Capítulo 4

Zane correu atrás de mim assim que me afastei. Ele segurou meu braço, apertando com força.

— Só... deixa eu te levar.

Não olhei para ele. Eu estava cansada demais para discutir. Apenas deixei que ele me arrastasse até o carro estacionado.

O carro estava em silêncio. O cheiro do perfume da Jovi, aquele aroma leve e floral que era tão a cara dela, ainda pairava no ar. Ele ligou o motor, o barulho alto demais.

Passou um quarteirão. Depois outro.

— Então... ele é seu novo chefe? — Zane perguntou, procurando desesperadamente algo normal.

— Sim.

Mais um quarteirão. A tensão se apertou ainda mais.

— Nerissa, me desculpa tanto. — As palavras explodiram dele. — Isso é tudo culpa minha. Tudo. Por favor... não culpe a Jovi. Ela é frágil. Ela tinha medo dele. Você viu como ele é.

Um som escapou de mim; não foi uma risada, mas um sopro de pura incredulidade.

— No fim, sempre volta pra ela, né? O quanto ela é frágil. O que ela precisa. Do que ela tem medo.

— Ela foi nossa amiga primeiro — ele disse, como se isso tornasse a traição aceitável.

— Era esse o motivo? — Minha voz saiu baixa, quase um sussurro. — Amizade? Quando você estava com ela na nossa cama, foi por lealdade?

Ele fez uma careta, apertando o volante.

— Isso é uma coisa cruel de se dizer.

— Cruel? — Virei para encará-lo. — Eu estava aqui quando ela te deixou por alguém com mais dinheiro. Eu estava aqui pra te ajudar a passar por isso durante meses. A gente construiu uma vida, Zane. — Minha voz tremeu, mas meus olhos estavam secos e ardendo. — Eu era só o plano B? Alguém pra te fazer companhia até ela voltar?

— Não! Eu te amo. Nosso casamento importa... — Ele se atrapalhou, tentando sustentar duas verdades conflitantes. — Mas... é diferente. Com ela, é só... sempre foi ela.

Ainda é ela.

As três palavras ficaram suspensas no ar perfumado, não ditas, mas ouvidas por nós dois.

Pensei em Vance. No jeito como ele tinha olhado para mim no bar, no hotel, no corredor. O lampejo nos olhos dele — não amor, não desejo, mas reconhecimento. Como se ele me enxergasse. Como se sempre tivesse me enxergado.

— Eu não consigo evitar... Quando se trata dela, sempre tem uma parte de mim que quer protegê-la. Que quer colocá-la acima de tudo. Ela sempre foi tão frágil, tão gentil, tão fácil de se machucar, que meu coração dói por ela toda vez que eu vejo as lágrimas dela...

Ele tentou me fazer entender a dor dele, a luta dele, o amor dele. Mas, para mim, tudo aquilo parecia uma lâmina, cortando meu coração em pedaços cada vez que ele me dizia o quão profundo era o amor que sentia por ela.

— Para o carro.

— A gente precisa resolver isso...

Ignorei o apelo dele e estendi a mão para a maçaneta.

— Tá! Tá! — Ele jogou o carro para o acostamento.

Eu já estava fora antes mesmo de o carro parar, batendo a porta com um estalo definitivo. Não olhei para trás. Fui até a calçada, levantei o braço e entrei no primeiro táxi que vi.

— Pra onde? — perguntou o motorista.

— Astera Spire — eu disse.

Não para casa. Não existia casa. Só existia o que fazer em seguida.

O elevador do Astera subiu num trajeto suave e silencioso. Nas portas polidas, meu reflexo me encarava — uma mulher de olhos vazios e maxilar travado. A briga com Zane se repetia na minha cabeça.

Uma lágrima quente caiu, depois outra.

O elevador apitou. As portas se abriram.

Vance Blackwood estava ali, conversando com a assistente. Ele lançou um único olhar para o meu rosto e parou.

