Capítulo 2 Cap 2
Olívia Bennett
Abro os olhos, confusa. Minha visão está embaçada, mas aos poucos tudo vai ganhando nitidez. Estou deitada em uma cama desconhecida, ligada a uma infinidade de fios e aparelhos.
Olívia — Onde estou?
Marcos — Olívia?! Você acordou?!
Olívia — Tio Marcos? O que o senhor está fazendo aqui? Cadê a mamãe e o papai? E onde está o Mike?
Marcos — Calma, Liv. Vou chamar o médico, ele vai conversar com você.
Meu tio sai correndo do quarto — que agora reconheço ser de um hospital. Em pouco tempo ele volta, acompanhado de minha avó. Logo o quarto se enche de médicos e enfermeiros, todos me examinando. Alguns parecem assustados, outros emocionados… e eu, sem entender nada.
Olívia — Alguém pode me explicar o que está acontecendo?
Marcos — Você não se lembra de nada, querida?
Começo a vasculhar a memória e, aos poucos, as lembranças voltam.
Olívia — A última coisa de que me lembro é que estávamos no coquetel da formatura do Mike. Depois começou a chover. Pedi ao papai que esperássemos a chuva passar, mas a mamãe estava com sono e ele decidiu partir mesmo assim. A estrada estava escorregadia e a chuva era tão forte que mal se enxergava o caminho. De repente, um caminhão derrapou e veio em nossa direção… Nós sofremos um acidente!!! Ai, minha cabeça…
Gemo, levando a mão à testa. Só então percebo que estou enfaixada.
Olívia — O que aconteceu? Onde está a minha família?
Olho para o tio Marcos e o vejo chorar sem parar. Já minha avó Margot me encara com expressão severa.
Dr. Miguel — Olívia, sou o dr. Miguel, seu médico. Preciso que se acalme. Você ficou mais de um mês em coma. É verdadeiramente um milagre ter acordado assim, sem nenhuma sequela.
Olívia — Doutor Miguel… por favor, me diga onde estão meus pais e meu irmão. Eu quero vê-los.
Falo, desesperada, imaginando que talvez também estejam internados, assim como eu.
Dr. Miguel — Olívia… sinto muito ter que lhe dizer isso. Infelizmente, você foi a única sobrevivente do acidente. E temíamos que jamais acordasse do coma.
Olívia — O quê? Não… Isso não pode ser… Deve ser uma brincadeira… Não… Não é possível.
Digo, enquanto lágrimas escorrem abundantemente pelo meu rosto.
Olívia — Vovó Margot… me diga que isso é mentira! Eles estão bem, não estão?
Margot — Não, Liv. Eles morreram. E quanto antes aceitar isso, mais rápido conseguirá se recuperar.
Responde-me com frieza.
Olívia — NÃÃÃÃOO!!! Não é verdade!!! Não é verdade!!! Eu quero a minha famíliiaaa!!!
Grito, perdida em desespero. O tio Marcos se aproxima e me abraça, também chorando.
Marcos — Calma, Liv… Precisa se acalmar. Seu tio está aqui com você.
Suas palavras parecem chegar de muito longe. Não respondo; estou perdida em uma dor que não tem fim. Perdi minha mãe querida, meu pai tão bondoso e meu irmão — tão jovem, com toda uma vida pela frente. Ele sim merecia ter ficado. Não eu… que sempre fui covarde, que nunca tive coragem de lutar pelos meus sonhos.
Marcos — Doutor, faça alguma coisa! Ela vai se machucar!
Implora o tio, ao ver-me arrancar os fios e agulhas dos braços.
Dr. Miguel — Vou aplicar um calmante e um sedativo. É o único jeito.
Olívia — Isso não é justo… Eu devia ter morrido! Não eles!! O Mike tinha um futuro brilhante pela frente… Por que comigo?! Eu quero…
Minhas palavras se perdem. Um sono pesado me envolve, e mergulho em uma escuridão que, pela primeira vez, me parece um refúgio — onde não há dor, não há perda, não há tristeza.
Uma semana depois.
Marcos — Tem certeza de que quer fazer isso, Liv?
Olívia — Tenho, tio Marcos. Não pude comparecer ao sepultamento e me despedir deles. Então, quero ao menos visitar seus túmulos e poder chorar em silêncio. Ainda é difícil aceitar que se foram.
Marcos — Eu entendo, minha querida. Vá então… tome o tempo que precisar. Você precisa viver o seu luto. Estarei em casa, esperando para conversarmos.
Olívia — Está bem, tio Marcos. Obrigada.
Abraço-o, pego as chaves do carro e sigo até o cemitério.
Não é difícil encontrar seus jazigos — estão cobertos de flores. Todos aqui na cidade estimavam muito minha família. Mike era querido e popular, meus pais também… e eu? Sempre a menina quieta, sem muitos amigos, sem grandes planos, sem brilho nenhum.
Sento-me diante do túmulo de meu irmão e fico ali, fitando sua lápide, onde uma foto o retrata sorrindo — exatamente como ele sempre fazia. Mike amava sorrir para a vida.
Olívia — Ah, Mike… Eu deveria estar aqui embaixo, não você. Você sim sabia valorizar cada instante. Não eu.
