Capítulo 4 Limiar
(Dias Atuais)
Nunca procurei saber quanto minha mãe recebeu de indenização no processo contra a família de Lucca e os demais envolvidos.
No entanto, apenas os juros acumulados durante aqueles cinco anos foram suficientes para comprar uma casa para mim e para Melissa.
Samantha veio morar conosco no início, mas, algum tempo depois, os pais dela lhe deram uma casa de presente no mesmo condomínio onde eu morava. Basicamente, éramos vizinhas, além de ela ser a madrinha de Melissa.
Incentivada pela minha terapeuta, matriculei-me em uma academia de aeróbica.
Samantha foi a primeira a apoiar a ideia. Disse que cuidaria de Melissa enquanto eu estivesse treinando.
No começo, não fiquei muito animada. Sentia dores por todo o corpo, mas, com o passar das semanas, fui me acostumando aos exercícios.
Além disso, consegui uma carta de recomendação do reitor da universidade para concorrer a uma vaga como professora em uma conceituada escola.
Ainda assim, precisava passar por uma rigorosa entrevista.
Grande parte dos alunos daquela instituição pertencia a famílias influentes e muito bem-sucedidas, que valorizavam a segurança dos filhos acima de qualquer coisa. Por isso, todos os funcionários eram submetidos a um processo seletivo extremamente criterioso.
Fui contratada para lecionar no primeiro ano do ensino fundamental, com crianças entre seis e sete anos.
Minha principal responsabilidade seria alfabetizá-las.
A diretora fez questão de ressaltar que aquela não era uma contratação comum.
O reitor da minha antiga universidade havia fornecido excelentes referências sobre mim, e o fato de eu ter concluído dois cursos simultaneamente contou muitos pontos a meu favor.
Aquilo demonstrava dedicação, exatamente o perfil que a escola procurava para conduzir uma turma tão importante.
O melhor de tudo era que, além do salário, recebi uma bolsa de estudos integral para Melissa.
No meu primeiro dia de aula, senti dezenas de olhinhos apreensivos voltados para mim. Eu era a professora nova. Uma completa desconhecida.
Decidi fazer uma dinâmica para me apresentar e ajudá-los a perder um pouco da timidez enquanto eu também conhecia cada um deles.
Com a ajuda da auxiliar, organizamos as cadeiras em um grande círculo.
Então comecei.
— Oi, meus amores! Eu sou a tia Alice, a nova professora de vocês. Querem saber um segredo sobre mim?
Instantaneamente, todos voltaram os olhos curiosos para mim.
— Eu adoro ensinar brincando.
Na mesma hora, eles trocaram olhares, e alguns sorriram timidamente.
Eu sabia que estavam ali para aprender, e que tanto a escola quanto seus pais esperavam resultados. Mas acreditava que crianças aprendiam muito mais rápido quando o ensino era criativo, divertido e lúdico. Tinha certeza de que, dessa forma, elas jamais esqueceriam o que aprendessem.
É claro que eu não permitiria que aquela turminha se transformasse em um pesadelo para a escola. Mas também não pretendia formar robôs.
Precisava conhecer cada um deles, entender suas limitações e descobrir seus interesses.
Então pedi que todos se apresentassem.
Em vários momentos, acabávamos rindo juntos.
Em apenas uma semana, já havia me tornado a tia favorita dos meus pequeninos. Já conhecia cada um deles o suficiente para estabelecer limites, incentivar os mais tímidos e estimular aqueles que precisavam apenas de um pouco mais de confiança.
Devo admitir que um deles chamou especialmente minha atenção pela facilidade de aprender e pela maneira como interagia com os colegas.
Luan Castro era, sem dúvida, o elo daquela turma.
Era o garoto popular, mas da melhor maneira possível. Sabia incluir todos, acalmar conflitos e aproximar os colegas naturalmente.
Quanto à Melissa, que já estava com quatro aninhos, sua primeira semana foi difícil. Era seu primeiro contato com a escola, mas, aos poucos, ela se adaptou à professora e aos novos amiguinhos.
Passar meus dias ao lado daquelas crianças estava se tornando uma das melhores partes da minha vida.
Como a escola funcionava em período integral, muitas vezes eu só conseguia ir à academia durante a noite.
Desde o incidente com Lucca, nunca mais me envolvi com outro homem.
Aquele idiota havia deixado marcas profundas em mim, embora eu tivesse conseguido seguir em frente.
Na verdade, “seguir em frente” também não era a expressão correta, segundo minha terapeuta.
Ela dizia que eu só poderia afirmar que havia superado tudo quando fosse capaz de me envolver novamente com alguém sem sentir medo.
Eu não sabia se esse dia chegaria.
Confesso que gostaria de esquecê-lo para sempre. Mas bastava olhar para Melissa para que sua lembrança voltasse. Ainda assim, como sempre dizia, jamais me arrependi de ter minha filha.
Naquele dia, em especial, cinco anos após a pior humilhação da minha vida, confesso que não estava muito animada para ir à academia.
Algumas datas ficam marcadas para sempre na memória. Aquela era a minha.
Mesmo assim, eu sabia que não era justo permitir que algo ocorrido tantos anos antes continuasse controlando minha vida.
Depois de deixar Melissa com Samantha, segui para a academia.
Após quase duas horas de treino intenso, saí distraída, olhando para o celular.
Não percebi os três homens de aparência suspeita caminhando em minha direção.
A rua estava completamente deserta.
Quando finalmente os notei, já era tarde demais para recuar. Mesmo assim, tentei.
Fingi que havia esquecido alguma coisa e mudei de direção.
Não adiantou.
Um deles acelerou os passos e segurou meu braço.
— Por que tanta pressa, gatinha?
Os três me observavam como se eu fosse uma mercadoria.
— Que tal um pouco de diversão, fofinha? Tenho certeza de que você vai gostar de passar um tempo conosco. — O outro sorriu de forma nojenta.
— Por favor... me deixem passar. Eu preciso ir para casa.
Tentei me soltar.
Em resposta, o homem apertou meu braço com ainda mais força.
Naquele instante, um arrepio percorreu meu corpo. O medo voltou como uma avalanche.
Mas eu jamais permitiria que fizessem qualquer coisa comigo sem lutar.
Quando percebi o segundo homem se aproximando, comecei a me debater e a gritar por socorro.
— Ela é arisca... Mas, depois que passar por nós três, vai ficar bem mansinha. Aposto que você vai adorar o que tenho guardado na calça, belezinha.
— Eu vou ser o primeiro.
O homem que me segurava tentou me beijar à força.
Ao mesmo tempo, outro homem se aproximou por trás e deslizou a mão pelo meu traseiro. Meu desespero aumentou ainda mais.
Debati-me com todas as forças, determinada a escapar antes que fosse tarde demais.
