Capítulo 6 Reflexos

Quando Samantha viu meu choro, correu até mim. A preocupação estampada em seu rosto contrastava com a expressão de confusão nos olhinhos de Melissa.

— O que houve, Alice? Você está me assustando.

Respirei fundo antes de conseguir responder.

— Eu quase fui violentada hoje, Samantha.

Os olhos dela se arregalaram.

— Como assim? Ele não tinha saído do país? Voltou a te importunar?

Balancei a cabeça.

— Não foi ele, amiga. Mas o terror que vivi foi ainda pior do que naquele dia. O que o Lucca fez foi me humilhar. Eu tive medo do meu futuro… Hoje, tive medo de morrer.

Samantha continuava me encarando, tentando compreender, enquanto Melissa permanecia aconchegada em meus braços.

— Hoje, Sammy... eu achei que não voltaria para casa. Três homens escrotos me cercaram.

— O que é homens ecrotos, mamãe?

Olhei para minha filha sem saber como responder àquela pergunta tão inocente.

— São homens muito maus, meu amor — Samantha respondeu por mim, percebendo meu impasse. Depois voltou a atenção para mim. — Como isso aconteceu, Alice?

— Eu saí distraída da academia e nem percebi que a rua estava deserta. Quando me dei conta, eles já tinham me cercado. Minha sorte foi que um grupo de alunos da academia passou naquela hora e me livrou daqueles homens.

— Por que você não me ligou? Eu teria ido te buscar.

— Eu ia ligar. Mesmo sabendo que você teria que levar a Mel junto e que isso seria um transtorno, eu ia pedir sua ajuda. Mas... não foi preciso.

Samantha se aproximou e nos envolveu em um abraço, comigo ainda segurando Melissa.

Minha filha não fazia ideia do perigo que eu havia corrido.

— Como você conseguiu chegar até aqui? — perguntou, ainda preocupada.

— O Hugo me trouxe.

— Quem é Hugo?

Ela me olhou curiosa.

— O rapaz que me salvou daqueles caras.

Os olhos dela brilharam de curiosidade.

— Hum... então o prestativo Hugo fez questão de trazê-la até em casa? E como é esse tal Hugo? — provocou, tentando aliviar o peso da conversa.

Mas eu conhecia Samantha o suficiente para saber que toda brincadeira dela carregava um fundo de verdade.

— Nem comece com essas insinuações.

Coloquei Melissa no chão, e ela voltou correndo para a televisão. Enquanto isso, fui até a cozinha e me servi de um copo de suco.

— Pelo menos você sabe o sobrenome dele?

Revirei os olhos.

— Samantha, quando você quer ser inconveniente, consegue se superar. Acho que é Castro... Não gravei direito. Nem tenho certeza.

Ela pegou o celular e começou a digitar.

Às vezes, Samantha parecia mais investigadora do que advogada.

Poucos segundos depois, levantou os olhos para mim com uma expressão surpresa.

— Estamos falando desse Hugo Castro?

Ela virou a tela do celular em minha direção.

Era ele.

Mas a fotografia mostrava um Hugo diferente daquele que conheci.

Vestia um terno, tinha a postura de um executivo e uma expressão séria, quase intimidadora. Ainda assim, seus olhos continuavam impossíveis de ignorar.

Confirmei com um movimento de cabeça.

— Hugo Castro Lira. CEO de uma das maiores redes de hotéis do país. E, segundo a internet, o solteiro mais cobiçado da atualidade. Amiga... eu não acredito que você não o convidou para entrar.

Soltei uma risada sem humor.

— Samantha, ele só foi gentil ao me oferecer uma carona. Pelo amor de Deus.

Deixei o copo na pia e caminhei em direção ao meu quarto. Ela me acompanhou.

— Você podia, pelo menos, ter oferecido um copo de suco — insistiu, arrancando de mim um sorriso discreto.

— Pelo que você acabou de descobrir, ele deve ser um homem ocupado. Além disso... pode ter a mulher que quiser.

Parei por um instante antes de completar:

— E hoje não foi um bom dia para pensar em qualquer outra coisa.

Ela perdeu o ar brincalhão.

— Desculpa, amiga. Eu só queria te distrair um pouco.

Sorri de leve.

— Eu sei.

Algum tempo depois, Samantha se despediu de nós e voltou para casa.

Só quando fiquei sozinha percebi o quanto aquilo me abalou.

Naquela noite, sugeri que Melissa dormisse comigo. Ela comemorou como se tivesse ganhado um presente.

Desde que aprendera a dormir no próprio quarto, eu nunca havia quebrado aquela regra.

Melissa ficou tão animada, dizendo que teríamos uma noite do pijama, que, por alguns minutos, conseguiu me fazer esquecer o horror que eu havia vivido.

Enquanto ela falava sem parar, minha mente voltou para Hugo.

Tive muita sorte de ele aparecer naquele momento. Mais do que isso, ele ainda insistiu em me levar para casa, mesmo sem me conhecer.

Lembrei-me dos seus olhos verdes, da calma em sua voz e do sorriso gentil que havia me oferecido.

Na fotografia que Samantha me mostrou, ele parecia um homem inacessível.

Ao vivo, parecia apenas alguém disposto a ajudar.

Naquela madrugada, dormir foi praticamente impossível. Os pesadelos vieram um após o outro.

Em um deles, eu revivia o ataque. Em outro, era salva novamente por aquele homem de olhos verdes que parecia surgir exatamente quando eu mais precisava.

Depois de despertar assustada pela quarta vez, percebi que não conseguiria voltar a dormir.

Levantei-me.

Tomei um banho demorado, tentando lavar o suor frio e os resquícios daquele pesadelo.

Em seguida, fui para a cozinha preparar o café.

Dentro de pouco mais de uma hora, Melissa acordaria e se juntaria a mim. Eu precisava seguir em frente. Não podia permitir que aquele episódio controlasse minha vida.

Ainda assim, depois do que aconteceu, passei a prestar muito mais atenção em tudo ao meu redor.

Os dias passaram.

Não voltei a encontrar Hugo na academia, embora, antes daquela noite, eu sequer tivesse notado sua presença.

As manhãs continuavam sendo uma batalha para tirar Melissa da cama.

Minha filha definitivamente não era uma pessoa matinal, e seu humor nas primeiras horas do dia deixava isso bem claro.

Apesar de tudo, eu continuava amando meu trabalho. Procurava tornar cada aula dinâmica, e meus alunos sempre participavam com entusiasmo.

A diretora costumava elogiar minha turma, dizendo que era a mais participativa da escola.

Com a aproximação da feira de ciências, a escola estava ainda mais movimentada. As horas passaram tão depressa que mal percebi o fim do expediente.

Depois de buscar Melissa e deixá-la na casa de Samantha, segui direto para a academia.

A aula de aeróbica estava mais cheia do que o normal.

No início, eu nunca tinha gostado muito daquele tipo de exercício. Sempre achei que não levava jeito para dançar.

Mas, com o tempo, acabei me adaptando e passei a gostar. Era quase como uma aula de dança, só que com movimentos voltados para o condicionamento físico.

Depois da aula, fui direto para o vestiário. Um banho rápido foi suficiente para renovar minhas energias.

Quando saí do vestiário, fui surpreendida mais uma vez pela presença de Hugo.

Assim que nossos olhares se encontraram, ele sorriu. E, por um breve instante, todo o peso daquela semana pareceu ficar um pouco mais leve.

Meu Deus...

Como aquele homem podia parecer tão perfeito?

Hugo não dava a impressão de ter simplesmente nascido. Parecia ter sido esculpido, pacientemente, pelas mãos de um artista.

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