Capítulo 2
Travis congelou, o olhar cravado em Renee como um torno.
Renee, parada no alto da escada, se encolheu violentamente. Lágrimas grandes e pesadas afloraram na hora, os cantos dos olhos ficando vermelhos — ela era o retrato perfeito de uma inocência frágil e indefesa, pronta para se partir a qualquer momento.
De um lado, o chefe da máfia, com os dedos tremendo de dor no peito, mas incapaz de se obrigar a bater. Do outro, a amante delicada, os olhos cheios de luto, suplicando com uma voz baixa e trêmula.
A cena era completamente absurda. Engraçada, até.
Se Travis gostava tanto de bancar o amnésico dedicado, então, como esposa dele, eu ficaria feliz em entrar no jogo até o fim.
O pomo de adão de Travis subiu e desceu com dificuldade. Os pés pareciam cheios de chumbo enquanto ele se arrastava, passo pesado após passo pesado, em direção a Renee.
Ele respirou fundo, fechou os olhos e, por fim, ergueu a mão.
Um tapa — nem forte demais, nem fraco demais — acertou em cheio a bochecha pálida e delicada de Renee.
Renee soltou um grito agudo de surpresa, levando a mão ao rosto. As lágrimas desceram em cascata, como pérolas arrebentadas, e ela encarou Travis, incrédula.
“Não é o bastante.” Cruzei os braços sobre o peito, as palavras geladas.
As costas de Travis enrijeceram. Ele fechou os olhos de novo, a veia na têmpora pulsando violentamente. Eu podia até ver os músculos sob o terno se retesando ao limite, com o esforço de se conter.
No segundo seguinte, seus olhos se escancararam, e ele golpeou sem piedade — com o dorso da mão, depois com a palma.
PÁ! PÁ!
O som seco e brutal dos tapas ecoou pela mansão inteira.
Travis colocou toda a força naqueles dois golpes, fazendo Renee despencar no chão. Seu rosto, antes tão puro e bonito, inchou diante dos meus olhos, e um fio fino de sangue escorreu do canto da boca.
Ela desabou no tapete, agarrando a bochecha inchada, e finalmente caiu num choro histérico. Rastejou para fora pela porta da frente, de mãos e joelhos.
Eu observei suas costas fugindo sem nenhuma emoção no olhar, depois me virei para subir até o meu quarto.
“Helen.”
Travis me chamou de repente, a voz áspera, carregada de reprovação e dor mal contidas. “O que aconteceu com você? A Helen de dezenove anos nunca foi tão cruel.”
Eu parei e me virei para encará-lo como se ele fosse um completo estranho.
“E o Travis de vinte e oito anos não é nem de longe tão puro e inocente quanto o Travis de dezenove.” Dei um sorriso frio e vazio, que não chegou aos meus olhos. “Travis, o motivo de eu ser tão fria, tão cruel, uma mulher tão insana, é graças a você e à Renee — às versões de vocês que ainda vão chegar.”
Três tapas? Isso não era nada.
Nunca poderia compensar a vida que eles destruíram. Nunca poderia devolver a capacidade de ter filhos que eles arrancaram de mim com brutalidade. E jamais, jamais poderia expiar a morte da minha filha — que nem chegou a abrir os olhos e ver o mundo.
Eu tinha câncer cervical terminal. Meus dias estavam contados. Então eu faria questão de que aqueles dois desgraçados sofressem cada um deles. Mesmo que eu fosse morrer, mesmo que eu já tivesse assinado os papéis do divórcio, eu faria os dois sangrarem antes do meu último suspiro.
Depois disso, Travis ficou estranhamente quieto por alguns dias. Para manter o ato de “dezenove anos”, ele se obrigou a se conter, sem ousar entrar em contato com Renee na minha frente.
Até alguns dias depois, quando chegou o aniversário da filha de Renee.
Isso mesmo — ela tinha tido uma filha com Travis pelas minhas costas, e a menina estava fazendo três anos.
Naquela tarde, passei em frente ao escritório com um copo de água. A porta estava entreaberta, e eu consegui ouvir a voz baixa de Travis lá dentro, seguida, do outro lado da linha, pelos soluços dilacerantes de Renee.
—Travis, eu aguento quando você me machuca. Pelo nosso futuro juntos, eu suporto você me bater, gritar comigo — qualquer coisa! — Renee arfou em meio às lágrimas. — Mas a Nina é sua filha biológica! Ela pergunta pelo papai todo santo dia. Hoje é o terceiro aniversário dela... você não consegue nem vir passar o dia com ela?
