Capítulo 1 Cap 1
Olívia Bennett
Olívia — Vamos, mamãe! Se não fecharmos a loja logo, não conseguiremos chegar em casa a tempo de nos arrumar para a formatura do Mike.
Clarissa — Calma, filha. Já estou indo. Acabei de terminar o relatório de vendas.
Olívia — Não entendo por que a vovó sempre pede esses relatórios. Parece até que não confia no papai, sendo que ele é filho dela.
Clarissa — Minha querida, sua avó sempre foi assim: rígida, gosta de tudo do seu jeito. Mas, no fundo, ela nos ama.
Olívia — Pois é… só se for bem lá no fundo mesmo.
Minha avó é a matriarca da família, já que meu avô faleceu há alguns anos. É ela quem administra a loja de conveniência com mãos de ferro. Meu pai trabalha como gerente, e minha mãe e eu atuamos como vendedoras, faxineiras, repositoras e fazemos tudo o mais que for necessário.
É claro que eu não quero passar a vida inteira aqui. Quero fazer uma faculdade, viajar, conhecer outros lugares. Mas meus pais desejam que eu permaneça na loja e, junto com meu irmão, assuma os negócios quando eles se aposentarem. Sempre fui a filha certinha e obediente, por isso acabei guardando meus sonhos e planos em uma gaveta e seguindo os desejos deles. Já meu irmão é o rebelde da família: impôs sua vontade e ninguém conseguiu fazê-lo recuar. Diante disso, todos tiveram de aceitar sua decisão. No outono, Mike irá embora para cursar a faculdade — ele conseguiu uma bolsa de estudos em Princeton. Confesso que sinto inveja de sua coragem. Devia ter enfrentado meus pais e minha avó para realizar o meu sonho de estudar Arquitetura. A verdade é que fui aprovada em quatro faculdades diferentes, para as quais me inscrevi em segredo no ano passado, logo após me formar. Mas nunca contei isso a ninguém. Apenas Mike sabe, pois encontrou minhas cartas de aceitação escondidas no fundo de uma gaveta do meu quarto.
Ele ficou muito chateado comigo. Disse que eu não podia ceder aos desejos dos nossos pais e que devia lutar pelos meus sonhos. Mas fui covarde… e agora parece que passarei a vida inteira neste lugar.
Chegamos em casa em cima da hora e corremos para nos arrumar. Tomei um banho rápido, abri o guarda-roupa e peguei meu único vestido para ocasiões formais — o mesmo que usei na minha formatura, no ano passado. É vermelho, de modelagem ajustada, mas sem exagero. Não gosto de chamar atenção; na verdade, sou bastante tímida. Calcei minhas sandálias pretas de sempre, de salto médio, e prendi o cabelo em um rabo de cavalo simples. Na maquiagem, apenas um batom nude. Pronto.
Desci as escadas e encontrei meu pai e Mike já prontos, à nossa espera.
Olívia — Já estou pronta.
Mike — É, percebemos. Você está usando seu uniforme de menina sem graça.
Olívia — Nossa! Isso teria me atingido se eu me importasse com a sua opinião.
Respondo, sem esconder o desagrado.
Tom — Mike, não fale assim com sua irmã.
Meu pai repreende meu irmão.
Mike — Não falo por mal. É que nunca vi alguém tão bonita se esforçar tanto para se tornar comum.
Olívia — Não estou fazendo isso.
Clarissa — Está sim, querida. Nesse ponto, concordo com seu irmão.
Olívia — Dá para parar de comentar minha aparência? Estou bem assim. Agora, vamos logo, estamos atrasados.
Tom — Vamos sim. Já passou da hora.
Meu pai segue à frente, acompanhado de minha mãe. Quando vou atrás deles, Mike me puxa pelo braço.
Mike — Falo sério, mana. Precisa parar de se anular para agradar os outros. Sei que se veste assim porque não quer chamar mais atenção do que sua amiga Katy. Ela adora ser o centro das atenções, e você se reduz para que ela se sinta bem. Até quando vai abrir mão dos seus sonhos e deixar de ser você mesma só para agradar aos demais? A vida é uma só e deve ser vivida com intensidade. Não se esqueça disso.