A assistente dele, uma mulher afiada na casa dos cinquenta, me viu e se calou.

Eu me virei, limpando depressa a bochecha. Fitei o chão, torcendo para que as portas se fechassem.

— Nos dê um minuto — disse Vance à assistente, a voz baixa. Ela saiu sem dizer nada.

Ele entrou no elevador. As portas se fecharam. Um silêncio pesado preencheu o espaço entre nós. Eu encarei os números, respirando com cuidado, odiando que ele estivesse me vendo assim.

— Você está bem?

A voz dele não foi fria. Foi baixa. Perto.

Eu não confiava em mim para falar. Balancei a cabeça uma vez, um movimento curto e brusco.

Senti ele se mexer ao meu lado. No reflexo, vi que ele hesitou. Ele viu a lágrima na minha bochecha. Algo na expressão dele mudou, um lembrete do hotel, do desastre compartilhado. O maxilar dele se contraiu. Parecia que minhas lágrimas eram um problema que ele não sabia como consertar.

Então, devagar, ele estendeu a mão e apertou o botão “SEGURAR PORTA”. O zumbido parou. Ficamos presos entre andares, numa caixa particular e silenciosa.

Ele não tentou me consolar. Em vez disso, mudou de posição, colocando-se entre mim e a câmera de segurança no canto.

Ele não olhou para mim. Ficou encarando as portas, perfeitamente imóvel.

Mas eu vi. O mesmo lampejo de sete anos atrás. Apareceu e sumiu. Como se ele estivesse olhando para mim e tentando não olhar.

— Harrington está na sala do conselho em quinze — disse ele, a voz baixa. Estava me dando algo sólido em que me apoiar. — Ele está preocupado com os dados da Zenith. Você fez os relatórios da Escandinávia.

Não era uma pergunta. Era uma corda para me puxar de volta.

Engoli em seco, forçando minha voz a funcionar.

— Sim. Os dados brutos mostram um ganho de eficiência significativo que eles estão deixando passar. Eles só estão olhando para o custo.

— Bom. — Ele fez uma pausa. — Pegue os dados. Encontre comigo na sala do conselho em doze minutos. Você vai apresentar as conclusões para ele e para o conselho dele.

Eu olhei para ele.

— Eu? Eu sou analista de dados. O Harrington vai esperar você. Ou o diretor financeiro.

Vance finalmente virou o rosto. Os olhos dele prenderam os meus, e eu não vi pena, e sim um desafio claro e direto.

— Ele vai receber a pessoa que sabe melhor. A pessoa que não tem medo da verdade nos números. Você consegue?

Os olhos dele continuaram nos meus. Calmos. À espera.

Como se ele não estivesse perguntando se eu conseguiria impressionar Harrington.

Como se estivesse perguntando se eu pretendia me levantar de novo.

As lágrimas pararam. A sensação de vazio foi empurrada para o lado por um foco súbito e cortante. Ele não deu tapinhas no meu ombro, mas me deu algo melhor: um trabalho a fazer e um motivo para fazê-lo.

— Sim — eu disse, minha voz se firmando. — Eu consigo.

Ele fez um aceno curto e soltou o botão de “SEGURAR”. O elevador voltou a zumbir. Quando as portas se abriram, ele falou sem olhar para trás, de volta ao modo profissional.

— Doze minutos, Srta. Sullivan.

Ele saiu, me deixando no elevador.

Eu puxei um fôlego fundo, para me estabilizar. Meu reflexo no latão já não mostrava uma esposa chorando, e sim uma mulher com uma tarefa. Eu tinha uma apresentação para preparar.

Zane tinha passado cinco anos me fazendo sentir que eu não era suficiente.

Vance tinha passado menos de cinco minutos me lembrando no que eu era boa.

Caminhei em direção à sala do conselho com uma confiança renovada.

Se o amor não podia me proteger...

Então eu me protegeria.

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