Capítulo 7 Capítulo 7

Alex Fletcher

Hoje o dia tinha tudo para ser como qualquer outro. Acordei, tomei um banho, vesti meu terno italiano, tomei café e fui trabalhar. No caminho, conferi as ligações e mensagens perdidas: todas eram de minha mãe e de Nicole, minha entediante noiva. Não retornei nenhuma ligação, nem respondi nenhuma mensagem. As duas foram a Paris juntas providenciar o enxoval de um casamento que jamais aconteceria. Com certeza estouraram os cartões de crédito e agora me ligam pedindo dinheiro — e não é porque sou rico que vou sair gastando à toa.

Nunca tive a intenção de me casar com Nicole. Na verdade, esse noivado foi invenção dela e de minha mãe, Jessé. Divulgaram a notícia em um jornal de fofocas e eu não desmenti. Mas agora as coisas tomaram proporções exageradas: já escolheram até a igreja onde, na cabeça delas, acontecerá a cerimônia. Decidi, portanto, pôr um ponto final nessa história. Quando perceberem que não enviarei mais dinheiro, voltarão a Nova York e tudo será esclarecido. Já está na hora de mandar Nicole embora. Ela é atraente e na cama se sai bem, mas é demasiadamente fútil e age como se tivesse direitos sobre mim.

No trabalho, tudo transcorreu normalmente: reuniões intermináveis, projetos encaminhados, contratos assinados. Quando percebi, o dia já havia terminado.

O telefone tocou e atendi, torcendo para que minha secretária tivesse seguido minhas ordens e não passado nenhuma ligação de minha mãe ou de Nicole.

Alex — Pois não.

Mia — Senhor Fletcher, o senhor Marcos e o senhor Lian estão aqui.

Alex — Mande-os entrar.

Um minuto depois, meus dois melhores amigos adentram a sala. Lian é meu amigo de infância; crescemos juntos. Era filho de minha babá, Dona Laura. Meu pai custeou-lhe os estudos e, ao nos formarmos, o trouxe para a empresa, onde hoje é meu vice-presidente. Já Marcos trabalha aqui desde a época em que meu pai era vivo. É um de meus funcionários mais capazes e considerado parte de minha família, sendo companheiro de meu primo Robert — com quem sou sócio no restaurante mais badalado da cidade, agora agraciado com cinco estrelas.

Marcos — Ia convidá-los para jantar comigo no The Modern, mas o Lian já tem compromissos para esta noite. E você, Alex?

Alex — Acho que um bom jantar cai bem. Aceito.

Lian — Pensei que iria comigo à boate conhecer algumas belas mulheres.

Alex — Hoje não. Preciso mesmo passar por lá e ver como ficou após a reforma; ainda não fui conferir. Mas deixarei isso para o fim de semana.

A Paradise Club faz parte de uma rede de casas de espetáculos espalhadas pelo país, da qual sou sócio majoritário. Embora minha prioridade seja a empresa de tecnologia, também invisto em outros ramos: possuo rede de boates, restaurantes e atuo no mercado imobiliário, com diversos imóveis comerciais e residenciais nas regiões mais valorizadas — não apenas em Nova York, mas em outros países. É um setor promissor e bastante lucrativo.

Lian — Sendo assim, me despeço. Esta noite pretendo me divertir bastante.

Alex — Não se esqueça de que amanhã trabalhamos.

Lian — Não se preocupe. Não irei embriagar-me; apenas quero desfrutar a companhia de mulheres.

Marcos — Cuidado para não exagerar.

Lian — Pode deixar comigo. Até amanhã, rapazes. Bom jantar.

Meu amigo se retira animado. Normalmente eu o acompanharia — afinal, mesmo "noivo", isso nunca me impediu de estar com quem eu desejasse. Mas hoje não estou com disposição; desejo apenas saborear um bom jantar e depois voltar para casa descansar.

Marcos — Então, vamos?

Alex — Vamos. Mas antes, tome isto.

Entrego-lhe a documentação de matrícula de sua sobrinha na universidade. Ele havia me solicitado isso há alguns dias e só ontem consegui providenciar. Não foi difícil: a jovem havia conquistado uma bolsa integral há algum tempo, mas não se matriculou e a vaga foi repassada a outro aluno. Contudo, seu lugar não foi perdido, visto que havia sido aprovada com excelência. Pelo que li em seus registros, é muito inteligente. Uma garota de talento.

Marcos — Que notícia maravilhosa! Liv ficará radiante. Mal posso esperar para contar-lhe. Muito obrigado, Alex. Isso significa muito para ela; representa um recomeço após tudo o que perdeu.

Alex — Não há de quê. Aliás, ainda não tive ocasião de lhe apresentar meus pêsames. Sinto muito pelo ocorrido com sua família.

Marcos — Foi de fato uma tragédia. Mas estamos nos reerguendo. Minha sobrinha é tudo que me resta e desejo que possa reconstruir sua vida aqui e ser feliz.

Diz com tristeza nos olhos. Uma tristeza que reconheço bem. Há dez anos perdi meu pai, vítima de um infarto fulminante, e a dor da perda me acompanha até hoje — creio que para sempre.

Alex — Compreendo perfeitamente. Sua sobrinha tem sorte de tê-lo.

Marcos — E eu tenho sorte de tê-la. Mas vamos jantar antes que eu me emocione aqui diante de você.

Alex — Pois vamos. Não suporto ver mulheres chorando; ver um homem feito assim, então, é pior ainda.

Ao chegarmos ao The Modern, dirigimo-nos à mesa que nos é sempre reservada. O maître logo nos atende e, após escolhermos o vinho e os pratos do dia, Robert surge para nos receber, visivelmente feliz com a placa de cinco estrelas recém-concedida ao estabelecimento.

