Capítulo 2
Meu polegar pairou sobre o botão de enviar. Aquilo incendiaria tudo. Os casamentos deles, as reputações deles. Um toque, e eu não seria a única sentada nas cinzas.
Mas então eu vi Zane aos dezesseis, dividindo o almoço com a garota quieta e desajeitada que todo mundo ignorava. Vi Jovi aos dezoito, apertando minha mão e me dizendo que eu podia pegar emprestada qualquer roupa dela, a amizade dela como um presente que eu nunca senti que merecia.
Eles eram traidores. Também eram pedaços da minha única história.
Apaguei a mensagem. Joguei o celular no banco do passageiro, furiosa comigo mesma. Eu tinha a vingança perfeita nas mãos e não conseguia fazer. Eu ainda era, depois de tudo, a garota que amava demais os dois. Meus únicos amigos.
Dirigi por mais uma hora. Acabei num bar que eu nunca tinha visto, numa parte da cidade que eu não conhecia.
Pedi gim. Puro. O bartender não fez perguntas.
Meu celular acendeu então. Mensagem atrás de mensagem fez o aparelho tremer a mesa com a vibração.
Jovi: Neri, por favor. Foi um ERRO. Um momento de fraqueza. A gente pode conversar.
Zane: Amor, por favor. Onde você está? Eu tô surtando. Deixa eu explicar.
Virei o celular com a tela para baixo e pedi outra bebida. Comecei a ficar bêbada.
Aí as mãos me encontraram.
— Ei, garota solitária. Vem se divertir com a gente.
Um estranho me segurou. Hálito de cerveja. Colônia barata. Uma mão na minha cintura, me puxando para fora do banquinho.
— Vai embora. — Minha cabeça pendeu; eu me senti tonta.
— Arisca. Eu gosto. — O sorriso torto dele era visível na minha visão embaçada.
Então outra mão, do meu outro lado. Mais forte. Eu empurrei, mas meu corpo não obedecia. O gim tinha feito o trabalho dele.
— Para. — Minha voz saiu baixa.
— Ela disse para.
A voz veio de trás de mim. Baixa. Plana. Não era alta, mas cortou o barulho do bar e me fez estremecer.
Senti as mãos em mim serem arrancadas com força; percebi um leve tremor neles antes de sumirem. Eu me virei. E ele estava ali.
Vance. O herdeiro da família Blackwood. A aura rica e fria dele mandou os dois homens embora de perto de mim.
Ele ficou ali, naquele terno caro, os olhos cinzentos planos como o inverno. O mesmo homem que tinha assentido para mim hoje de manhã. O mesmo homem cuja esposa acabara de destruir meu casamento.
Algo tremeluzia no olhar dele enquanto me encarava. Ele me olhou com o mesmo olhar de no dia do casamento. Sete anos atrás, ele me viu em pé ao lado de Jovi, num vestido horroroso de madrinha, assistindo enquanto ele se casava com a minha melhor amiga. Naquele dia, eu o peguei me olhando uma vez. Só uma. Um relance. E então sumiu.
Eu tinha esquecido até agora.
— Você consegue ficar em pé? — ele perguntou. Notei que ele tinha uma voz rouca e profunda quando falou daquele jeito.
Tentei me levantar, mas falhei. O ambiente inclinou.
Ele não suspirou. Não revirou os olhos. Só passou um braço ao meu redor e praticamente me carregou para fora, para o ar frio. O braço forte dele me envolveu com firmeza enquanto ele me arrastava para longe.
Eu desabei contra ele. Ele era quente. Sólido. Cheirava a lã cara e a alguma coisa mais cortante por baixo.
Ele não perguntou meu endereço. Não fez perguntas. Só me levou a um hotel, pegou um quarto, e me largou na cama como se eu fosse um saco de batatas.
Ele estava se virando para ir embora quando eu agarrei o paletó dele.
— Não vai.
Eu não sabia por que disse aquilo. Não me importava. Mas eu soei desesperada.
— Por favor. Só... não me deixa sozinha.
Ele ficou ali. Olhando para baixo, para mim. O rosto dele era indecifrável, mas algo nos olhos mudou — aquele mesmo lampejo de sete anos atrás, talvez. Apareceu e sumiu.
— Solta.
— Por que todo mundo escolhe ela? — As palavras escorreram, feias e quebradas. Eu ignorei completamente a ordem dele para soltar. — Por que eu nunca sou o bastante? Por que a minha cama? Tirar ele de mim não foi o suficiente? Ela tinha que pegar a minha cama também?
Eu o puxei para baixo. Encontrei a boca dele com a minha. E mordi o lábio dele de imediato.
O beijo foi um desastre. Tinha gosto de gim e lágrimas. Desespero e sal. Eu estava tentando sentir alguma coisa, qualquer coisa... que não fosse o buraco escancarado onde meu casamento costumava estar.
Por um segundo, ele foi pedra. Estava atônito demais com a audácia pura que eu tive. Beijar o meu próprio chefe quando eu ficava bêbada daquele jeito.
Mas então ele me beijou de volta.
