Capítulo 1 Seis Meses

CLARA

— Amanhã, a esta hora, eu vou estar casado.

Leonardo Ferraz disse isso olhando os números do elevador, não para mim. Como quem experimenta uma roupa nova e ainda não sabe se ficou bem.

Não respondi. Não era uma frase que pedia resposta. E eu tinha catorze e-mails, duas ligações perdidas da floricultura e quatrocentos e doze convidados na cabeça.

Oito meses da minha vida estavam no salão lá embaixo. Eu tinha medido o espaço três vezes, redesenhado a circulação dos garçons porque a porta da cozinha abria para o lado errado e chorado de raiva no carro duas vezes, nunca na frente de ninguém. Nada ali estava onde estava por acaso. Era por isso que as pessoas me contratavam.

— Mais alguma mudança? — ele perguntou.

— Só uma. Sua mãe quer o senador Albuquerque ao lado dela na mesa da família, e não na outra ponta.

— Faça como ela pediu.

— E a música da entrada continua sem arquivo definitivo. A Helena trocou de novo.

— Claro que trocou.

— Quarta vez. Eu tenho uma pasta só para isso. Chama "Helena, música, socorro".

O canto da boca dele subiu. Leonardo Ferraz quase não sorria, e quando sorria, parecia que tinha sido pego fazendo alguma coisa proibida.

— Ela disse que estaria aqui hoje com a Denise — falei. — Resolvemos a música agora, antes que ela mude de ideia de novo.

— Você vai dormir depois de amanhã? — ele perguntou.

— Esse é o plano.

— Não acredito muito nesse plano.

Eu ri, cansada. Ele tinha razão.

As portas se abriram no décimo segundo andar.

O corredor estava silencioso, com luz baixa e o cheiro das flores que a minha equipe tinha deixado ali pela manhã. A suíte de apoio das madrinhas ficava no final.

Bati na porta.

— Helena?

Nada.

Lá dentro, alguma coisa caiu. Um barulho abafado. Depois, uma respiração alta, rápida, que eu não reconheci.

— Helena? Está tudo bem?

Pensei que alguém tivesse passado mal. Girei a maçaneta. A porta não estava trancada.

Abri.

E o mundo parou.

Denise estava no sofá, inclinada sobre Helena. O vestido de Helena estava levantado até a cintura. A mão de Denise estava entre as pernas dela. As duas se beijavam como se não existisse nada do lado de fora daquela porta.

Helena abriu os olhos.

Me viu.

E então viu quem estava atrás de mim.

O grito dela não parecia de uma pessoa. Parecia de alguém caindo.

Denise se jogou para trás tão depressa que bateu o quadril na mesinha. Um vaso de flores brancas foi ao chão e se espatifou.

Eu não conseguia me mexer. Meu rosto queimava como se fosse eu quem tivesse sido pega.

Atrás de mim, Leonardo não fez som nenhum.

Durante três segundos.

Depois ele passou por mim como se eu não estivesse ali, pegou a primeira coisa que encontrou na cômoda, o porta-retratos de prata com a foto do noivado, e atirou contra a parede. O vidro explodiu acima da cabeça das duas. Denise gritou. Helena cobriu o rosto.

— HÁ QUANTO TEMPO?

Eu nunca tinha ouvido aquele homem levantar a voz. Em oito meses, nem uma vez. A voz dele encheu o quarto inteiro, bateu nas paredes, voltou.

Fechei a porta atrás de nós. Ninguém da equipe podia ver aquilo. Ninguém.

— Leonardo, por favor... — Helena puxava o vestido para baixo, chorando. — Não é o que...

— NÃO TERMINA ESSA FRASE.

Ela não terminou.

— Há quanto tempo, Helena?

Ela olhou para Denise. Denise olhou para o chão.

— Seis meses.

Leonardo riu. Um riso horrível, sem nenhuma graça, que me deu um arrepio na espinha.

— Seis meses. — Ele passou as duas mãos no cabelo. — As provas do vestido. A degustação. O jantar com o seu pai em que você chorou dizendo que era o dia mais feliz da sua vida.

— Eu não sabia como te contar!

— Você teve SEIS MESES!

Foi aí que a Denise levantou a cabeça.

— Talvez ela não tenha contado porque você nunca perguntou nada a ela que não estivesse numa agenda — disse. A voz tremia, mas saiu inteira. — Você sabe qual é a cor favorita dela, Leonardo? Sabe do que ela tem medo?

O silêncio que veio depois foi pior do que o grito.

Leonardo olhou para a Denise. Depois para a Helena, esperando que ela negasse.

Ela não negou.

Eu vi a frase entrar nele. Vi o exato lugar onde ela bateu. E tive vontade, pela primeira vez na minha vida profissional, de dar um tapa na cara de uma madrinha.

— Denise — eu disse, com a voz mais calma que consegui. — Você vai calar a boca agora.

Ela me olhou, chocada. Ninguém nunca falava assim com ela. Eu também nunca falava assim com ninguém.

Leonardo tirou do bolso do paletó a caixinha de veludo com as duas alianças do casamento. Ele andava com ela ali desde a semana anterior, para não esquecer na hora. Abriu. Olhou para os dois aros por um segundo.

Depois jogou a caixa aberta em cima do sofá, entre as duas.

— Fica para ela — disse.

E se virou para mim. Os olhos estavam vermelhos, brilhando.

Quando falou, a voz saiu baixa de novo. Baixa e firme, como se cada palavra tivesse sido arrancada de dentro dele.

— Clara.

— Sim.

— O casamento está cancelado.

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