Capítulo 3 Recomeço
Samantha mostrou a Lucca o vídeo que ele havia divulgado, desta vez sem qualquer efeito ocultando seu rosto.
De fato, Samantha tinha muitos amigos, e vários deles não ficaram nada satisfeitos ao ver uma mulher sendo humilhada daquela forma.
— Só me entristece pensar em todo o tempo que minha amiga dedicou para ajudar você a melhorar de nota. Porque, daqui para frente, elas não vão servir para mais nada.
Ela sorriu outra vez.
— Agora vamos aguardar a reação do reitor quando assistir ao vídeo completo. Tenho certeza de que nem você nem seus amigos terão mais motivos para rir.
Naquele instante, Lucca avançou na direção de Samantha. Porém, como muitas pessoas haviam testemunhado a cena e ela era bastante conhecida na universidade, alguns rapazes imediatamente se colocaram ao lado dela.
Ele parou imediatamente.
Lucca podia ser cruel, mas não era burro.
— E tem mais... — ela disse, voltando o olhar para as garotas que acompanhavam Lucca. — São mulheres como vocês que desvalorizam outras mulheres e tornam nossa luta diária ainda mais difícil. Vocês são uma vergonha para todas nós.
Assim que terminou de falar, o reitor e um dos professores da universidade se aproximaram para verificar o que estava acontecendo.
Afinal, havia uma multidão de alunos reunida ao redor da discussão.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou o reitor.
— Reitor, este grupo de alunos divulgou para toda a universidade um vídeo com o objetivo de humilhar e degradar a imagem de outra estudante.
Ela entregou o celular aos dois.
— Vale mencionar que o vídeo recebido por todos ocultava o rosto do rapaz por meio de um efeito de edição.
O professor franziu a testa.
— Como conseguiu a versão original do vídeo, Srta. Samantha?
— Tenho alguns amigos da área de TI. Eles conseguiram remover o efeito que ocultava o rosto dele.
O reitor devolveu o aparelho.
— Onde está a aluna envolvida?
Eu permanecia completamente paralisada diante de tudo aquilo.
Foi Samantha quem me trouxe de volta à realidade.
— Alice, venha. Está na hora de fazer esses idiotas responderem pelo que fizeram.
Respirei fundo e caminhei até eles.
— Esta é Alice Fonseca, senhor.
Ele me observou por alguns segundos.
— Muito bem. Os envolvidos nos acompanhem até a reitoria. Quanto aos demais, apaguem imediatamente qualquer cópia desse vídeo.
Seu olhar percorreu todos os presentes.
— Quem voltar a compartilhá-lo também responderá criminalmente por isso. O que fizeram com esta aluna é vergonhoso. A universidade adotará todas as medidas disciplinares cabíveis e, inclusive, oferecerá apoio jurídico à vítima.
Aquele foi o ano mais turbulento da minha vida.
Como todos nós já éramos maiores de idade, a presença dos nossos responsáveis não era obrigatória. Ainda assim, qualquer aluno poderia ser acompanhado por um advogado durante o processo.
Ao final do processo administrativo da universidade, conforme previa o regimento interno, todos os estudantes envolvidos naquele crime foram expulsos por decisão disciplinar.
Todos, exceto eu.
Eu era a vítima.
Minha mãe, que era advogada, ingressou com uma ação judicial contra todos os responsáveis. Graças à sua experiência, o processo tramitou rapidamente, e obtivemos uma indenização significativa, principalmente da família de Lucca.
No entanto, minha mãe ainda não sabia que aquela história estava longe de terminar.
Quando contei aos meus pais sobre a gravidez, o choque foi inevitável. Mesmo assim, eles me acolheram.
Deixei claro que registraria minha filha como mãe solteira.
Recebi o apoio incondicional deles e do meu irmão.
Não mudei de universidade.
Como Samantha sempre dizia, meu único erro foi confiar na pessoa errada. Ainda assim, superar aquilo foi extremamente difícil.