Falo, olhando para sua imagem. E, de repente, nossas últimas palavras, antes de seguirmos para a formatura, ecoam em minha mente: “Até quando vai abrir mão dos seus sonhos e deixar de ser você mesma só para agradar os outros? A vida é uma só e deve ser vivida com intensidade. Não se esqueça disso.”
As lágrimas voltam a rolar ao relembrar suas sábias palavras. Ele soube viver plenamente.
Olívia — Tem razão, maninho. A vida é uma só e deve ser vivida com toda a força. E eu vou viver. Vou seguir em frente e tentar ser feliz… porque sei que é isso que vocês desejariam de mim.
Fico ali mais uma hora, chorando e fitando também as lápides de meus pais. Quando o sol começa a se pôr, decido ir embora.
Olívia — Por algum motivo, Deus me poupou. Não sei por quê… mas prometo que vou aproveitar essa segunda oportunidade. Sei que é isso que vocês querem de mim. Eu juro, irmãozinho… vou lutar pelos meus sonhos. Ainda não sei como, mas conseguirei.
Nesse instante, uma brisa suave toca meu rosto. E tenho certeza de que é o sinal de que eles aprovam minha decisão.
Volto para casa com o coração um pouco mais leve. Depois de desabafar toda a minha dor e, de certa forma, conversar com meus queridos, sinto que posso — e devo — seguir em frente.
Marcos — Olá, querida. Sente-se melhor agora?
Pergunta meu tio, ao ver-me entrar.
Olívia — Sim, tio. Sinto-me bem melhor.
Respondo, abraçando-o.
Meu tio sempre foi como um segundo pai para mim. Apesar de ter sido, de certa forma, afastado da família ao assumir-se homossexual, eu e Mike jamais cortamos laços com ele. Sempre nos falávamos. Eu o amo muito.
Margot — Que bom que chegou, Liv. Precisamos conversar seriamente. Tome seus remédios e venha à sala.
Diz minha avó, com severidade, e sai logo em seguida.
Marcos — Venha, querida. Vou lhe entregar seus remédios. Faz apenas dois dias que recebeu alta, e devemos seguir rigorosamente as recomendações médicas.
Vamos ao quarto, ele me entrega os comprimidos e eu os tomo sem reclamar — mesmo com o gosto horrível que têm.
Olívia — Pronto, tio Marcos. Agora vamos… a vovó não gosta de esperar.
Descemos e sentamo-nos na sala. Mal nos acomodamos e ela já começa a falar.
Margot — Quero você fora daqui ainda hoje, Marcos. Não tem mais motivo para estar aqui. Olívia já se recuperou e seu irmão está morto. Não preciso de um filho afeminado em minha casa para me envergonhar.
Olívia — Vovó!! Não diga uma coisa dessas!! O tio Marcos pode ficar aqui, na minha casa, pelo tempo que quiser. O senhor vai ficar, não vai, tio? Por favor… eu preciso de você.
Digo, abraçando-o.
Margot — Minha casa.
Olívia — Como assim?
Pergunto, sem compreender.
Margot — Digo que esta casa é minha. Ele não vai ficar aqui, e você também não. Decidi vendê-la.
Olívia — O quê?! Como assim?! Esta casa era do papai!
Margot — Não. Está registrada em meu nome. É minha, e vou vendê-la. Você virá morar comigo e continuará trabalhando na loja.
Olívia — Mas vovó… eu cresci nesta casa. Cada canto guarda uma lembrança. A senhora não pode me tirar daqui! É tudo que me restou de meus pais e de Mike.
Margot — Lembranças não enchem estômago. Vou vender a propriedade e você virá morar comigo. Aprenderá a administrar o negócio para assumi-lo no futuro. Agora, você é minha única herdeira.
Olho para ela, indignada. Acabou de perder um filho e fala com essa mesma frieza? E novamente as palavras de meu irmão vêm à minha mente:
“Até quando vai abrir mão dos seus sonhos e deixar de ser você mesma só para agradar os outros? A vida é uma só e deve ser vivida com intensidade. Não se esqueça disso.”
Olívia — Não, vovó! Eu não vou morar com a senhora! E nem vou trabalhar na loja. Não é isso que quero para minha vida.
Falo alto, pela primeira vez, enfrentando-a.
Ela solta uma risada de escárnio antes de responder.
Margot — Ah, é mesmo? E onde pretende morar? E como vai se sustentar?
Marcos — Ela virá morar comigo. Em Nova York.
Margot — Com você? Não seja ridículo.
Marcos — Ao contrário do que pensa, “mãe”, não sou um desamparado. Quando saí daqui, meu pai me auxiliou — pagou meus estudos. Hoje sou executivo em uma das maiores empresas de tecnologia do mundo. Vivo com dignidade. Posso não apenas sustentar a Olívia, como também custear seus estudos. E é exatamente isso que farei.
Margot — Seu pai sempre foi fraco, isso sim. E me surpreende que uma empresa de prestígio contrate alguém como você.
Olívia — O amor sempre foi considerado fraqueza aos olhos da senhora, não é mesmo, vovó? Tio Marcos… eu vou com o senhor.
