Capítulo 4 Péssima Ideia
CLARA
O elevador fechou, e ele me encostou na parede espelhada antes do primeiro andar.
Doze andares. Eu conhecia aquele elevador melhor do que a minha própria casa. Tinha subido nele cinquenta vezes naquela semana, com pastas, amostras de tecido, a música da entrada. Nunca com a boca de um homem no meu pescoço.
— Câmera — eu disse, sem fôlego.
— Meu hotel — ele respondeu, sem parar.
— Isso não é argumento.
— É o único que eu tenho agora.
Eu ri contra o ombro dele. Ele riu também, e a risada vibrou no meu corpo inteiro.
O corredor estava vazio. Ele errou o cartão na porta duas vezes, por causa da mão enfaixada, e xingou baixinho. Peguei o cartão da mão dele e abri na primeira.
— Exibida — ele disse.
— Eu abro portas desse hotel há oito meses, Leonardo.
A porta bateu atrás de nós.
E, de repente, ficamos quietos.
O quarto estava escuro, só com a luz da cidade entrando pela janela. Eu vi os pedaços de foto no tapete. A marca na parede. Ele viu que eu vi.
Por um segundo, achei que aquilo ia nos parar. Que um de nós ia dizer que era loucura, que no dia seguinte ele devia estar casado, que eu era a organizadora do casamento dele.
Ele segurou o meu rosto com as duas mãos. Até a machucada.
— Se você quiser ir embora, a porta está ali — disse, baixo. — Eu chamo um carro. Ninguém fica sabendo.
— E se eu não quiser?
— Então eu não vou ser educado.
Meu coração bateu na garganta.
— Quem pediu educação?
Foi a última coisa sensata que eu disse naquela noite.
Ele tirou o meu vestido como quem já tinha pensado nisso antes. Eu não perguntei desde quando. Não queria saber. Queria as mãos dele, e ele me deu.
Não houve nada de lento na primeira vez. Era raiva demais, dos dois lados. Do Marcelo, da Helena, da Denise, dos seis meses, dos dois anos, do mundo inteiro que tinha mentido para nós no mesmo dia. Eu mordi o ombro dele. Ele prendeu o meu cabelo numa das mãos para alcançar o meu pescoço, e eu me ouvi fazendo um som que eu não sabia que conseguia fazer.
— Olha para mim — ele mandou.
Eu olhei.
E foi pior. Porque ele estava me vendo. Não a organizadora. Não a funcionária competente que resolve tudo. A mim.
Ele me empurrou para a cama. Eu caí sentada na borda do colchão, e antes que eu me ajeitasse, ele já estava sobre mim, os joelhos entre os meus, a mão enfaixada apoiada no meu ombro. A gaze arranhava a minha pele.
Ele tentou abrir o fecho do meu sutiã. A mão direita falhou. Os dedos não fecharam. Ele olhou para a bandagem com uma raiva tão silenciosa que quase dava medo.
Abri eu mesma e joguei no chão.
Ele ficou me olhando. O peito subiu e desceu uma vez, fundo. Depois abaixou a cabeça. A boca encontrou o meu colo, desceu, e os dentes arrastaram pela minha pele. Enfiei os dedos no cabelo dele e puxei. Ele gemeu contra mim, e a vibração atravessou o meu peito inteiro.
Cravei as unhas nas costas dele. Senti os músculos se contraírem debaixo dos meus dedos. Ele subiu para o meu pescoço e mordeu. Não foi suave. Ia doer no dia seguinte, e eu não me importei.
— De novo — ele disse. — Olha para mim.
Eu olhei. E não desviei quando ele me deitou no colchão e a mão boa desceu pela minha barriga até a borda da calcinha. Ele não tirou. Passou os dedos pelo tecido, devagar, como um insulto depois de tudo.
— Para de me provocar — eu disse, e a voz saiu mais baixa do que eu queria.
Ele sorriu. O primeiro sorriso desde que tínhamos entrado no quarto. Não tinha calor nenhum. Era o sorriso de quem sabia exatamente o que estava fazendo.
Os dedos dele deslizaram por baixo do tecido. Sem aviso. Eu fiz um som que não reconheci como meu, um som que veio de algum lugar abaixo das costelas, e cobri a boca com a mão.
Ele afastou o meu braço.
— Não — disse. — Quero ouvir.
Os dedos se moveram dentro de mim e encontraram um ponto que me fez arquear as costas. Agarrei o lençol com uma mão e o ombro dele com a outra. Quando a boca dele desceu pelo meu corpo e chegou onde os dedos estavam, eu perdi a noção de onde terminava uma coisa e começava a outra. Só sabia que o som que saía de mim agora não parava.
Ele levantou a cabeça. Tirou os dedos, e o vazio foi tão abrupto que eu ia reclamar, mas ele já estava se posicionando. Apoiou a mão enfaixada no colchão, ao lado da minha cabeça. Quando ele entrou, foi de uma vez. O ar sumiu dos meus pulmões.
Ele parou. Ficou me olhando de cima. Naquela luz, com aquela expressão, ele era um desconhecido.
— Me olha — repetiu, pela terceira vez.
Eu me ergui nos cotovelos, mordi o peito dele e disse:
— Se vai fazer, faz.
Ele fez.
O ritmo não teve gentileza nenhuma. Era desigual, urgente, como se cada movimento fosse uma resposta a alguma coisa que tinha acontecido naquele dia e que nenhum de nós conseguia dizer em voz alta. A mão enfaixada escorregou no lençol, e ele trocou o apoio para o cotovelo. A gaze manchou de vermelho no canto. O corte tinha aberto de novo. Eu vi. Ele viu que eu vi. Nenhum de nós parou.
Prendi as pernas em volta dele. Ele gemeu, curto e contido, como se mesmo ali ainda estivesse controlando alguma coisa. Eu não queria que ele controlasse nada. Puxei o cabelo dele e mordi o pescoço, e ele perdeu o ritmo de vez.
Quando cheguei ao limite, foi sem aviso. O corpo inteiro travou, e o som que saiu de mim foi alto e descontrolado. Ele veio logo depois, com o rosto contraído se desfazendo em alguma coisa exausta, e caiu do meu lado.
Depois, ficamos deitados atravessados na cama, sem fôlego, olhando para o teto.
— Eu acho que eu quebrei a sua gaze — ele disse.
Olhei para a mão dele. O curativo estava pendurado por um fio, com uma mancha nova.
— Você é um péssimo paciente.
— E você é uma péssima enfermeira. Me deixou fazer esforço.
Eu ri tanto que tive que virar de lado. Ele ficou me olhando rir, com um meio sorriso que eu nunca tinha visto naquele rosto em oito meses.
— O quê? — perguntei.
— Nada. — Ele afastou o cabelo da minha testa. — Você ri com o corpo inteiro. Eu nunca tinha reparado.
— Você nunca tinha me visto rir.
— Eu nunca tinha te visto sem estar trabalhando.
Ficamos em silêncio. Lá fora, um carro passou. Em algum andar, alguém fechou uma porta.
— Clara.
— Hm.
— Eu ainda não terminei com você.
Eu ia responder alguma coisa engraçada. Abri a boca para isso.
Ele me beijou antes.
