Capítulo 6 Cap 6
Olívia Bennett
Dois dias depois.
Robert — O que está fazendo com esse jornal, Liv?
Olívia — Estou procurando um emprego.
O Tio Robert está de saída para o restaurante. Nestes dias tenho ido com ele e ajudo na cozinha, lavando pratos e mantendo tudo limpo. Sinto-me útil assim. Quando o Tio Marcos sai do trabalho, vai até lá e voltamos os três juntos.
Robert — Liv, querida… sabe que o Marcos não quer que você trabalhe. Ele deseja que se dedique aos estudos.
Olívia — Eu sei. Mas posso conciliar as duas coisas. Não quero viver às custas de vocês; também desejo contribuir.
Robert — Olhe, querida… você é da família. Temos recursos de sobra para viver com tranquilidade. Então não se preocupe. Façamos assim: continue ajudando no restaurante e eu lhe pago um salário justo.
Olívia — De forma alguma! Ajudo com todo o prazer e jamais aceitaria pagamento por isso.
Robert — Mas a verdade é que estamos precisando de mais uma mão aqui. Eu já ia publicar um anúncio para contratar um auxiliar de cozinha. Esse horário não conflitará com suas aulas, e o Marcos não ficará contrariado.
Olívia — Está bem… trabalharei para o senhor. Mas todo o valor será destinado às despesas da casa.
Robert — De forma nenhuma. Esse dinheiro é seu, para gastos pessoais. Ou então o Marcos lhe concederá uma mesada mensal — já havíamos conversado sobre isso.
Olívia — Mesada?! Jamais aceitaria! Fui criada para trabalhar, Tio Robert.
Robert — Então combinado: você trabalha aqui e recebe seu salário. Ponto final.
Olívia — Está bem… mas registro aqui minha insatisfação. Não me parece justo morar aqui e não colaborar com as despesas.
Robert — Você já colabora. Sua presença nos traz alegria, e isso basta.
Depois de um longo ritual de cuidados pessoais — pois o Tio Robert é muito caprichoso — finalmente partimos para o restaurante. A noite está movimentada e não paro um instante sequer.
Devan — Robert, o senhor Fletcher está aqui, acompanhado do Marcos.
Ouço a voz de Devan, o maître do estabelecimento.
Robert — Ah, o Alex veio jantar! Faz alguns dias que não aparece. Vou cumprimentá-lo.
O Tio Robert se afasta e Devan se aproxima de mim.
Devan — Parabéns! Fiquei sabendo que agora é oficialmente funcionária do The Modern.
Olívia — Obrigada. Sim, estou aqui todos os dias.
Devan — Que ótimo! Afinal, finalmente teremos algo bonito para se olhar nesta cozinha.
Equipe — Uauuu!!!
Exclamam os demais em uníssono, entre risadas. Sinto o rosto queimar de vergonha.
Olívia — Obrigada… eu acho.
Mauro — Vejam só, ela é tímida! O rosto está vermelho como uma pimenta!
Brinca Mauro, o subchefe, provocando mais risadas.
Devan — Então, Olívia… estava pensando: em nosso dia de folga, aceitaria sair comigo?
Lucy — Não caia nela, Olívia! Esse aí é o maior galinha da equipe!
Adverte Lucy, a sommelière. É muito gentil comigo; apesar de ser mais velha, já a considero minha primeira amiga aqui. Até combinamos de sair no domingo, dia em que o restaurante fecha para balanço.
Mauro — É isso aí, não se deixe enganar! Ele não perdoa ninguém!
Devan — Pessoal, assim acabam com minha reputação diante da moça!
Moça… nunca me vi dessa forma.
Olívia — Olha, Devan… a Lucy e eu combinamos de sair no domingo. Se quiser, pode vir conosco. Não é, Lucy?
Lucy — Claro! Quanto mais gente, melhor!
Responde, sorrindo e compreendendo imediatamente minha intenção de convidá-lo apenas como amigo.
Devan — Não é o encontro que eu desejava, mas serve!
Todos riem dele, até que meu tio entra e o ambiente se cala imediatamente, cada um retomando sua tarefa.
Robert — Nossa, gente… pareço até um monstro! Até o clima mudou!
Devan — Vou voltar ao trabalho.
Diz, afastando-se depressa, provavelmente temendo a reação do Tio Robert ao saber do convite.