— Você ainda não passou tempo demais com aquele louco moribundo?!
Os nós dos dedos de Travis ficaram brancos em torno do celular; os olhos, cheios de dor e conflito por aquela mãe e aquela filha. No instante em que ele estava prestes a ceder, eu escancarei a porta do escritório e entrei, com o rosto completamente inexpressivo.
Travis se sobressaltou como um gato que teve o rabo pisado.
A dor e o conflito sumiram do rosto dele num segundo, substituídos por um rosnado duro, forçado.
— Some daqui! Eu já disse que não te conheço! Para de me ligar e me perseguir!
— Ou eu não vou hesitar em te pôr pra fora de novo!
Ele disparou as palavras e, em pânico, desligou. Então ergueu os olhos para mim, tentando forçar um sorriso que parecia mais uma careta.
Eu o observei desligar com calma, como se eu estivesse assistindo a um palhaço encenar um triste númerozinho solo.
Não confrontei a mentira dele. Só disse, seca:
— Vem comigo a um lugar.
Travis hesitou, tentando recusar por instinto.
— Helen, mais tarde eu tenho um assunto urgente com o pessoal... não dá pra gente...?
— Esse lugar é importante. — Eu o interrompi. — Travis, o Travis de dezenove anos nunca inventava desculpa pra me dispensar. Você dizia que, se eu pedisse, subia e arrancava as estrelas do céu.
Travis parou, petrificado.
Por um longo momento, ficou ali. Então, por fim, empurrou as palavras para fora entre os dentes cerrados, como se cada sílaba doesse.
— Tá... Eu vou com você.
Eu levei Travis de carro até o cemitério da família, nos arredores de Chicago.
Uma chuva fina e gelada caía, envolvendo todo o cemitério num silêncio sufocante. Eu me ajoelhei e limpei com cuidado a poeira das lápides dos meus pais com um lenço, depois arrumei as sobremesas preferidas deles.
Então me levantei e caminhei até a pequena sepultura sem identificação ao lado da dos meus pais — nada além de um montinho de terra, nem sequer uma lápide de verdade.
Ajoelhei-me diante do túmulo pequeno, tirei uma bala do bolso, desembrulhei devagar e a coloquei sobre a terra fria e úmida.
Travis ficou atrás de mim o tempo todo, completamente distraído. A cada poucos minutos, ele tirava o celular do bolso às escondidas e dava uma olhada; a testa se franzia cada vez mais. Eu sabia que Renee estava bombardeando o telefone dele, implorando para que ele fosse. Ele estava louco para voltar para a outra filha, a que estava comemorando aniversário.
— Helen, eu não me lembro de hoje ser o aniversário de morte dos seus pais.
Travis enfim explodiu, enfiando o celular no bolso de novo, com a voz carregada de impaciência e ressentimento.
— A gente podia ter vindo visitar o túmulo deles em qualquer dia. Precisava ser hoje?
Eu sabia exatamente o que ele estava pensando de verdade. O que ele queria dizer era: precisava me arrastar pra esse lugar maldito no aniversário da minha própria filha só pra estragar tudo?
Eu não me virei.
Só encarei a sepultura pequena e enlameada, deixando a chuva gelada bater no meu rosto.
— Claro que não é o aniversário de morte dos meus pais. — Eu me ergui devagar, tirando a lama da saia. — Hoje é o aniversário da morte da minha filha. A que morreu no dia em que nasceu.
Toda a cor sumiu do rosto de Travis num instante.
A expressão irritada dele congelou, e as pupilas se dilataram violentamente de choque.
Olhando para ele, eu senti uma risada amarga e irônica subir pela minha garganta.
Aí está, Travis. Você esqueceu de continuar atuando.
O Travis de dezenove anos não fazia ideia de que essa criança existia. Não fazia ideia de que eu já tinha engravidado, de que eu tinha perdido um bebê. Se ele fosse mesmo dezenove, a primeira reação teria sido confusão, choque — ele teria me perguntado: “Que bebê?”
Mas não foi isso que eu vi.
Eu só vi culpa crua, inconfundível. Agonia, estampada no rosto mortalmente pálido dele.
Aquele único olhar me disse tudo.
Ele nunca tinha perdido a memória. Toda aquela história de “dezenove anos” não passava de uma mentira patética, transparente, do começo ao fim.
