Capítulo 5 Cap 5
Olívia Bennett
Tomo um longo banho, visto uma roupa qualquer e me deito na cama macia. Desde que saí do hospital não tenho dormido direito: pesadelos terríveis me trazem de volta ao dia do acidente e isso tem me causado muita insônia. Mas hoje, pela primeira vez, sinto-me tranquila. Tão tranquila que adormeço logo em seguida, em um sono profundo e sem sonhos.
Acordo com o Tio Robert batendo à porta.
Robert — Liv, querida! O almoço está na mesa. Venha comer.
Olívia — Estou indo, tio.
Levanto-me com esforço, vou ao banheiro, lavo o rosto e prendo os cabelos longos em um coque desajeitado. Depois saio à procura da cozinha — não é difícil encontrá-la, guiada pelo aroma delicioso que se espalha pelo apartamento.
Marcos — Sente-se, querida. Estávamos apenas esperando você.
A mesa está farta. Há pratos que reconheço e outros de que jamais ouvi falar, mas todos têm aparência de dar água na boca.
Robert — Não sabia quais eram seus pratos favoritos, então preparei um pouco de tudo. Espero que goste.
Olívia — Não precisava se incomodar, Tio Robert. Eu como de tudo.
Robert — Claro que precisava! Quero que se sinta feliz aqui. Este é o seu almoço de boas-vindas.
Olívia — E já me sinto feliz. Acabei de dormir três horas seguidas sem nenhum pesadelo. Para mim, isso é um excelente sinal.
Marcos — Liv tem tido pesadelos terríveis, meu bem. Há dias não dorme direito.
Robert — Sinto muito, Liv. Se me permite um conselho, acho que deveria procurar um profissional. Talvez fazer terapia…
Marcos — É isso mesmo, Liv. Pode lhe fazer muito bem.
Olívia — Vou pensar a respeito.
A verdade é que não me sinto à vontade para expor minha vida, meus sentimentos e minhas dores a um estranho.
Começamos a comer. Quando levo a primeira garfada à boca, é impossível reprimir um gemido de satisfação — está simplesmente delicioso. O Tio Marcos e o Tio Robert desatam a rir e eu me envergonho profundamente.
Marcos — Não se envergonhe, Liv. Eu tive exatamente a mesma reação na primeira vez que provei a comida do Robert.
Olívia — Acho que nunca comi algo tão bom em toda a minha vida. Está maravilhoso.
Marcos — Não é à toa que o restaurante do meu amor recebeu a classificação de cinco estrelas. Ele é um talento sem igual.
Robert — Agora é eu quem fico sem graça… Que bom que gostaram. Preparei tudo com muito carinho.
Seguimos comendo em conversa amena, até que o Tio Marcos volta a falar.
Marcos — Liv, querida… entregue-me os documentos da faculdade depois. Amanhã mesmo providenciarei tudo para que possa começar a estudar. Na semana que vem as aulas se iniciam e você entra como caloura, sem perder nenhuma matéria.
Olívia — Pensei que as aulas só começariam no outono, daqui a alguns meses.
Marcos — Não, querida. Isso é apenas em Princeton.
Robert — Faculdade?! E eu que imaginava que você trabalharia como modelo!
Olívia — Eu, modelo?! Já reparou no meu tamanho, Tio Robert?
Robert — Na verdade, não tem a altura ideal para passarela. Mas faria um sucesso imenso em campanhas publicitárias.
Olívia — O senhor já olhou bem para mim, Tio Robert?
Robert — Claro que sim. Acho que é você quem não se olha no espelho. Com esse rosto perfeito, essa pele de porcelana, esses olhos verdes e esse cabelo loiro — tom que muitas mulheres passam a vida em salões e jamais conseguem alcançar — sem contar esse corpo que, mesmo escondido por essas roupas largas, vejo que deixa qualquer modelo da Victoria’s Secret no chinelo.
Marcos — Disse exatamente a mesma coisa, Robert. Ela é deslumbrante. Mas ela não acredita.
Olívia — É que quando me olho no espelho, não vejo essa mulher tão bela que vocês descrevem.
Marcos — É porque cresceu ao lado de alguém que sempre alimentou suas inseguranças… para se sobressair e chamar mais atenção do que você.