Robert — Olá, meu bem.

Cumprimenta Marcos com um beijo rápido.

Robert — Alex, que satisfação em vê-lo! Faz tempo que não aparece por aqui. Não pode deixar nosso negócio às moscas.

Alex — Nosso negócio, primo. E não está abandonado. Confio em você e sei que cuida deste lugar como se fosse seu próprio filho.

Marcos — É verdade. Às vezes até sinto ciúmes de tanto zelo.

Robert — É que o amo de verdade. E agora, com essas cinco estrelas, estou no auge.

Alex — Parabéns, primo. É mais do que merecido. Você é um chef de talento excepcional.

Robert — Sem falsa modéstia, de fato o sou. Já fizeram seus pedidos?

Marcos — Sim. Queremos os pratos especiais da casa.

Robert — Pois então, deixem-me prepará-los. Mais tarde retorno à mesa e não se esqueçam de pedir a sobremesa.

Marcos — Querido, a Liv veio ajudar hoje?

Robert — Não apenas veio: agora é minha mais nova funcionária.

Marcos — Como assim?! Fui claro ao dizer que não desejo que ela trabalhe. Deveria dedicar-se apenas aos estudos.

Robert — E você não conhece a teimosia dela? Hoje estava com um jornal, examinando os classificados. Disse que, ao morar conosco, deseja colaborar. Não tive alternativa senão trazê-la. É preferível tê-la aqui do que em alguma lanchonete frequentada por gente duvidosa.

Marcos — Conversarei com ela. Deixei claro que não precisa se preocupar com despesas, apenas estudar.

Alex — Olhem, sei que não me cabe opinar, mas se me permitem... essa postura revela apenas o caráter dela. Deixem que trabalhe aqui. O horário não interferirá nas aulas e, além disso, sentir-se-á útil e terá a mente ocupada.

Robert — Alex tem razão. Liv é daquelas jovens ativas; não aceitará ser mantida sem contribuir.

Marcos — Está bem. Cederam. Mas se isso prejudicar seu aproveitamento escolar, terá de deixar o emprego.

Robert — Combinado. Agora, deixem-me ir à cozinha.

Marcos — Peça à Liv que venha até aqui. Alex conseguiu reativar sua matrícula. Começa as aulas na segunda-feira.

Robert — Que notícia maravilhosa! Ficará radiante. Muito obrigado, primo!

Alex — Não há de quê.

Claro que não mencionei que, como um dos principais benfeitores da instituição, minha palavra pesou bastante na decisão do reitor. Afinal, não arriscaria contrariar-me e perder meu generoso apoio mensal.

Robert retorna à cozinha e Marcos e eu seguimos conversando sobre negócios e projetos. Até que, em meio ao som do ambiente, escuto uma voz doce e suave chamar:

Olívia — Tio Marcos...

Ao ouvi-la, a curiosidade tomou conta de mim. Virei-me imediatamente para conhecer a dona daquela voz encantadora. E dizer que fiquei impressionado é pouco. A poucos metros de pé, estava a mulher mais bela que já vira. Uma loira de beleza deslumbrante. Jamais imaginara que a sobrinha de Marcos fosse tão radiante. Tem cabelos longos e dourados, olhos de um verde intenso, lábios perfeitos e um corpo... curvas que parecem desenhadas à mão. E o mais admirável: tudo é natural. A jovem foi agraciada com uma beleza que faria qualquer mulher sentir inveja.

Fico sem palavras. Ela permanece imóvel por um instante e seus olhos encontram os meus. É como se o tempo parasse. Sinto que ela enxerga além de mim. De modo geral, jovens de sua idade costumam chamar pouco minha atenção. Tenho vinte e sete anos, ainda jovem, mas prefiro mulheres mais experientes, que sabem o que desejam. Porém ela... ela é diferente. De um modo que não consigo explicar.

Marcos — Liv, querida... está me ouvindo? Venha até aqui.

Ela parece despertar de um transe e aproxima-se.

Marcos — Perdoe-a, Alex. Liv é bastante tímida.

Mal presto atenção às palavras de meu amigo. Meus olhos não conseguem desviar-se dela.

Marcos — Esta é minha sobrinha, de quem tanto lhe falei. Olívia Bennett.

Alex — Olá, Liv. É um prazer conhecê-la.

Olívia — Olá. O prazer é meu, senhor Fletcher.

Fala, e eu observo seus lábios, imaginando tudo o que gostaria de fazer com eles. Nunca uma mulher me causou tamanha impressão à primeira vista. Isto é inédito para mim.

Marcos — Liv, chamei-a aqui porque tenho uma excelente notícia. Alex é um dos benfeitores da universidade e, com sua ajuda, conseguimos reativar sua matrícula. A instituição ficou feliz em recebê-la como aluna.

Olívia — Sério, Tio Marcos?! É maravilhoso! Muito obrigada!

Exclama, abraçando o tio com alegria. E, sem perceber, sinto-me quase sorrindo também. Estranho.

Marcos — Não me agradeça. Agradeça ao Alex. Foi ele quem providenciou tudo.

Ela me olha, tímida.

Olívia — Ah... obrigada, senhor Fletcher. Isso significa muito para mim.

Não resisto e sorrio de volta. É impossível não sorrir para alguém tão autêntica e leve. Ela é diferente de todas que conheci até hoje.

Alex — Não foi nada, Liv. Foi um prazer poder ajudá-la.

Nesse instante, o garçom chega trazendo o jantar. E Liv, visivelmente envergonhada, despede-se e volta à cozinha...

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo