Capítulo 4
O carro deslizou até parar do lado de fora dos portões de ferro trabalhado da vila na encosta.
No instante em que Travis e eu descemos, avistei Renee ali, em pé, com a filha de três anos, Nina — como se estivessem acampadas ali havia horas.
Assim que nos viu, ela veio correndo. Estava com os olhos inchados e avermelhados, o rosto inteiro contorcido naquela encenação já conhecida de coitadinha injustiçada.
Ela segurou a mão de Nina, a voz escorrendo de doçura falsa enquanto pedia desculpas. “Helen, me desculpa. Eu fui imatura antes e te deixei com raiva. Hoje é aniversário da Nina, e o Travis não apareceu o dia todo. Ela só… ela sente tanta falta do pai. Eu só trouxe ela aqui pra poder ver ele, só por um segundo…”
Antes que terminasse a frase, Nina puxou a mão com força e cuspiu diretamente em mim, cheia de veneno.
“Mulher má!” Havia um ódio ardendo nos olhos daquela criança de três anos que não devia existir no rosto de uma criança. Ela apontou um dedinho bem na direção do meu nariz e gritou: “Você roubou meu papai! Devolve ele!”
“Nina! Não seja mal-educada”, disse Renee, dando tapinhas no ombro da filha num repreender sem vontade. Mas, quando ergueu os olhos para mim, eles brilharam com uma satisfação inconfundível e uma provocação deliberada.
Ela adoçou o tom outra vez, pingando falsa compaixão. “Helen, não leva pro lado pessoal. Você não entenderia — você nunca teve um filho. Criança fala as coisas mais absurdas.”
Você nunca teve um filho.
Ela mirou direto na ferida mais crua, sangrando, que sabia que nunca cicatrizaria. Estava dançando sobre o túmulo da minha filha — a bebê que morreu minutos depois de nascer — e ainda por cima em pé na minha propriedade, encenando aquela farsa como se já tivesse vencido.
Mas eu não explodi como antes. Não desmoronei. Não me virei para Travis e implorei que ele resolvesse. Meu coração tinha morrido de vez naquele calabouço sem sol.
Soltei uma risada fria, sem humor. Meu olhar passou por cima do teatrinho delas e se fixou na garganta de Nina.
Um colar delicado de diamantes repousava ao redor do pescoço dela, alinhado com pedrinhas minúsculas e cintilantes. Era o que eu mesma tinha desenhado e feito à mão quando estava grávida, tonta de esperança boba e ingênua — feito para a minha filha.
E, no primeiro aniversário da filha de Renee, Travis o roubara, sem um grama de remorso, e dera para a cria da amante.
“Travis.” Virei-me para o homem ao meu lado, o rosto dele já endurecendo como pedra. Minha voz saiu gelada. “Vai tirar esse colar do pescoço dela. E traz pra mim.”
No segundo em que as palavras saíram da minha boca, Travis e Renee empalideceram.
Renee reagiu na hora, puxando Nina para trás dela como um escudo humano. Ela gritou como se eu a tivesse atravessado com uma faca. “Helen! Você é uma mulher adulta e vai roubar de uma criança de três anos? Que porra é essa?!”
“Roubar de uma criança é errado?” Eu avancei devagar, um passo de cada vez, o olhar afiado como um caco de vidro. “Então por que você roubou uma coisa da minha filha?”
Estendi a mão para o colar no pescoço de Nina.
Nina explodiu em choros apavorados, se agarrando aos braços de Renee. O som do choro da filha dele — a filha de verdade, biológica — despertou alguma coisa primal em Travis na mesma hora. A proteção paternal inundou o rosto dele. Ele deu um passo à frente sem pensar, se colocando entre nós, e prendeu meu pulso com força, carrancudo.
“Helen. Já chega.” Ele baixou a voz, com uma pontinha de súplica se insinuando. “Eu sei que você está chateada, mas isso é entre nós, adultos. Não envolve uma criança. É só um colar —”
“SÓ um colar?”
Ergui o queixo e sustentei o olhar dele. “Travis, minha filha ainda está deitada naquela cova sem nome no interior. Sozinha.”
“Ela nunca chegou a fazer três anos. Nunca chegou a usar um colar bonito. Nunca nem teve a chance de te chamar de ‘pai’.”
Mantive o olhar fixo no dele enquanto até a última gota de sangue escoava do rosto de Travis, reabrindo a cicatriz mais feia — aquela que ele passara anos tentando enterrar. “Por que a minha filha não fica com nada, enquanto aquela pirralha pode usar o colar dela?”
Travis sabia exatamente o que aconteceria se recusasse. Toda a fachada de “dezenove anos dedicado” desmoronaria na mesma hora.
Ele apertou os olhos. Então, num gesto brutal, se desvencilhou das mãos de Renee que tentavam segurá-lo e — endurecendo o coração — arrancou o colar com rudeza do pescoço de Nina.
“Uááá! Papai, você me machucou!” O choro de Nina explodiu num grito agudo, ensurdecedor.
Renee encarou Travis sem acreditar, tremendo dos pés à cabeça. “Travis! Você enlouqueceu?!”
Os olhos de Travis estavam injetados, como se ele estivesse engolindo algo que não conseguia dizer. Ele não ousou olhar para Renee nem para Nina. Apenas estendeu o colar para mim, rígido — a corrente ainda quente do pescoço da criança.
Eu o peguei sem o menor traço de emoção e fechei o punho em volta dele com força.
Naquela noite, a escuridão pareceu se adensar, sufocante.
Deitei na cama de costas para a porta, agarrada ao colar que eu finalmente recuperara. A porta do quarto se abriu com um rangido baixo. Travis entrou de mansinho, sem fazer barulho. Levantou as cobertas e se enfiou atrás de mim, envolvendo-me com os braços numa ternura calculada e exagerada, como se pudesse abafar a humilhação de hoje sob uma intimidade falsa.
O hálito quente dele roçou meu pescoço, e sua voz veio macia, insinuante. “Helen… você é a única mulher que eu já amei. Eu ainda sou aquele Travis de dezenove anos que só tinha olhos pra você.”
Um dia, eu teria chorado e me agarrado a essa mentira bonita.
Agora, eu não sentia absolutamente nada.
Não me afastei. No escuro, falei com calma — calma demais.
“Travis. Os papéis do divórcio que a gente assinou… faz exatamente um mês que a gente deu entrada.”
O corpo atrás de mim endureceu, virando pedra.
Eu disse com a mesma naturalidade de quem comenta o tempo de amanhã. “Amanhã de manhã, a gente vai à prefeitura buscar a certidão de divórcio.”
Travis ficou completamente em silêncio. Os braços em volta da minha cintura se apertaram devagar, quase imperceptíveis, como se ele procurasse alguma coisa — qualquer coisa — para dizer e me fazer ficar. Mas naquele silêncio pesado, ele não conseguiu forçar nem uma sílaba.
Na manhã seguinte, o sol batia forte, duro e implacável.
Todo o processo foi surpreendentemente tranquilo. Sem atrasos. Sem complicações.
Apertei a certidão de divórcio na mão e saí do prédio com um peso a menos nos ombros.
“Helen!” Travis saiu correndo do saguão, o rosto um caos de emoções conflitantes. “Tá difícil achar táxi aqui… e-eu te levo pra casa.”
Eu parei e me virei, observando-o em silêncio. Aquele era o homem que tinha destruído minha vida — e depois, com aquela farsa absurda de amnésia, tinha me dado o último e patético fiapo de consolo que eu ainda teria.
Sorri de leve e, então, levantei a mão e chamei um táxi que acabara de encostar no meio-fio.
Puxei a porta.
“Não precisa.”
Entrei no banco de trás. Pela janela meio aberta, meu olhar pousou com calma no rosto de Travis — ainda tentando, mesmo agora, sustentar aquela fachada de devotado.
“Na verdade, Travis…” Fiz uma pausa e então falei baixo, desferindo o golpe final. “Você, aos dezenove, nem sabia dirigir.”
Ponto de vista de Travis
A verdade atingiu Travis como um trem de carga: Helen soubera o tempo todo que ele estava fingindo.
Por uma fração de segundo, a mente dele ficou completamente em branco.
Então o pânico explodiu dentro dele, cru e avassalador, ameaçando engoli-lo inteiro.
Se ela tinha enxergado através de tudo — que ele nunca tivera amnésia, que aquilo tudo era só um golpe que ele armou para enganá-la e fazê-la assinar o divórcio — então por que ela não o desmascarou?