Olívia — O Mike lhe contou, não é? Mas a Katy era minha amiga, Tio.
Marcos — Se você diz… Mas o Robert tem razão. Marcas de beleza e cosméticos enlouqueceriam por você. Disputariam sua atenção.
Robert — Tenho contatos em uma agência muito conceituada aqui em Nova York. Eles poderiam lhe orientar.
Olívia — Agradeço de coração, mas não é esse o meu caminho. Imaginem-me posando de biquíni para todos verem?! Não… isso não sou eu. O que desejo de verdade é cursar Arquitetura e Paisagismo. Esse sempre foi meu sonho.
Marcos — Compreendo e respeito. Mas se mudar de ideia, é só falar.
Terminamos o almoço em animada conversa. O Tio Marcos me conta os lugares que pretende me levar para conhecer. Decidimos aproveitar o resto do dia para passear juntos — é domingo, ele só retorna ao trabalho amanhã, e o Tio Robert abrirá o restaurante apenas à noite.
Visitamos vários pontos turísticos e depois fomos ao shopping. Insistem em comprar roupas para mim, mas peço moderação e levo apenas duas calças de moletom e dois suéteres.
Robert — Liv, querida… com essas roupas vão confundi-la com um menino!
Marcos — Robert, não incomode! Se ela se sente assim mais à vontade, está tudo bem.
Robert — Ah, Liv… por favor, deixe-me comprar ao menos um vestidinho. Faça-me esse agrado.
Olívia — Está bem… mas nada muito curto.
Ele sorri como uma criança que acabou de ganhar um presente e me puxa pelo shopping.
Marcos — Pronto… agora acordou a fera.
Em um piscar de olhos, estou carregada de sacolas. Vestidos, peças de todos os tipos, caixas de sapatos e até lingeries.
Olívia — Agora compreendo o que quis dizer, Tio Marcos. Tio Robert, basta! Nem tenho tantas ocasiões assim para usar tudo isso!
Robert — Está bem, por hoje é o suficiente. O resto compro sem você me impedindo.
Olívia — Não, Tio Robert! Não preciso de mais nada, e não quero que gastem tanto comigo.
Marcos — Deixe ele, Liv… não vê o quanto isso o alegra? Além disso, queremos cuidar de você.
Robert — Já está ficando tarde. Preciso ir ao restaurante. Que tal um jantar por minha conta? E assim você conhece meu bebê.
Olívia — Bebê? Que bebê?
Marcos — O restaurante, Liv.
Explica, rindo.
Olívia — Ah, claro! Adoraria conhecer seu restaurante, Tio Robert.
Guardamos as compras no porta-malas e seguimos até o The Modern. Ao chegar, fico deslumbrada com o lugar: fica no último andar de um edifício altíssimo, e os clientes saboreiam pratos maravilhosos com uma vista de tirar o fôlego. Gostei tanto do ambiente que ficamos até a noite cair, esperando o Tio Robert encerrar as atividades para irmos juntos. Assim foi meu primeiro dia em Nova York — um dia perfeito.
No dia seguinte, acordo com o Tio Marcos batendo à porta. Olho o relógio: oito e meia da manhã.
Marcos — Liv, querida… está acordada?
Olívia — Estou, tio. Já vou abrir.
Marcos — Perdão por acordá-la. Preciso da carta de aceitação da faculdade de Nova York.
Olho para ele, impressionada. Está impecável em um terno preto sob medida.
Olívia — Uau, tio… está um gato!
Marcos — Gostou?
Diz, fazendo um pequeno desfile.
Olívia — Gostei muito! O Tio Robert deve enlouquecer quando o vê assim.
Marcos — Ele gosta bastante, sim…
Olívia — Vou buscar a carta.
Abro a gaveta da mesa de cabeceira e a pego, com o coração cheio de esperança.
Olívia — Aqui está.
Marcos — Ótimo. Quando voltar à noite, já terei uma resposta para você.
Deixa um beijo em minha testa e sai para o trabalho. Como não estou acostumada a dormir até tarde, volto à cama e descanso mais um pouco. Depois me levanto e decido preparar o almoço para o Tio Robert, que ainda dorme. Afinal, se vou morar aqui, preciso ajudar no que puder…