Robert — Liv, querida… pare um instante. O Marcos quer falar com você.
Olívia — Onde ele está?
Robert — Em sua mesa habitual.
Lavo as mãos e as seco no avental antes de sair.
Robert — Tire o avental e a touca. Não é adequado que os clientes a vejam assim.
Faço o que pede. Fico com o uniforme branco — calça justa e blusa social. Ao retirar a touca, o coque se desfaz e meus cabelos caem em cascata pelas costas até a altura dos quadris. Droga… preciso cortá-los. Estão enormes.
Mauro — Nossa, menina! Estava escondendo o jogo! Parece uma atriz de Hollywood!
Lucy — Ela é linda mesmo. Não é à toa que o Devan ficou encantado.
Robert — O quê?! O Devan convidou minha sobrinha para sair?! É melhor ele se manter bem longe de você!
A cozinha explode em risadas. Para não passar mais vergonha, saio de fininho.
Caminho entre as mesas até a que ocupam. Meu tio está de frente para mim; ao seu lado, um homem de costas. Não consigo ver seu rosto, mas já percebo sua aura de autoridade. Lembro-me então do que Devan disse: o senhor Fletcher está aqui. Deve ser o tal patrão do Tio Marcos.
A cada passo, meu coração bate mais forte e um frio na barriga se intensifica. O Tio Marcos conversa animadamente com o homem, e preciso chamá-lo para ser notada.
Olívia — Tio Marcos…
Ele finalmente me vê e sorri.
Marcos — Liv, querida… venha até aqui.
Nesse instante, o homem se vira. Nossos olhos se encontram e o tempo parece parar. Sinto a respiração falhar e aquele frio na barriga triplicar.
Diante de mim está o homem mais belo e imponente que já vi. Pele morena clara, cabelos castanhos-escuros, lisos e perfeitamente penteados. Rosto de traços firmes, com a barba bem cuidada. Tem uma presença máscula que certamente atrai todos os olhares. Mas seus olhos… são de um tom único, como um céu profundo antes da chuva — azul-escuro, brilhantes como safiras. Mesmo sentado, percebo o porte atlético e os músculos definidos. Ele me observa com intensidade, despertando em mim sensações que jamais havia sentido. E isso me assusta.
Marcos — Liv, querida… está me ouvindo? Venha.
Suas palavras me trazem de volta à realidade.
Marcos — Desculpe, Alex. A Liv é um pouco tímida.
Pronto… agora estou ainda mais envergonhada. Se já me sentia pequena diante de tanta beleza, agora estou vermelha como um tomate.
Aproximo-me e meu tio faz a apresentação formal.
Marcos — Esta é minha sobrinha, de quem tanto lhe falei. Olívia Bennett.
Alex — Olá, Liv. É um prazer conhecê-la.
Diz com uma voz grave e envolvente, segurando minha mão. Ao toque dele, uma corrente elétrica percorre todo o meu corpo e a pele se arrepia. Assustada, retiro a mão depressa. Ele me olha, confuso, mas logo recompo-se. Será que sentiu o mesmo?
Olívia — O prazer é todo meu, senhor Fletcher.
Parece estranho tratá-lo assim; aparenta ser jovem, talvez uns vinte e sete ou vinte e oito anos.
Marcos — Liv, chamei-a aqui porque tenho uma excelente notícia. O Alex é um dos benfeitores da universidade. Ele usou de sua influência e conseguiu reativar sua bolsa de estudos. Ficaram muito satisfeitos em receber uma aluna tão promissora quanto você.
Olívia — Sério, Tio Marcos?! É maravilhoso! Muito obrigada!
Exclamo, radiante, abraçando-o.
Marcos — Não me agradeça. Agradeça ao Alex. Foi ele quem providenciou tudo.
Volto-me para ele, ainda emocionada.
Olívia — Ah… obrigada, senhor Fletcher. Isso significa muito para mim.
Ele não desviou o olhar um só instante. Agora, sorri de um modo que me deixa sem ar.
Alex — Não foi nada, Liv. Foi um prazer poder ajudá-la.
Sua voz me causa arrepios — e não de medo. Sinto-me profundamente fascinada por aquele homem, e isso me apavora.
Por sorte, o garçom chega trazendo o jantar dos dois. Despeço-me e saio, finalmente conseguindo respirar…
