Capítulo 5 Eu Ainda Não Terminei

CLARA

A segunda vez foi diferente.

Lenta. Tão lenta que doía. Ele tinha decidido que não ia ter pressa, e não teve, e eu descobri que Leonardo Ferraz era exatamente tão controlador na cama quanto numa reunião de diretoria. Cada vez que eu tentava apressar, ele parava.

— Leonardo...

— Eu sei.

— Então...

— Não.

— Você é insuportável.

— Você está sorrindo.

Eu estava.

A boca dele encontrou a minha de novo, mas diferente. A primeira vez tinha sido um atropelamento, dentes, língua e raiva. Agora era outra coisa. Os lábios dele roçavam nos meus como se tivessem todo o tempo do mundo, e ele não avançava. Ficava ali, respirando perto, num toque tão leve que chegava a ser irritante.

A mão boa dele subiu pelo meu braço, devagar, num trajeto que não ia a lugar nenhum. Só tocava. A mão enfaixada tentou me puxar mais perto e não conseguiu com a mesma força, e aquilo me deu vontade de rir, mas a boca dele não deixou.

Tentei aprofundar o beijo. Ele recuou. Um milímetro, dois. O suficiente para eu entender que quem decidia o ritmo era ele.

— Leonardo.

— Não.

A palavra saiu como um selo. Curta, seca, o mesmo tom que ele devia usar para encerrar uma reunião de diretoria. A diferença era que ali ele estava nu, duro contra a minha coxa, e mesmo assim falava como se mandasse em tudo.

Ele me empurrou de leve pelo ombro, e eu caí de costas no colchão. Ele se debruçou sobre mim e ficou me olhando. Não era desespero. Era avaliação. Como se estivesse decidindo por onde começar.

— Fica quieta — disse.

— Eu já estava quieta.

— Você estava se mexendo.

— Eu estava respirando.

— Respira mais devagar.

Eu ri, e ele não riu de volta. Só me observou. Os olhos desceram pelo meu corpo, e a mão foi atrás do olhar. A clavícula. O meio dos seios. Um toque tão leve que mal era um toque. Era uma promessa de toque. Minha pele inteira se arrepiou.

Ele contornou o meu seio por fora, por baixo, sem chegar onde eu queria. Arqueei as costas para forçar o contato. Ele tirou a mão.

— Leonardo.

— Eu avisei.

— Você é um desgraçado.

— Provavelmente.

A mão voltou, agora pela parte de dentro da minha coxa, subindo devagar, tão devagar que eu sentia cada centímetro. Abri as pernas sem pensar. Ele parou.

— Você não aprende — disse, com uma diversão quase invisível na voz.

— Eu aprendo. Só não obedeço.

Ele me olhou por tempo demais. A mão ficou parada, a centímetros de onde eu queria.

— Olha para mim.

— Estou olhando.

— Não está. Está olhando para a minha mão.

Ele tinha razão. Levantei os olhos para o rosto dele. O maxilar tenso. A sombra da barba. O corte no lábio que eu tinha feito na primeira vez. O dedo dele finalmente me tocou, me encontrou molhada e espalhou, em círculos lentos, que nunca chegavam exatamente onde eu precisava.

Fechei os olhos. Ele parou tudo.

— Olhos abertos.

Abri. Ele estava sorrindo, um sorriso pequeno, quase cruel. Eu quis odiar aquele sorriso. Meu corpo tremia. E ficou claro que ele não ia perder o controle.

Um dedo entrou em mim. Devagar. E parou.

— Mais — eu disse.

— Não.

— Por quê?

— Porque eu quero sentir você apertando.

E eu apertei, sem querer. Ele acrescentou um segundo dedo e começou a se mover num ritmo que não acelerava, não importava o quanto eu erguesse o quadril. Quando tentei dirigir, ele tirou os dedos.

— Para de tentar dirigir — disse.

— Você é horrível.

— E você está encharcada.

Era verdade. O vazio que ele deixou foi quase doloroso. Ele se posicionou entre as minhas pernas e ficou ali, encostado, sem entrar.

— Me olha.

Eu nem tinha percebido que tinha fechado os olhos de novo. O rosto dele estava a centímetros do meu. Dava para ver uma mancha mais clara na íris esquerda.

Ele entrou um pouco. Parou. Entrou mais. Parou. Era tão lento que doía, não de dor, de espera. Quando ficou inteiro dentro de mim, não se mexeu. A mão boa segurou o meu quadril.

— Se mexer, eu paro — disse contra o meu pescoço.

— Isso é chantagem.

— É.

Eu não me mexi. E ele começou. Devagar para fora, mais devagar ainda para dentro, cada movimento deliberado como uma assinatura num contrato. Eu queria mais força, mais pressa. Ele não ia me dar. E eu descobri que gostava disso.

O polegar dele subiu até a minha boca e roçou o meu lábio. Mordi de leve.

— Isso foi uma provocação — ele disse.

— Eu sei.

Ele acelerou só um pouco, o suficiente para eu sentir a diferença. O prazer começou a subir devagar, como uma maré. Tentei apressar. Ele parou de vez, dentro de mim.

— Não.

— Leonardo, eu estava...

— Eu sei. Eu senti.

Esperou. Eu respirei. E ele recomeçou, no mesmo ritmo lento. Soltei um som de pura frustração, e ele riu, um riso grave e curto, a primeira vez que eu o ouvia rir assim, e eu sorri mesmo estando quase chorando de vontade.

Na terceira vez que ele me levou até a beira e parou, eu desisti de lutar. Fiquei quieta. Deixei ele mandar. E quando ele finalmente perdeu o ritmo, quando os movimentos ficaram mais fundos e mais rápidos, o orgasmo me atravessou como uma onda longa, e ele veio logo depois, com um som baixo e contido, como se tivesse segurado até a última fração de segundo.

Ele não se afastou logo. Ficou ali, apoiado nos cotovelos, respirando contra o meu pescoço, a mão enfaixada ao lado da minha cabeça.

— Eu preciso ir ao banheiro — eu disse.

— Depois.

— Agora.

— Depois.

Eu não discuti. Ele deitou de costas e me puxou para o peito dele, com a mão boa na minha nuca, os dedos enroscados no meu cabelo bagunçado.

Muito depois, com a cabeça no peito dele e a cidade começando a clarear do lado de fora, ouvi a respiração dele mudar. Ficar mais funda. Mais lenta.

Ele tinha dormido. Com o braço em volta da minha cintura, como se tivesse medo de eu ir embora.

Fiquei olhando para ele no escuro.

O homem das reuniões de terno e gravata, agora com a barba aparecendo, a boca relaxada, a mão machucada largada no meu quadril.

No tapete, os pedaços da foto do campo de trigo.

Eu deveria ter me levantado. Procurado minhas roupas, chamado um carro e ido embora antes que o dia começasse.

Mas havia alguma coisa profundamente injusta naquela noite. Depois de tudo o que tinham feito conosco, pela primeira vez em horas eu não estava pensando no Marcelo, na Helena ou no desastre que nos esperava quando o sol nascesse.

Estava pensando que gostava de estar ali.

Gostava do peso do braço dele sobre a minha cintura. Do calor do corpo dele junto ao meu. Da maneira como continuava me segurando mesmo dormindo.

E isso me assustava mais do que qualquer coisa que tínhamos feito naquela cama.

Porque eu podia chamar aquela noite de impulso, de loucura, de vingança. Podia inventar quantas explicações quisesse.

Mas nenhuma explicaria por que, naquele instante, eu não queria ir embora.

Péssima ideia, pensei.

E me aconcheguei mais perto dele mesmo assim.

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