Durante muitos dias, desejei acordar e descobrir que nada daquilo havia acontecido.
Confesso que chorei incontáveis noites nos ombros de Samantha.
Ela repetia, sempre com a mesma firmeza, que eu não tinha culpa de absolutamente nada e que jamais me deixaria enfrentar aquilo sozinha.
Até que, certa noite, minha mãe me ligou e comentou que aquele idiota havia se mudado para outro país.
Procurei seu perfil no Instagram.
Vi fotos da nova universidade.
Ele aparecia sorrindo, como se nada tivesse acontecido, acompanhado da legenda: “Um cara de sorte.”
Estranhamente, foi justamente naquele momento que encontrei forças para voltar a ser quem eu era antes dele.
Passei a me cercar de novos objetivos. Voltei a estudar com dedicação. Voltei a sonhar. Voltei a viver.
Também deixei de lamentar uma história que, no fim das contas, só existiu para mim.
Aprendi que só somos atingidos com tanta força quando abaixamos a guarda. Mas também compreendi que aquela dor já havia me ensinado tudo o que precisava.
Naquele dia, prometi a mim mesma que jamais voltaria a depositar minhas expectativas em outra pessoa.
Eu seguiria em frente.
Sem arrependimentos.
Sem olhar para trás.
Afinal, aquela experiência me transformou. Ela me fez crescer.
Algumas semanas depois de todo aquele caos, fui à consulta de pré-natal.
Apesar de tudo o que havia acontecido, eu estava completamente encantada pela vida que crescia dentro de mim.
Meu corpo começava a mudar.
E, depois da primeira ultrassonografia, aquela pequena vida tornou-se o centro do meu universo.
Tudo passou a girar ao redor dela.
Mais do que nunca, eu estava determinada a concluir minha graduação e construir um futuro digno para minha filha.
Sabia que precisaria reorganizar toda a minha rotina. Em algum momento, faria uma pausa para trazê-la ao mundo, mas não permitiria que aquilo interrompesse meus sonhos.
Pouco a pouco, minha vida começou a voltar aos trilhos.
As expectativas eram diferentes.
Os planos também.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu voltava a me sentir inteira.
Aprendi que, muitas vezes, é justamente dos lugares mais improváveis que surgem os maiores apoios.
Oito meses depois de tudo aquilo, segurei minha filha nos braços pela primeira vez.
Nunca havia sentido uma emoção tão intensa.
Ela era perfeita. Linda em cada detalhe.
Seu nome era Melissa. Minha Mel.
Ela herdara os olhos cor de oceano de Lucca, intensos e hipnotizantes. Bastava um sorriso para conquistar qualquer pessoa ao seu redor, como se carregasse a própria luz do sol.
Às vezes, aqueles olhos despertavam em mim lembranças que eu preferia esquecer.
Por um breve instante, a dor do passado insistia em voltar. Mas bastava Mel sorrir para que tudo desaparecesse.
Ela jamais seria um lembrete de Lucca.
Ela era minha filha, fruto da minha força, da minha coragem e da minha decisão de seguir em frente. Ela não era a continuação da história de Lucca. Era o começo da minha.
Nunca, em toda a minha vida, senti um amor tão absoluto quanto aquele.
Com o apoio da minha família, consegui concluir a graduação em Pedagogia e também Psicopedagogia que havia iniciado antes de toda aquela tragédia.
Sentia orgulho de mim mesma por não ter desistido.
Era profundamente grata a Samantha e aos meus pais por jamais terem me abandonado e por dividirem comigo os cuidados com Mel.
Todo o processo envolvendo Lucca correu sob sigilo judicial. Minha mãe fez questão de garantir que nada fosse divulgado, protegendo meu futuro e o da minha filha.
Depois da formatura, estabeleci novas metas.
Pela primeira vez em muito tempo, senti que minha vida finalmente seguia na direção certa.