Com força. Exigente. Como se estivesse tão desesperado quanto eu. A mão dele segurou meu rosto, o polegar pressionou minha mandíbula, e por alguns segundos não existiu mais nada.
Tudo o que eu conseguia sentir era o calor do nosso beijo. A necessidade de nos reivindicarmos. Apenas duas pessoas gritando sem som.
Então, quando ele recuperou a lógica, se afastou com um empurrão. Respirando com dificuldade.
Seus olhos, na luz fraca, estavam em pedaços. Ele limpou a boca depressa com o dorso da mão. Brutal. Como se quisesse apagar o beijo como se fosse um crime.
Em seguida, ele ajeitou o paletó. Se recompôs diante de mim. A máscara do CEO poderoso e frio voltou a deslizar para o lugar.
— Durma — ele disse. A voz áspera.
Ele se virou sem olhar para trás nem mais uma vez. E então me deixou sozinha.
A porta fez um clique ao se fechar.
Fiquei encarando o teto e não me mexi por um bom tempo.
A manhã chegou como uma ressaca. Brutal e implacável.
O teto era desconhecido. A cama, macia demais. Entrei em pânico quando recobrei a consciência e percebi onde eu estava. Verifiquei meu corpo. Eu ainda estava vestida. Um soluço fraco de alívio me atravessou.
Mas então a memória me atingiu como uma onda gigantesca. Uma mão forte ao redor do meu corpo, o choque de duas bocas. Eu sentia, de leve, o cheiro da colônia de um homem sob o odor de álcool que me cercava.
Engasguei com o ar.
A porta do banheiro se abriu. Vance saiu usando um roupão branco, cabelo molhado, o rosto já composto. Olhou para mim como se eu fosse um problema que ele tinha deixado em cima da mesa durante a noite.
Eu me lembrei daqueles olhos cinzentos fixos em mim, pouco antes de eu puxar aquele homem para dentro do meu desespero.
Não... ele não. Qualquer um, menos ele.
Ele me encarou com uma expressão fria e calma enquanto secava o cabelo com uma toalha.
Eu me lembrei do jeito como ele me beijou de volta com o mesmo desespero que eu senti na noite anterior.
Eu... eu acabei de beijar Vance Blackwood? Meu chefe?
Meu estômago se revirou; eu senti náusea.
Mais importante: eu beijei o marido da Jovi na mesma noite em que descobri que ela me traiu com o meu marido.
Agarrei o cobertor até meus dedos doerem. Eu sentia o calor subir para as minhas bochechas, não só de vergonha. Mas também de nojo e raiva.
Meu rosto ficou completamente pálido.
Passei a noite inteira chamando os dois de traidores.
Vance notou minha expressão. Ele se aproximou. Não de mim. Mas da mesinha, onde pegou o relógio e começou a colocá-lo no pulso.
— Você está fedendo a chão de bar — ele disse, sem emoção. — Tome banho. Você tem uma reunião às 9h30. A Lydia disse que você tem os números finais do projeto Harrington.
A normalidade daquilo me deixou muda, atônita.
— O quê? — perguntei, sem acreditar.
— Tome banho. — Ele ajustou o punho da camisa. Conferiu o relógio. Como se a noite passada tivesse pertencido a outra pessoa. Como se o meu pior erro não fosse mais do que um incômodo.
— Eu...
Eu queria perguntar sobre a noite passada. Queria perguntar por que ele não me afastou. Por que me beijou de volta. Se ele se arrependia. Se me desprezava agora.
Mas, vendo aqueles olhos profundos me encarando como se eu fosse parte de algum problema, eu engoli em seco.
— Entendi.
Levantei devagar, desviando o olhar do dele, e entrei no banheiro.
Enquanto a água morna caía sobre mim, eu continuava rezando para que ela lavasse a memória do beijo e a traição que me assombravam desde a noite anterior.
Esfreguei meus lábios até arderem. Mas o beijo não desapareceu.
Saímos juntos quinze minutos depois. O carpete do corredor era grosso demais. Nosso silêncio era uma coisa doente entre nós.
Viramos a esquina em direção aos elevadores.
E eles estavam lá.
Zane e Jovi. Perto da máquina de gelo. O braço dele em volta dela. Ela se aninhada nele. Pareciam cansados, preocupados... juntos.
Eles ergueram o olhar ao perceberem a nossa presença.
Os olhos de Zane foram das minhas roupas amassadas para o cabelo úmido de Vance e para o espaço entre nós. O rosto dele se contorceu — não de raiva, mas de uma compreensão enjoada.
A mão de Jovi voou até a boca. Os olhos dela correram de mim para ele e de volta. Choque, depois indignação. Uma indignação perfeita, hipócrita.
Ninguém falou.
Então a voz de Vance. Baixa. Limpa. Carregando uma vida inteira de gelo.
— Jovienne.
Apenas o nome dela.
Ele deu um passo à frente.
— Então você está aí.
Eu tinha passado os últimos quinze minutos me perguntando se eu tinha me tornado tão egoísta quanto eles.
Então eu os vi juntos.
