Capítulo 2 A Promessa

CLARA

Leonardo saiu da suíte sem olhar para trás.

Helena foi atrás dele, descalça, com o rosto molhado, pisando nos cacos sem perceber.

— Leonardo, espera!

Ele apertou o botão do elevador com tanta força que achei que fosse afundar o botão na parede.

Eu fechei a porta da suíte em cima da Denise, que continuava encolhida no sofá, e corri. Entrei no elevador no último segundo. Leonardo segurou a porta com o braço, sem olhar para mim. Helena entrou depois.

Três pessoas num elevador espelhado. Nunca uma descida de doze andares demorou tanto.

Helena chorava baixinho. Leonardo olhava fixo para os números. Eu olhava para os meus sapatos e pensava, sem nenhuma lógica, que os sapatos estavam lindos e que eu nunca mais ia conseguir usar aquele par.

No sétimo andar, Helena tocou o braço dele.

Ele tirou o braço como se tivesse levado um choque.

No quarto andar, ela tentou de novo.

— Se você me tocar mais uma vez — ele disse, sem levantar a voz —, eu desço pela escada.

Ela recolheu a mão. Eu prendi a respiração. O elevador apitou no térreo, e eu nunca agradeci tanto por um apito.


No salão, as mesas continuavam arrumadas para o jantar de ensaio. Velas esperando para ser acesas. O nome deles em letra dourada nos cardápios. Leonardo e Helena. Com um coraçãozinho que eu tinha vetado e a Helena tinha insistido.

Leonardo parou no meio daquilo tudo.

— Preciso saber o que faço — eu disse.

— Cancele.

— Tudo?

— Tudo. — Ele finalmente olhou para mim. — Até o coraçãozinho.

Eu não devia ter rido. Não era hora. Mas saiu, um som curto e nervoso, e ele me olhou como se não acreditasse que alguém conseguisse rir naquela noite. Depois o canto da boca dele tremeu também.

Durou um segundo. Foi o segundo mais estranho da minha vida.

Então ele se virou para a Helena, e a cara dele fechou de novo.

— Minha assessoria solta um comunicado. Motivos pessoais. Comum acordo. Sem detalhes. Ninguém precisa saber o que aconteceu naquele quarto.

O alívio no rosto dela foi imediato demais. Eu vi. Ele também viu.

E aquilo o machucou mais do que o quarto.


Reuni a equipe em menos de dez minutos.

— O casamento foi cancelado.

Bianca me olhou como se eu tivesse falado em russo.

— Cancelado tipo adiado?

— Cancelado tipo cancelado.

— Mas e as quatrocentas e doze bem-casadas?

— Bia.

— Eu só estou perguntando porque são de pistache, Clara. Ninguém merece perder bem-casado de pistache.

Alguém atrás dela riu de nervoso. Eu quase chorei. As duas coisas ao mesmo tempo, que era como eu ia passar o resto daquela noite.

— Dividam os fornecedores. Ninguém comenta o motivo com ninguém. Nem com a mãe de vocês. Acordos de confidencialidade.

Nas três horas seguintes, cancelei quartos, carros, música, fotografia e bufê. Negociei multas com a voz calma e pedi desculpas por coisas que não eram culpa minha.

Eu estava bem. Eu estava funcionando.

Até encontrar o Leonardo sozinho diante dos arranjos, sem paletó, a gravata frouxa, uma tulipa branca entre os dedos.

— As flores não podem voltar — eu disse. — Posso doar para um hospital.

— Eu escolhi essas.

— Eu sei. Eu estava lá.

Ele girou a tulipa devagar.

— Achei que era a única coisa do casamento em que eu tinha acertado.

A voz falhou no final. Ele largou a flor e, sem aviso, me segurou pelo pulso quando eu me virei para ir embora. Não com força. Só o suficiente para eu parar.

Ficamos assim. A mão dele quente no meu pulso, os dois parados no meio de quatrocentas cadeiras vazias.

— Você viu — ele disse, baixo. — Antes de mim. Você viu primeiro.

— Vi.

— Ela tem razão? A Denise. Eu nunca perguntei nada que não estivesse numa agenda?

Eu devia ter dito que não era hora. Devia ter soltado o pulso e voltado para o meu telefone.

— Você me perguntou se eu ia dormir depois de amanhã — eu disse. — Isso não estava em agenda nenhuma.

Ele me olhou por muito tempo. Os olhos desceram até a minha boca e voltaram, tão rápido que eu podia ter imaginado.

Não imaginei.

Ele soltou o meu pulso. E eu passei os cinco minutos seguintes com a pele queimando exatamente no lugar onde os dedos dele tinham estado.

Meu telefone tocou.

Teresa Ferraz.

— Clara, onde está o meu filho?

— Ele estava aqui agora, Dona Teresa.

— Você sabe o que aconteceu.

Não era uma pergunta.

— Sei. Mas não cabe a mim contar.

Ela soltou o ar devagar.

— Então vou te pedir um favor. Não deixe meu filho passar por isso sozinho. Ele não quer falar comigo. Você é uma das poucas pessoas que ele ainda deixa chegar perto.

— Dona Teresa...

— Estou pedindo como mãe.

LEONARDO

Encontrei Helena numa sala reservada do andar executivo, encolhida no canto de um sofá.

Fechei a porta. Não sentei.

— Falou com seus pais?

— Ainda não.

— Helena.

— Você não conhece o meu pai.

— Conheço. Jantei com ele toda sexta-feira desde o noivado. Ouvi ele falar de você como se você fosse um prêmio que ele tinha ganhado. — Minha voz subiu sem eu querer. — E você me deixou entrar nesse papel. Seis meses, Helena. Seis meses você me deixou posar de noivo numa foto que era mentira.

— E você? — Ela levantou de uma vez, com os olhos vermelhos. — Você me pediu em casamento num jantar de negócios! Com o meu pai do lado! Você já tinha conversado com ele antes de conversar comigo!

A frase me atingiu no estômago.

Porque era verdade.

— Você queria uma esposa que combinasse com o hotel — ela disse, chorando de raiva agora. — E eu queria um pai que parasse de me olhar como se eu estivesse sempre devendo alguma coisa. A gente se merecia, Leonardo. Esse é o problema.

Fiquei em silêncio. Ela também.

Dois desconhecidos que iam se casar no dia seguinte.

— O que você quer de mim? — perguntei, por fim.

— Que você não conte. — Ela engoliu. — Pra ninguém. Até eu conseguir contar para ele.

— Não.

Ela empalideceu.

— Não?

— Não vou mentir por você, Helena. Vou ficar calado. É diferente. — Me aproximei. — Eu não conto o que aconteceu naquele quarto. Mas você conta para o seu pai. Hoje.

— Leonardo...

— É isso ou nada.

Ela me olhou por um tempo longo. Depois assentiu, devagar, enxugando o rosto com as costas da mão.

— Obrigada.

Saí sem responder.

Só no corredor, com a porta já fechada, percebi.

Ela tinha agradecido.

Mas não tinha prometido.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo