Capítulo 1

Travis Savage e eu éramos um casal notório aos olhos do público, unidos por nada além de ódio.

No mundo cintilante e indulgente de Chicago, ele era um rei intocável da máfia, que governava com poder absoluto, criando e quebrando regras ao bel-prazer. E eu? Eu era a esposa que ele mais odiava em todo o seu império criminoso.

Tudo começou quando meus pais perderam a vida para salvá-lo, metralhados pelos rivais dele. Depois da morte deles, ele me manteve por perto enquanto eu crescia e, por fim, nosso casamento virou o que todo mundo esperava. Por muito tempo, ele foi minha única âncora neste mundo solitário.

Houve uma época em que ele se ajoelhou diante de mim e jurou me proteger pelo resto da vida.

Agora, ele me odiava.

Odiava o fato de eu me recusar a assinar os papéis do divórcio, de eu atrapalhar ele de fugir com Renee Sutton — a órfã que ele dizia ter tirado das ruas.

Ele deixava que ela passasse por cima de mim e se exibisse descaradamente na minha frente. Para me vingar dos dois, eu vazei os segredos sórdidos deles, de uma noite para a outra, por toda Chicago: as mensagens de flerte, as estadias em hotéis. A notícia se espalhou tanto pelo submundo do crime quanto pela alta sociedade, e os dois viraram motivo de deboche e foram evitados por todo mundo.

Nosso casamento tinha apodrecido anos antes, gasto até o osso por um ressentimento mútuo sem fim. Era estagnado, fétido e estava morto havia muito tempo.

Até três dias atrás.

Uma sequência de emboscadas transformou Travis em um homem caçado. Ao desviar para evitar um caminhão que vinha na direção contrária, ele se envolveu em um acidente de carro devastador.

Ele ficou inconsciente na UTI por três dias inteiros. Quando acordou, afirmou ter esquecido cada grama dos nove anos de ódio entre nós. Na mente dele, ainda tinha dezenove anos — a idade em que me amava com tudo o que tinha.


O jeito como ele me olhava era fervoroso, como se tivesse acabado de recuperar algo que julgava perdido para sempre.

Sentei ao lado da cama do hospital, encarando a gaze enrolada na testa dele. As lágrimas escorriam pelo meu rosto enquanto eu lhe contava tudo: cada traição, cada humilhação que Renee tinha me obrigado a suportar, uma lembrança amarga atrás da outra.

Quando terminei de falar, os olhos de Travis ficaram vermelhos.

Ele me puxou com brutalidade para os braços dele, apertando-me com tanta força que doía, como se quisesse me fundir ao próprio corpo. Ele soluçou contra o meu pescoço, as lágrimas quentes encharcando minha pele.

— Helen… divorcie-se dele.

Ele segurou meu rosto com as mãos, o olhar suave e ao mesmo tempo desesperado enquanto me implorava. Queria que eu deixasse o homem frio e cruel em que ele havia se transformado, dizendo que nos levaria de volta ao tempo em que tínhamos dezenove anos. Poderíamos recomeçar.

Que atuação impecável. Nem uma falha sequer.

No dia seguinte, eu fiz exatamente o que ele queria. Peguei os papéis do divórcio preparados pelo advogado dele, pronta para dar entrada.

Mas, quando eu estava do lado de fora do escritório dele, com a porta entreaberta, ouvi cada palavra. Travis falava com a amante dele, Renee.

Naquele instante, a verdade desabou sobre mim.

Tudo aquilo tinha sido uma armadilha, arquitetada unicamente para me forçar a me divorciar dele.

— Travis, esse seu teatrinho dramático é absolutamente insano — ronronou Renee, com uma voz enjoativamente doce, mas impregnada de triunfo presunçoso. — Aquela idiota da Helen acredita mesmo que você perdeu a memória e voltou a ser o garoto que era aos dezenove.

Então veio a risada preguiçosa e divertida de Travis.

— Como mais eu faria aquela mulher teimosa assinar, se eu não entrasse no papel? — disse ele, com naturalidade, como se estivesse comentando o tempo. — Ela sempre se agarrou às lembranças de nós aos dezenove. Ótimo — eu entro na dela. Contanto que eu possa fazer de você minha esposa às claras, alguns dias de afeto falso não são nada.

Nós estávamos separados apenas por uma porta fina.

Fiquei paralisada no corredor, os dedos apertando os papéis do divórcio até os nós dos dedos ficarem brancos. Ainda assim, minha respiração permanecia estável, sem vacilar.

Antes, eu teria arrombado aquela porta num acesso de fúria, esfregado os documentos na cara dele e arrancado as máscaras falsas dos dois com as minhas próprias mãos.

Mas não dessa vez.

Não era que eu tivesse ficado mais complacente, nem que tivesse me tornado fraca.

Eu estava morrendo. Câncer de colo do útero em estágio avançado.

No mesmo dia em que Travis sofreu o acidente e foi levado às pressas para o hospital, eu recebi o resultado da biópsia.

O médico deu uma olhada no meu prontuário magro e suspirou, impotente. “Senhora Fan, seu útero foi totalmente removido depois daquele acidente, anos atrás. O câncer se espalhou por toda a sua cavidade pélvica. No máximo, a senhora tem mais um mês. Pare o tratamento. Não há necessidade de se arrastar por mais dor.”

Um mês.

Quando a morte se aproxima, ódio, ciúme e ressentimento perdem o fogo. Ficam frios, nítidos, quase racionais.

Então eu assisti Travis encenar aquela farsa desajeitada e escolhi entrar no jogo.

Tudo o que eu queria era ver uma última vez o Travis de dezenove anos que me amava de corpo e alma.

Tratei o pouco tempo que me restava como uma transação fria, calculada.

Eu assinaria os papéis do divórcio, em troca de ele continuar interpretando o garoto devotado do nosso passado.

Mesmo que aquela atuação me embrulhasse o estômago.

Saí da empresa dele e fui direto para a mansão a meia encosta.

No instante em que empurrei a porta da frente, flagrei Travis e aquela mulher, Renee — dentro da minha casa.

O ambiente virou um caos no momento em que eles me ouviram.

Em menos de trinta segundos, Travis veio correndo escada abaixo para encobrir a bagunça. Ele se forçou a vestir o jeito imprudente e ansioso de quando tinha dezenove anos, descendo de três em três degraus. Agarrou meu pulso com força.

“Helen! Me escuta — eu não conheço essa mulher! Não faço ideia de por que ela apareceria do nada na nossa casa!”

Ele falava num tom apressado, urgente, mas um lampejo de satisfação arrogante brilhou nos olhos dele, orgulhoso do próprio improviso.

Olhei por cima do ombro dele, para o patamar do andar de cima.

Renee estava lá, vestindo minha camisola de seda favorita, com os olhos vermelhos e o corpo tremendo, fazendo o papel de vítima pobre e injustiçada.

Meu olhar voltou para Travis.

A camisa dele estava abotoada errado, um botão fora do lugar de tão às pressas que ele se vestira.

A cena era ridícula, quase cômica. Ainda assim, um sorriso discreto puxou meus lábios.

“Travis, eu acredito em você.” Ergui a mão para ajeitar os botões tortos. “O Travis de dezenove anos nunca me trairia.”

Ele soltou o ar em silêncio, os ombros relaxando de alívio.

“Mas...” meu tom ficou afiado na hora, e lancei um olhar gelado para a mulher na escada, “o nome dela é Renee. Ela é a amante do Travis de vinte e oito anos.”

Travis congelou, como se alguém o tivesse agarrado pela garganta. As pupilas dele se contraíram num estalo.

Eu vi a cor sumir do rosto dele e falei com uma voz calma, inabalável:

“Você diz que só se lembra de quando tinha dezenove, e que eu sou quem você mais ama. Então vá lá e dê um tapa naquela mulher sem vergonha.”

O ar na sala ficou espesso, pesado.

O rosto de Travis se retorceu de tensão, veias saltando na testa.

Ele me encarou, procurando qualquer indício de que eu estivesse brincando, mas meus olhos continuaram frios e inflexíveis, sustentando o olhar dele.

Os olhos dele foram para Renee. Ela parecia pálida e vacilante, à beira de desabar. Antes que ele conseguisse impedir, uma preocupação terna se espalhou nas feições dele.

No fim, ele se afastou com rigidez, se escondendo atrás de uma desculpa frágil.

“Helen, você sabe que eu nunca bato em mulher. Não me peça isso.”

Fiquei ruminando as palavras dele, e o absurdo de tudo me atingiu.

Arranquei minha mão do aperto dele e dei um passo para trás. Minha voz cortou o ar, arrancando camada por camada daquela encenação frágil.

“Quando a gente tinha dezenove anos, um grupo de garotas cruéis me encurralou num beco. Você entrou sozinho com um cano de metal e bateu nelas até ficarem ensanguentadas. Fez elas se ajoelharem e baterem a cabeça no chão, implorando pelo meu perdão.”

Vi a máscara dele rachar, pouco a pouco, e então soltei um suspiro baixo e amargo.

“Travis... o Travis de dezenove anos nunca se importou em ser um cavalheiro.”

Nossos olhares se prenderam.

“Então por que você não me protege agora?”

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