Olívia — Nossa, Mike… quando foi que meu irmãozinho amadureceu tanto assim?
Mike — Ah, não começa com isso! Sou apenas um ano mais novo. Tenho dezoito anos e você acabou de fazer dezenove.
Tom — Vamos, crianças! Está ficando tarde.
Saímos rindo de nossas brincadeiras e entramos no carro, onde meus pais já nos esperavam. Apesar de nossas implicâncias, somos muito próximos. Ele me conta tudo sobre sua vida e eu, sobre a minha — embora eu não tenha lá muito o que contar. Mike é muito popular na escola, capitão do time de futebol e já namorou várias garotas. Eu, por outro lado, sou a menina quieta, que nunca sequer beijou alguém. Mike diz que me apago de propósito e, com isso, afasto todos os rapazes.
Tom — Chegamos!
Meu pai me traz de volta aos pensamentos, visivelmente animado.
Clarissa — Ai, estou tão empolgada!
Mike — É, estamos percebendo. Faltam pouco para vocês dois começarem a pular de alegria no salão.
Olívia — Deixa eles, Mike. Estão orgulhosos. Não é todo dia que o filho se forma com louvor, é o orador da turma e ainda ganha uma bolsa para Princeton.
Clarissa — Você fala como se não tivesse se formado como a melhor aluna da escola. Só não foi a oradora porque cedeu o lugar à sua amiga Katy.
Olívia — A senhora sabe que tenho dificuldade em falar em público.
Mike — Falando nela… por onde anda?
Olívia — Mora em Nova York. Está cursando a faculdade lá.
Clarissa — Vamos nos sentar, a cerimônia vai começar.
Nós quatro nos acomodamos e a solenidade de formatura tem início. Lá fora, um trovão soa forte, anunciando que a chuva está próxima. Para mim, isso é um mau presságio. Morro de medo de tempestades; imagina então estar em um veículo na estrada durante uma chuva forte.
Fico distraída com essa preocupação até que meu irmão sobe ao palco. Meu coração se enche de orgulho. Com desenvoltura e facilidade de expressão, ele comove a todos com um belo discurso. Em seguida, os formandos jogam seus capelos para o alto, encerrando a cerimônia e dando início ao coquetel.
Clarissa — Querido, já chega. Você bebeu três doses. Não se esqueça de que está dirigindo.
Olívia — Se o papai deixasse alguém além dele conduzir o carro, poderia beber sem problemas.
Tom — Ah, isso não! Ninguém toca no meu carro.
Lá fora, a tempestade desaba com força, assim como se previa. Meu coração dispara; sempre fui assim, apavorada com tempestades. Minha mãe começa a bocejar, com sono, e eu roo as unhas de nervosismo.
Tom — Acho que é hora de irmos. Clarissa já está com sono. Vou chamar o Mike e partimos.
Olívia — Não, papai. É melhor esperarmos a chuva passar. Pode ser perigoso dirigir com esse tempo, principalmente depois de ter bebido três drinques.
Tom — Não se preocupe, minha filha. Conheço estas estradas melhor do que ninguém. Além disso, sua mãe já está cochilando e preciso acordar cedo amanhã para receber fornecedores da loja.
Diante de suas palavras, me calo. Sei que, quando ele põe algo na cabeça, nada o faz mudar de ideia. Meu pai vai até Mike, chama-o e logo os dois voltam para partirmos.
Olívia — Achei que ficaria mais tempo e voltaria depois com alguém.
Mike — Não, hoje não é dia de farra. Não se esqueça de que amanhã é o meu último jogo e estamos na final. Preciso estar descansado para garantir o prêmio de artilheiro.
Tom — É isso aí, meu campeão! Vamos embora.
Seguimos para o estacionamento e entramos no carro. Meu pai dá a partida e segue sob uma chuva torrencial. O tempo está péssimo e mal se enxerga a estrada, mas ele não reduz a velocidade. O asfalto está escorregadio e, a cada derrapada, meu coração dispara. De repente, um caminhão aparece em alta velocidade, sem controle. Ele gira na pista em nossa direção. Meu pai tenta desviar, desesperado, mas não a tempo. Um clarão ofusca nossa visão… e a última coisa que vejo é meu irmão olhando para mim, assustado…
