Capítulo 3

Eu não disse nada para expor a mentira dele.

A chuva fria tamborilava de leve contra a lápide áspera, puxando minha mente de volta àquela noite — uma noite que parecia mergulhar direto num gelo congelante.

Naquele ano, eu estava grávida de oito meses do filho de Travis.

Na época, no segundo em que Travis descobriu que eu estava carregando o bebê dele, não poupou despesas, me cobrindo sem hesitar com os luxos mais extravagantes de Chicago. E, ainda assim, bem quando ele me jurava votos intermináveis e ardorosos de amor, uma sequência de fotos em alta resolução caiu no meu celular, enviada de um número anônimo desconhecido.

Nas imagens, meu marido, Travis, estava nu numa cama de hotel, enroscado com força em Renee — a órfã de rua que ele mantinha como amante. Ele a apertava contra si, num abraço tão terno que parecia verdadeiro.

Cada foto era uma lâmina afiada, cravando direto nos meus olhos.

Eu ainda não tinha virado fria e contida naquela época. Com oito meses de gravidez, completamente despedaçada e transtornada, eu invadi aquele hotel em meio a uma tempestade de raios, cega de dor, sem conseguir parar.

Arrebentei a porta da suíte, com os olhos ardendo vermelhos de sofrimento. Antes que eu conseguisse soltar uma única pergunta, Renee avançou direto em cima de mim.

No meio dos gritos frenéticos e da briga caótica, um brilho cruel e calculista atravessou os olhos dela. Ela me empurrou com uma força brutal, e meu corpo despencou de cabeça pela altíssima escada em espiral.

A dor me rasgou num instante. Eu rolei pelos degraus gelados como uma boneca quebrada, jogada fora, e um sangue vivo, de um vermelho doentio, se espalhou pelas tábuas do chão.

Eu me agarrei à vida por três dias e três noites sem dormir na sala de emergência gelada, sangrando sem parar, até entrar em trabalho de parto prematuro e dar à luz uma menina.

Mas minha filha — destruída por aquela queda catastrófica e privada de oxigênio por tempo demais — nunca chegou a abrir os olhos. Ela deu seu último suspiro antes de conseguir ver este mundo sequer uma vez.

No resgate desesperado para salvar a minha vida, eu sofri uma hemorragia catastrófica e irreversível. Para me manter viva, os médicos foram obrigados a remover meu útero por completo.

Eu perdi para sempre a capacidade de ter filhos. Perdi o bebê pelo qual eu lutei com unhas e dentes, sacrifiquei tudo para carregar.

Logo depois que nosso bebê morreu, Travis foi consumido por uma culpa e um arrependimento avassaladores.

Ele cancelou todos os compromissos de negócios sem pensar duas vezes. Ficou ajoelhado ao lado da minha cama no hospital dia e noite, desabando em lágrimas e implorando meu perdão. Observava cada movimento meu como se estivesse encarando uma bomba-relógio, pisando em ovos no nosso casamento, apavorado de que o menor deslize destruísse o que ainda restava de nós.

Mas por quanto tempo um homem como ele conseguiria ficar preso ao remorso?

Bastou pouco para o meu desespero vazio — sem sono, sem palavras — desgastar a paciência dele.

Numa noite, quando eu desabei de novo em soluços quebrados, ele chutou uma cadeira de madeira com violência, derrubando-a. Com os olhos injetados de sangue, me prendeu no lugar, rosnando e exigindo saber por que eu me agarrava ao passado como uma mulher amarga e vingativa.

“Helen, até quando você vai arrastar isso?” Ele me encarou de cima, o tom gélido e impiedoso — palavras talhadas para cortar minha alma. “Uma criança natimorta não significa nada. Você ainda é jovem. Mesmo que nunca mais possa engravidar, no pior dos casos a gente adota uma criança.”

Naquele exato instante, a antiga Helen — a garota que um dia se agarrou à manga dele e implorou para ele voltar atrás — morreu de vez. Tudo o que existia em mim virou cinza fria com aquela única frase.

Depois daquele dia, acabou. Eu nunca mais derramei uma lágrima na frente dele.

E, quando minhas lágrimas pararam de cair, Travis largou qualquer fingimento de contenção e foi ficando mais cruel a cada dia. Ele levou Renee para morar direto na nossa mansão e deixou que ela se instalasse no nosso quarto de casal como se aquele lugar fosse dela.

