era como se ele soubesse que eu estava escondendo alguma coisa.

Como se estivesse esperando que eu cometesse algum erro.

— Vamos entrar.

Concordo com a cabeça.

Acompanho Nicolas até a entrada da casa.

Assim que entramos, fico completamente surpresa.

A casa era ainda maior por dentro.

Tudo parecia ter sido pensado nos mínimos detalhes.

Os móveis eram elegantes, a decoração era sofisticada e cada ambiente parecia ter sido planejado para transmitir riqueza e poder.

Eu caminho lentamente, observando tudo.

— Essa é a sua futura casa. Espero que você goste da decoração, porque fui eu mesmo que escolhi.

Olho para ele.

— É muito linda.

E realmente era.

Mas minha cabeça estava longe dali.

Eu tentava esconder a ansiedade que sentia.

Precisava voltar para casa.

Precisava esperar Nicolas me levar de volta.

Precisava entrar no escritório do meu pai.

Precisava abrir o cofre.

Precisava pegar o dinheiro.

As joias da minha mãe.

E fugir.

Era só nisso que eu conseguia pensar.

Enquanto Nicolas me mostrava cada cômodo, eu contava mentalmente o tempo.

Quanto mais tempo passasse, mais tarde ficaria.

E quanto mais tarde ficasse, mais difícil seria colocar meu plano em prática.

— Eu quero te mostrar o nosso quarto.

Paro de caminhar.

Olho para ele.

— Não é preciso. Eu vou ver quando a gente se casar.

Nicolas se aproxima de mim.

O sorriso de lado aparece novamente.

Meu corpo fica tenso.

Ele para bem perto de mim e levanta a mão.

Passa os dedos suavemente pelo meu rosto.

Eu fico imóvel.

Não porque queria aquele toque.

Mas porque não sabia como reagir.

— Você vai gostar de conhecer ele.

Encaro seus olhos.

E, naquele instante, sinto novamente aquela sensação estranha.

Medo.

Não era apenas medo do que ele poderia fazer.

Era medo do que ele poderia saber.

Nicolas me olhava de uma forma que me dava medo.

Parecia que ele estava vendo todos os meus segredos.

Como se soubesse que havia alguma coisa que eu não estava contando.

Como se pudesse enxergar através das minhas palavras, do meu sorriso falso e da minha tentativa de parecer tranquila.

Eu me afasto delicadamente de sua mão.

— Tenho certeza que sim.

Ele continua me encarando.

E eu percebo que precisava tomar ainda mais cuidado.

Porque talvez Nicolas não fosse tão distraído quanto eu imaginava.

Talvez ele já tivesse percebido que havia alguma coisa errada.

E, pela primeira vez naquela noite, sinto uma dúvida surgir dentro de mim.

Será que ele realmente não sabia dos meus planos?

Ou será que estava apenas esperando o momento certo para descobrir?

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo