Capítulo 3 Cap 3

Olívia Bennett

Margot — Ah, é mesmo?! Pois então vá! Estarei aqui esperando você voltar, derrotada. E quando isso acontecer, passarei o resto da vida relembrando seu fracasso.

Olívia — Eu não vou fracassar. Vou viver, serei livre e, pela primeira vez na vida, vou me colocar em primeiro lugar.

Margot — Voltará sim! Sei o que digo. Não tem a força do seu irmão para nadar contra a correnteza. Ele sim correu atrás dos sonhos, conseguiu uma bolsa e seria alguém na vida. Você? Acomodou-se. Nem ao menos tentou uma vaga na faculdade daqui.

Olívia — O Mike sempre me deu forças para lutar pelos meus objetivos, e continuará sendo a minha força. E a senhora se engana: eu me inscrevi e fui aprovada — com bolsa de estudos — nas quatro faculdades para as quais me candidatei.

Ela me olha, atônita. E eu prossigo.

Olívia — Se não fui embora antes, foi porque fui fraca — como a senhora mesma disse. Cedi à pressão da senhora e dos meus pais, que insistiram para que ficasse aqui e trabalhasse em sua loja. Mas agora basta! Por algum motivo, recebi uma segunda chance de viver. E não a desperdiçarei. Vou embora com o tio Marcos.

Margot — Pois então vão-se os dois! Quero-os fora de minha casa, agora mesmo! E saibam: a partir deste instante, você está deserdada. Assim como essa aberração ao seu lado.

Limpo as lágrimas que insistem em rolar pelo meu rosto, enquanto o tio Marcos fala.

Marcos — Suba e pegue suas coisas, querida. Leve apenas o essencial. O que mais precisar, eu compro quando chegarmos a Nova York. E não se preocupe, dona Margot: nem eu nem a Olívia precisamos de sua herança.

Subo ao meu quarto, pego uma mochila e coloco meus documentos, algumas roupas, artigos de higiene e, por fim, uma fotografia de minha família que fica na mesa de cabeceira, além de uma pulseira com pingente de borboleta — presente do Mike, no dia do meu aniversário.

Desço e encontro o tio Marcos sozinho na sala.

Marcos — Tudo pronto, Liv?

Olívia — Sim, tio. Levei apenas o necessário.

Marcos — E seus documentos?

Olívia — Sim, estão todos aqui.

Marcos — E as cartas de aceitação das faculdades? Tem alguma referente a Nova York?

Sorrio para ele.

Olívia — Claro que sim, tio. O senhor sabe que sempre sonhei em estudar lá, assim como a Katy. Mas faz um ano… creio que perdi a vaga.

Marcos — Apenas pegue a carta. Deixe o resto comigo.

Volto ao quarto, guardo o documento na mochila e desço novamente.

Olívia — Pronto, tio. Já está comigo.

Marcos — Então vamos. Preciso devolver o carro à locadora e seguiremos de táxi até o aeroporto.

Três horas depois, estou a bordo de um avião com destino a Nova York. No peito, uma ferida profunda pela perda de minha família — que certamente levará tempo para cicatrizar. Mas não posso negar: sinto também um fio de empolgação. Sempre foi esse o meu sonho. Só queria que as circunstâncias fossem outras.

Marcos — Liv… preciso lhe contar uma coisa.

Olívia — Pode falar, tio.

Marcos — Eu tenho alguém.

Olívia — Alguém? Como assim?

Marcos — Tenho um companheiro. Moramos juntos há quatro anos.

Olívia — Sério, tio?! Por que nunca nos contou?

Marcos — Sei lá… tinha medo de que você e o Mike me virassem as costas, assim como seu pai e sua avó fizeram.

Olívia — Jamais faríamos isso, tio! Fico imensamente feliz por você. E tenho certeza de que o Mike também estaria feliz, onde quer que esteja. Agora me conte tudo: como se chama? Quantos anos tem? O que faz? E… será que ele vai gostar de mim? Não quero atrapalhar a vida de vocês.

Meu tio sorri e pousa suavemente a mão sobre meus lábios.

Marcos — Calma, Liv! Assim me confunde e não sei por onde começar. Vamos com calma.

Retira a mão e prossegue.

Marcos — Chama-se Robert. Tem vinte e oito anos — oito a menos do que eu. É chef de cozinha e possui um restaurante próprio, muito conceituado aqui em Nova York. Aliás, acaba de receber a classificação de cinco estrelas.

Olívia — Nossa, que elegância! E me diga… é bonito?

Marcos — É um homem notável. Por acaso acha que eu me envolveria com alguém sem graça?

Olívia — Ah, tio… o senhor não tem jeito mesmo.

Respondo, rindo.

Olívia — E como se conheceram?

Marcos — Ele é primo do meu patrão, que também é sócio do restaurante. Fui convidado para a inauguração e… foi amor à primeira vista. Creio que naquele dia o Alex percebeu que eu era gay.

Olívia — Espera… quem é Alex?

Marcos — Ah, sim… meu patrão se chama Alex Fletcher.

Olívia — Esse nome me é familiar… por acaso ele tem alguma ligação com o Grupo Fletcher?

Marcos — É o proprietário, querida. E eu trabalho para ele.

Olívia — Quando disse que trabalhava na maior empresa de tecnologia do mundo, nem me liguei… Nossa, que imponência!

Marcos — Pois é, Liv. E o Robert está ansioso para conhecê-la. Sempre falei muito de você e do Mike para ele.

Olívia — Eu também quero muito conhecê-lo, tio. Quero saber que segredo ele tem para mantê-lo com essa pele tão bela e esse brilho no olhar.

Marcos — Ah, Liv… é melhor nem saber!

Responde, caindo na risada. Só então compreendo o sentido de suas palavras.

Olívia — Tio!!!

Repreendo-o, com o rosto em chamas.

Marcos — Ora, Liv… fala como se nunca tivesse se aproximado de ninguém.

Fico em silêncio, sentindo o rosto queimar. Com certeza, estou mais vermelha do que uma pimenta.

Marcos — Ai, meu Deus… você é virgem?!

Exclama alto, fazendo os passageiros ao redor nos olharem.

Olívia — Pronto! Agora o avião inteiro sabe! Por que não anuncia também que nunca namorei e sequer fui beijada?!

Marcos — Olívia, você vivia em uma cidade do interior, não em um convento! Qual é o seu receio?

Olívia — Meu receio, tio? O senhor já me olhou? Sou aquela garota invisível que ninguém nota.

Marcos — Acho que é você quem precisa de óculos. É linda! Olhe essa pele de porcelana, esses olhos verdes, esse cabelo loiro perfeito… e esse corpo, que faria inveja a qualquer modelo. Roupas à parte — que não fazem justiça a você — sua beleza é inegável.

Olívia — Diz isso porque é meu tio.

Marcos — De forma alguma. O Mike mesmo vivia afastando os rapazes que se aproximavam de você. Era um irmão muito protetor.

Olívia — Eu jamais soube disso.

Marcos — Ele me contava tudo. Por que acha que vivia arrumando confusão?

Olívia — Perda de tempo dele… pois eu nunca quis sair com ninguém.

Marcos — Pois é… praticamente uma freira.

Olívia — Não é isso, tio. É que… não sei. Acho que sou uma romântica incurável. Sempre esperei por alguém que fizesse meu coração bater mais forte. E isso nunca aconteceu.

Marcos — Mas acontecerá, Liv. É apenas uma questão de tempo…

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