Eu queria arrastar os dois comigo para a ruína. Doía em mim a vontade de despedaçar a Renee, pedaço por pedaço. A sede de vingança queimava afiada na minha língua. Ainda assim, eu subestimei gravemente o quão implacável Travis podia ser de verdade.

Ele jogou toda a culpa em cima de mim. Para proteger a encenação frágil e fabricada de inocência da Renee, ordenou aos homens dele que prendessem meus braços para trás e me trancassem na prisão subterrânea particular construída pela própria gangue.

Lá embaixo, naquele inferno subterrâneo sem sol — sem luz do dia, só o fedor pútrido de sangue seco — os homens da Renee me torturaram sem parar.

Eles encostavam repetidas vezes um bastão de choque de alta voltagem no meu corpo já quebrado e destruído; o cheiro acre de carne queimada me enchia as narinas, fazendo eu desejar a morte só para acabar com o tormento. No amargo auge do inverno, despejavam balde após balde de água gelada sobre mim, até meus membros travarem por completo de hipotermia. Enfiavam meu rosto fundo na lama encharcada de esgoto, me deixando dias sem comer — eu era obrigada a brigar com ratos de esgoto por restos apodrecidos de comida para sobreviver.

Naquele calabouço, eu parei de implorar.

Eu finalmente entendi: lágrimas e o restinho de um afeto antigo valiam menos que sujeira, não serviam de nada contra o poder de um homem e sua traição a sangue-frio.

Quando enfim me jogaram para fora daquela prisão particular como um cachorro de rua sem vida, Renee já tinha dado à luz a filha de Travis, transbordando de triunfo arrogante.

Pior ainda — a coisa que alimentava cada grama de ódio nos meus ossos — Renee queria me pisotear para sempre. Ela subornou um médico do mercado negro para induzir o parto prematuramente, alinhando de propósito o aniversário da filha dela com o dia do enterro da minha bebê morta.

A partir de então, todos os anos, naquela data, minha filha ficava enterrada na terra fria, açoitada por vento e chuva. Enquanto isso, Travis cancelava todas as reuniões de alta prioridade, reservava o hotel cinco estrelas mais luxuoso de Chicago e comemorava em alto e bom som com Renee e a filha deles, encenando a fachada perfeita de uma família feliz.

O vento voltou a varrer folhas secas e mortas pelo cemitério, os detritos ressequidos batendo com força nas minhas panturrilhas.

Desviei o olhar do pequeno montículo de terra sobre a sepultura e encarei Travis diretamente. Minha voz se manteve firme, sem qualquer tremor.

— Travis. Na véspera da sua suposta amnésia... o que a gente estava fazendo?

O corpo inteiro dele deu um solavanco. Ele desviou o olhar num pânico cego, se atrapalhando para desenterrar alguma memória doce e inventada dos nossos dezenove anos.

— A gente estava... nas docas de West Loop.

Ele engoliu em seco, forçando um tom quente, luminoso e absolutamente sincero. Tensionou cada músculo, apavorado de que a menor hesitação revelasse a farsa para mim.

— O vento estava uivando naquela noite. Você não parava de me arrastar pra fora pra comer torta de morango. Eu não quis ir, aí você escondeu de propósito as chaves da minha moto. Eu explodi de raiva e corri atrás de você por meia quadra... Depois eu te alcancei, te prendi contra a parede de tijolos...

Quanto mais ele disparava as palavras, mais a voz dele tremia, uma fissura pequena no desempenho polido.

Eu ouvi em silêncio, observando o rosto dele enquanto ele lutava para sustentar a máscara de si mesmo aos dezenove anos.

Quando ele chegou na parte em que a gente se abraçava sob o brilho do poste de rua, eu caí na risada.

Eu ri sem controle — e então lágrimas quentes escorreram pelas minhas bochechas sem que eu conseguisse impedir, caindo pesadas na lápide fria à minha frente.

— É — eu disse, sustentando o olhar dele, com qualquer centelha de esperança no futuro drenada dos meus olhos. Minha voz caiu para um sussurro suave. — Aqueles dias foram bons, Travis.

Soltei um suspiro raso, as palavras quase inaudíveis.

— Mas eu nunca vou poder voltar.

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